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Simpósio Missionário em Areia Branca - RN |
28 JANEIRO 2010 |
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Durante os anos em que cursei o Bacharelado em Teologia (e isto já faz bastante tempo!), realizava viagens durante as férias para projetos missionários específicos, tendo tido a oportunidade de me dirigir a vários Estados e regiões do Brasil. Passadas mais de duas décadas após a conclusão daquele curso, pude realizar nestes últimos dias uma experiência similar, igualmente em meu período de férias.
Saindo de São Paulo e descendo em Natal (RN), atrasando o relógio em uma hora (pois no nordeste não temos o horário brasileiro de verão), após algum contato com a capital potiguar (incluindo refeições e um tour pela via costeira e região das dunas de Genipabu), fui conduzido de automóvel em direção ao noroeste do Estado, com destino a uma pequena cidade próxima a Mossoró. Não seguimos pela rodovia principal, uma vez que fizemos a opção por um traçado mais curto. Seguimos o trajeto que atravessou os municípios que têm sofrido abalos sísmicos: Itaipu e João Câmara. Paramos no município de Jandaíra, onde pudemos visitar uma família: um jovem casal (ele com 30 anos) com um casal de filhos. O simpático casal, que nos recebeu de forma muito afável, conduz uma frente missionária local ainda incipiente, e o contato com eles foi muito especial. Prosseguimos viagem. O trajeto incluiu trechos por “estradas do óleo” (que são vias preparadas pela Petrobrás, ao redor das quais estão em movimento diversos “cavalinhos”, unidades de extração de petróleo); por vias secundárias não pavimentadas, empoeiradas e sacolejantes; por trechos severamente danificados pelas chuvas; e por outros que sofrem eventuais “invasões” das dunas. Já na costa central do Estado não é incomum encontrar animais nas vias, especialmente jumentos.
Após quase cinco horas de trajeto, chegamos a uma vasta planície
arenosa, que se perde no horizonte para todo canto em que se olha.
Caatinga, restingas e manguezais compõem o cenário. Caminha-se um pouco
mais, aproximando-se do litoral, e alcança-se uma via costeira, cercada
à esquerda por brancas dunas móveis e falésias vermelhas, num contraste
cromático que faz lembrar a camisa do Náutico pernambucano. Naquela
região foi filmado Maria, Mãe do Filho de Deus (2003), que foi um
dos mais caros do cinema nacional. Dirigido por Moacyr Góes e
protagonizado por Giovanna Antonelli e Padre Marcelo Rossi, o filme
recorreu àquelas dunas para ambientar o deserto da tentação de Cristo, e
àquelas falésias vermelhas
Ao aproximarmo-nos da pequena cidade de Areia Branca, percebemos que ela é toda rodeada de “baldes” de sal: tanto os baldes de extração quanto os de contenção, tendo estes últimos uma finalidade de controle ambiental. Montanhas brancas de sal estão por toda região, na cidade que, junto com Macau, município vizinho, compartilha o título de produtor nacional do produto, tanto para o consumo do brasileiro quanto para a exportação. Na maior parte do mundo, o sal marinho é mais caro que o sal de mesa. Entretanto, no Brasil, em função da escala de produção, é o tipo mais comum e barato. As maiores salinas do país estão situadas justamente no município em que eu estava chegando. Um odor característico vem dos baldes de sal, onde a borra ácida (ou “carago”) é extraída. Este material é a parte insípida do sal, que repousa no fundo dos baldes, e que precisa ser removido após a extração do mineral. O “carago” é utilizado para pavimentar vias e sarjetas nos locais de produção, e adquire uma compactação rígida que faz lembrar o asfalto. Imediatamente faz-se a associação com as palavras de Cristo no Sermão do Monte: “Se o sal for insípido, com que se há de salgar? Para nada mais presta senão para se lançar fora, e ser pisado pelos homens.” A substância ácida tem sido usada também em gesso agrícola e na composição com o cimento de argamassa, tornando-se mistura resistente e apropriada para construções em locais mais impróprios.
Na cidade plana (que me fez lembrar a cidade sem ladeiras em que morei por vinte anos, ao norte do Estado do Rio) hospedei-me à beira-mar, numa praia cercada de cajueiros. O cheiro das castanhas torradas me dava água na boca. Além de garrafas d’água, que consumi quase que compulsivamente na quente e úmida região, a castanha de caju foi o único outro produto que consumi no chalé do hotel onde me hospedei. A atual península onde se localiza a sede do município, ligada ao continente por duas rodovias, fora antigamente uma ilha. É em Areia Branca que está localizada a Ponta do Mel, o único lugar do mundo onde o sertão encontra o mar. O município localiza-se na foz do rio Apodi-Mossoró e do rio Ivypamin, que então formam um delta onde se localiza a cidade. Esta localiza-se a meio caminho entre Natal e Fortaleza. De fato está mais perto da capital cearense, conquanto este último trajeto não é exatamente o melhor. A maior cidade da região é Mossoró, que dista cerca de cinqüenta quilômetros, da qual Areia Branca foi desmembrado em 1892 e elevado à condição de município. Entre os quase trinta mil habitantes de Areia Branca, encontram-se muitos jovens. As drogas se fazem presentes, incluindo a cocaína e o seu subproduto, o crack. Os dois principais eventos são festivais: o de “Nossa Senhora dos Navegantes”, no mês de agosto, e o Carnaval. Quando deixava Areia Branca, pude perceber que já chegavam à cidade os caminhões palcos e trios elétricos.
Um pequeno porto, em frente à Igreja Matriz, é de onde parte o sal até o Terminal Salineiro de Areia Branca – que eu podia avistar da frente do hotel onde me hospedei, especialmente à noite quando as luzes são ligadas. Mais conhecido como Porto-Ilha de Areia Branca, este fica localizado a vinte e seis quilômetros da sede do município e distando quatorze quilômetros da costa. A construção do porto resultou da necessidade de suprir a demanda de sal marinho no mercado interno brasileiro. Dentre as hipóteses analisadas prevaleceu a da execução do sistema ilha artificial, sendo o projeto elaborado por uma empresa norte-americana. O Terminal Salineiro de Areia Branca foi inaugurado em 3 de fevereiro de 1970 e é administrado pela Companhia Docas do Rio Grande do Norte (Codern). Localizado em mar aberto, o porto-ilha não possui barra definida. O canal de acesso tem comprimento aproximado de 15km, profundidade mínima de 11m e largura variável entre 400m e 1.000m. Uma informação disponibilizada na internet dá conta que em 2000 o porto-ilha de Areia Branca movimentou 4.928.895 toneladas de sal, enviado dali para diversas partes do mundo.
A conferência da qual fui preletor foi um simpósio missionário,
realizado nos dias
23 e 24 de janeiro. O evento,
que se propõe a ser o primeiro de uma série, foi sediado em uma escola
do município. Esta, com boas e equipadas instalações, sediou o evento às
vésperas de sua inauguração. O simpósio recebeu a gestão e logística por
parte de uma igreja local – a Igreja Batista Nacional de Areia Branca
(IBNAB). Sendo uma congregação nova, o templo da IBNAB ainda está em
construção. Ela conta com cerca de oitenta membros, majoritariamente
jovens. A IBNAB é filiada a Convenção Batista Nacional,
denominação carismática em sua origem, doutrina e prática. A igreja
conta com três presbíteros, todos jovens, e quatro diáconos. O mais
velho dos presbíteros é o Pr.
Daniel Wagner da Silva, 29 anos, solteiro, natural
da cidade, e bastante conhecedor do contexto evangélico, não apenas em
seu Estado como também no Brasil e fora dele. Daniel é o caçula dentre
quatorze irmãos, recebeu a imposição de mãos há dois anos, e ocupa
também a função de maestro de coral do município. Ele tem tido uma
trajetória evangélica muito variada, com incursões que vão
desde o movimento batista fundamentalista até os movimentos da saúde e
prosperidade. Músico por um shape natural, Daniel tem
conduzido aquela congregação vibrante e musical - veja-se o grupo de
cerca de quinze instrumentistas (de teclado, sopro, cordas e percussão)
que executava a música do simpósio, além dos músicos cantores e equipe de
apoio em som, imagem e vídeo. Daniel reconhece que, em sua trajetória
pessoal, conduziu a igreja pelas ondas que vêm marcando o cenário
evangélico brasileiro, numa filosofia de ministério em que o ativismo e
os eventos se multiplicavam, fazendo lembrar a inquieta e preocupada
Marta de Betânia. Nos últimos anos, porém, isto foi estancado, quando o
pastor confrontou-se com a Teologia Reformada. A leitura de livros
reformados passou a marcar a vida do jovem ministro, o que logo afetou o
co Os demais jovens da igreja partiram sedentamente para a leitura e reflexão em cima do conteúdo reformado, valendo-se inclusive do amplo acervo disponibilizado pela internet. Desde leituras de obras dos Pais da Igreja, como Hipólito, até obras dos Reformadores do século XVI (como é o caso de Calvino), e as reflexões e legado dos reformadores anglo-americanos do século XVII (apelidados de “puritanos”). Uma “ebulição reformada” se vê na congregação, com debates e conversas em temas ligados às doutrinas da graça e da soberania de Deus. Eu mesmo me vi espremido pelos jovens, que tinham lá as suas questões teológicas prementes... A cidade é calorenta e a IBNAB é calorosa, e o público chegava para os encontros em meio a abraços e saudações de “graça e paz”, característica marcante do dia-a-dia de muitas igrejas evangélicas no Brasil. Um jornal é publicado em nome da igreja (já com quarenta e duas edições), além de um informativo missionário. Um fórum sedia o espaço da comunidade na internet. Depois de um bom tempo sem promover qualquer evento extraordinário, a pausa foi quebrada com a realização deste primeiro simpósio.
Antes mesmo de chegar em Areia Branca, tive o privilégio de mediar
alguns contatos, os quais resultaram num encontro realizado na cidade,
reunindo quatro pastores. Deste encontro participaram, além do pastor local:
Renato Lúcio Dantas da Silva (missionário manauara, que com sua família
atua na vizinha cidade de Açu), Elias Pereira de Lima (tam Minha participação no evento deu-se com uma apresentação informal na noite de sexta-feira; com uma breve introdução na manhã de sábado, onde pude fazer uma delimitação de escopo e conceito, apresentando o meu propósito geral; duas exposições bíblicas às noites de sábado e domingo; e duas palestras na manhã dominical. Fui grandemente encorajado pela forma como as palavras foram recebidas. As tardes eram reservadas para oficinas e relatos de missionários. Voltei de Areia Branca muitíssimo grato ao bom Deus pelo que vivi e presenciei. A sua providência foi sensível em riqueza de detalhes. O jovem Alexandre Dantas (ao meu lado na foto) foi o gestor do evento, como diretor do Conselho Missionário. Em sua correspondência, ele antecipou a finalidade do evento:
“Vós sois o sal da terra”. Foi muito encorajador ver que, na terra do sal, e numa cidade distante e marcada por uma cultura de entretenimento, jovens estão motivados pela ação missionária. O “sal” que se tornar insípido perde três qualidades principais: 1. O seu sabor: “Se o sal for insípido, com que se há de salgar?”; 2. O seu valor: “Para nada mais presta”; 3. O seu lugar: “Para se lançar fora”. Parece ter sido essa a grande lição que marcou essa minha viagem até aquela Finisterra brasileira. |
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