134  - Johann Sebastian Bach. Inigualável!

06 DEZEMBRO 2008

 

Dias atrás, fui buscar minha filha no curso de música. Naquele dia ela submeteu-se a dois exames, um de Ditado e outro de Percepção musical. Quando saiu dos exames estava visivelmente abatida. Não fora muito bem. Dentro do carro, na volta para casa, ainda que não quisesse desencorajá-la, acho que acabei sendo traído, embora não tenha dito uma palavra sequer neste sentido. Dirigia em pleno Anel Viário de nossa cidade quando, de repente, uma frase dela quebrou o silêncio: "Pai, eu não possuo o seu talento para música!"

Ouvir aquilo cortou-me o coração. Por dois motivos: como pai, acho que, infelizmente, também não conseguira disfarçar o meu desapontamento. O outro motivo é que ela estava enganada: não tenho e nunca tive "talento" para a música! Talvez aquela frase doída dela se deva a alguns fatos: tive algumas breves introduções a poucos instrumentos, à teoria musical, ao canto coral, e à regência. Entretanto, penso que o motivo principal que a moveu àquela palavra foi o fato de que gosto imensamente de música. Gosto do antigo ao contemporâneo: do canto gregoriano, da polifonia renascentista, da música barroca, dos clássicos românticos, da salmódia e hinódia cristãs, da música popular, e de muitos compositores de nossos dias... Quando ouço uma boa música, penso que àquele momento parece mesmo caber a expressão do poeta quando diz "que é eterno enquanto dura". A música sugere possuir alguma coisa de eterna, de anterior à criação do universo.

E quando penso em música, penso nos músicos. E dentre estes, um é inigualável!

Johann Sebastian Bach (1685-1750)

Quando falamos em Bach, logo lembramos suas fugas espetaculares, seus concertos e, é claro, o cravo bem temperado. Ignora-se, porém, que Johann Sebastian Bach (1685-1750) era de uma família à qual pertencem 52 músicos de renome.

Seu avô, Christoph Bach (1613-1661), era músico da “Corte e da Cidade” de Weimar. Seu pai, Johann Ambrosius Bach (1645-1695), também foi músico da “Corte e da Cidade” de Eisenach, cidade natal de Johann Sebastian Bach. Seu pai o ensinou a tocar violino e viola, bem como a escrever as notas musicais; e o criou na fé protestante. Além de Johann Sebastian, Johann Ambrosius teve mais dois filhos músicos: Johann Jakob Bach (1682-1732) — oboísta do exército sueco) e Johann Christoph Bach (167 -172 ) — organista na cidade de Ohrdruf; foi ele que, após a morte prematura do pai, cuidou do jovem Johann Sebastian.

Johann Sebastian Bach nasceu a 21 de março de 1685, em Eisenach, atual Alemanha. Todavia, como o calendário que o Sacro Império Romano-Germano tinha adotado desde o ano 45 a.C. era o Juliano, e os Bach eram protestantes (a Alemanha protestante só adotou o atual calendário em 1700), segundo o nosso calendário (gregoriano), ele nasceu em 31 de março. Foi batizado 2 dias depois, na Georgenkirche (Igreja de S. Jorge), na fé luterana.

A morte prematura dos pais levou o irmão Johann Christoph a terminar a formação musical do menino que contava então com 10 anos.

Gênio da matemática, Bach também foi uma figura excêntrica em sua arte dificílima. Ele era um perfeccionista, obstinado em combinar as melodias da música, buscando sempre a harmonia perfeita.

Aos onze anos Johann Sebastian já tocava cravo com distinção e entrou no Coro Musicus de Ohrdruf – um coro de 20 vozes. Estudou na Latienschule de Eisenach (mesma escola que Lutero freqüentou), onde estudou teologia, latim e alemão. Sua carreira como músico “da Corte e da Cidade” só inicia realmente aos 15 anos, como cantor no Coral da Igreja de São Miguel, em Lüneburg.

Primeiro emprego: organista da NeueKirche, em Arnstadt

Em 1703 Johann Sebastian também consegue o primeiro emprego como organista na cidade de Arnstadt. Foi primeiramente convidado a testar o órgão da Igreja de São Bonifácio. Para fazer o teste, Bach deu um concerto no novo órgão da Igreja. Foi então contratado para ser o organista em 9 de agosto de 1703. No contrato com a Igreja, Bach deveria tocar todos os domingos, dias de festa e em outros dias de serviço divino na NeueKirche (igreja nova). Eis parte do contrato que a Igreja de São Bonifácio firmou com o jovem Johann Sebastian Bach:

O órgão será confiado a si para que o toque apropriadamente, o vigie, tome muito bem conta dele e nos informe quando sofrer alguma avaria, ou quando estiver fraco, ou quando precisar de algum reparo, não permitindo o seu acesso a ninguém sem o conhecimento do superintendente, para evitar algum estrago e manter tudo em ordem. Também na vida diária deve cultivar o temor a Deus, sobriedade e amor à paz, evitando tudo o que possa distraí-lo do seu verdadeiro chamamento, que é, em todas as áreas, conduzir-se em direção a Deus.

O jovem Bach recebia, por seu ofício, cinqüenta florins anualmente, mais uma licença de alojamento e refeições. Mas o organista – que contava então com 18 anos – era obcecado pelo órgão, obstinado e impulsivo, vivendo então um período de turbulência, pois freqüentemente envolvia-se em brigas.

Juventude excêntrica

Exemplo da sua conduta teimosa e excêntrica foi a briga que teve em 4 de agosto de 1705. Johann Sebastian, descontente com o desempenho de Geyersbach, tocador de fagote, chamou-o de Zippel Fagottist (que em livre tradução seria algo como fagotista “cabra velha”). À noitinha, quando saiu a passear com sua prima Bárbara (que mais tarde seria a sua esposa), o ofendido interpelou-o na rua exigindo uma reparação à ofensa. Johann Sebastian, muito orgulhoso, negou-se, e o Zippel Fagosttist passou a dar-lhe bengaladas. Bach puxou a sua espada para defender-se. O resultado do combate foi uma reprimenda do clero, pois, de acordo com o contrato firmado, ele deveria ser pacífico em sua vida privada. Foi também injustamente acusado de não cumprir sua composição de música cifrada e não ensaiar as crianças do coro – situações essas não envolvidas no contrato.

O encontro de dois gênios: Buxtehude exerce uma influência definitiva sobre Bach

Em novembro do mesmo ano, Bach pediu uma licença de um mês para ir a Lübeck visitar um organista de renome, Dietrich Buxtehude (1637–1707). Essa viagem de mais de 320 quilômetros foi feita a pé. Em Lübeck maravilhou-se com a técnica de Buxtehude, que era organista na Marienkirche (Igreja de Santa Maria). Buxtehude contava já com 68 anos, dirigia uma série de Vésperas durante os cinco domingos do advento – as Abendmusiken – com cerca de quarenta músicos. O estilo dessas Vésperas provavelmente influenciou as suas cantatas, apesar de as obras apresentadas na Abendmusiken não serem de cunho litúrgico. Bach ficou profundamente impressionado com o virtuosismo de Buxtehude e com a sonoridade de seu órgão, que possuía 3 manuais e 52 registros (o de Bach em Arnstadt possuía 2 manuais e 23 registros).

Bach não andou 320 quilômetros à toa para ouvir Dietrich Buxtehude tocar. Este ainda hoje é considerado como um dos grandes organistas do barroco alemão. Além da visita de Bach, outros músicos de renome, como Häendel e Matterson, também acorreram a Lübeck para se familiarizarem com a música de Buxtehude.

Buxtehude, às portas da morte, fez um testamento no qual dizia que o organista que se seguisse a ele na Marienkirche deveria se casar com sua filha solteira. Era uma tradição ligada ao organista da Marienkirche. O próprio Buxtehude se casou com a filha mais nova do antigo organista (Franz Tunder). A filha mais velha de Tunder já havia se casado com Samuel Franck, que assumiu a posição de Kantor da Marienkirche e da Catherineum Lateinschule, a escola que possuía um coral do qual provinham os cantores para os serviços religiosos da Marienkirche. A condição de casar com a filha do predecessor não se mostrou muito atrativa para os jovens músicos da nova geração (como Bach e Häendel), porém, três meses antes de sua morte em 1707, Buxtehude conseguiu casar sua filha com Johann Christian Schieferdecker. 

Na Marienkirche de Lübeck, Buxtehude fizera significativas mudanças nas tradições musicais da Igreja, estabelecendo as já mencionadas Abendmusik, eventos que atraíam grande interesse, visitantes e comerciantes para Lübeck. Como organista, Buxtehude representa o auge da tradição alemã (apesar de ele próprio se considerar um dinamarquês), exercendo decisiva influência nos músicos da geração subseqüente.

Convém destacar aqui Membra Jesu Nostri (em português: As partes do corpo do Nosso Senhor Jesus), BuxWV 75, um ciclo de sete cantatas compostas por Dieterich Buxtehude, em 1680, e dedicadas a Gustaf Düben (1628-1690 - organista e compositor sueco da Igreja Germânica de Santa Gertrude, em Estocolmo). O texto Salve mundi salutare – também conhecido como Rhythmica oratio – é um poema escrito pelo poeta medieval Arnulf of Louvain (1200-1250 – abade católico que escreveu o ciclo de poemas sobre os membros crucificados de Cristo). O ciclo é dividido em sete cantatas, cada qual dedicada a uma parte do corpo crucificado de Jesus: pés, joelhos, mãos, lado, peito, coração e face. A cantata ad manus, dedicada às mãos do Nosso Senhor, contém o seguinte texto:

"Quid sunt plagae istae in medio manuum tuarum?"

(Que são essas chagas no meio de Vossas Mãos?)

Salve Jesu, pastor bone,

fatigatus in agone,

qui per lignum es distractus

et ad lignum es compactus

expansis sanctis manibus.

Manus sanctae, vos amplector,

et gemendo condelector,

grates ago plagis tantis,

clavis duris guttis sanctis

dans lacrymas cum oculis.

In cruore tuo lotum

me commendo tibi totum,

tuae sanctae manus istae

me defendant, Jesu Christe,

extremis in periculis.

"Quid sunt plagae istae in medio manuum tuarum?"

A imaginação de Buxtehude era impressionante e dava às suas músicas leveza, vida e uma sensação de improviso. Atualmente os trabalhos de Buxtehude o colocam como o grande compositor do Norte da Europa barroca no período entre Heinrich Schütz e J. S. Bach.

A volta de Bach à Arnstadt; novo estilo e relações tensas após conhecer Buxtehude

Johann Sebastian volta a Lübeck quatro meses depois, apesar de sua licença ter sido para apenas um. Algum tempo depois se casa com Maria Bárbara de Arnstadt, sua prima. Ela lhe deu sete filhos em treze anos de casamento, mas durante uma viagem do marido adoeceu subitamente e morreu.

As autoridades clericais da Neuekirche não gostaram da demora de Bach e repreenderam-no novamente. A tal fato somou-se outra recriminação: ele ornamentava tão demasiada e tão elaboradamente o coro, que os outros músicos ficavam confusos. Tal ornamentação veio, provavelmente, da experiência que teve nos meses em que conviveu com Buxtehude. Apesar da pouca idade, Bach já era considerado mestre em seu ofício de organista e fez transformações musicais que escandalizavam seus superiores. Não mudou o seu pensamento, entretanto. Prova disso foi que em fevereiro de 1706 foi chamado para discutir o seu comportamento inadequado com o superintendente Johann Gottfried Olearius (1635-1711); este o repreendeu duramente e deu-lhe o seguinte ultimato:

Queixas têm sido feitas ao Concílio. Dizem que agora acompanha os hinos com surpreendentes variações e ornamentação irrelevante, que adultera a melodia e confunde a congregação. (...) Estamos surpreendidos pelo fato de haver desistido de tocar música para instrumentos e vozes e consideramos que isto tenha a ver com suas más relações com os alunos da Latienschule. Nós devemos exigir-lhe que nos diga, de uma forma clara e precisa, se está preparado para acompanhá-los e orientá-los na música vocal e instrumental, assim como nos hinos. Não podemos contratar um Kantor [que era o encarregado de ensinar música na escola e organizava eventos musicais] e deve nos dizer claramente se está preparado para fazer tudo o que mandarmos. Se não, nós encontraremos outro organista que o faça. (...) Se no futuro pretender exercitar o seu tonus peregrinus, deve mantê-lo e não voar logo instantaneamente para um tonus contrarius [tonus peregrinus é um acompanhamento simples, que se baseia num cantus firmus; tonus contrarius é um acompanhamento que tem por base o contraponto e uma ornamentação e harmonia complexas, que Bach aprendeu com Buxtehude].

Bach também foi avisado que, se não cumprisse as funções conforme determinado, deveria entregar o posto ao seu primo Johann Ernst e não seria mais pago. Recebeu todos os pagamentos até que deixou o cargo, apesar de cumprir suas funções da maneira que lhe apetecia. As repreensões se tornaram cada vez mais severas, até que em novembro de 1706 recebeu uma contundente crítica pública:

O organista Bach (...) deverá informar se está pensando em fazer música com os estudantes ou não, como já foi anteriormente estabelecido, mas, se ele não se envergonha de receber o seu salário, também não devia envergonhar-se de fazer música com eles.

Outra acusação foi o grave ultraje de permitir que uma mulher desconhecida (que seria a sua própria esposa Maria Bárbara – fato este nunca comprovado) cantasse no coro, pois naquela época não era permitido às mulheres cantar na igreja.

Dessa época são as primeiras cantatas – gênero mais importante da música de Câmara vocal do período barroco e principal elemento musical do culto luterano. Sua cantata mais famosa é “Herz und Mund und Tat und Leben” (Coração, Boca, Feitos e Vida) – a BWW 147 – cujo coral final é “Jesu bleibet meine Freunde” (Jesus alegria dos homens). Apesar de ser a 32ª cantata composta por Bach (das que sobreviveram) foi lhe dado o nº 147 no catálogo completo de suas obras. Nessa célebre composição o coral se sobrepõe a uma grande sucessão de tercinas (uso de três notas ocupando o tempo que normalmente seria ocupado por duas) – um dos símbolos bachianos para indicar felicidade.

A maior parte do texto da Cantata 147 é de Salomão Franck e não de Bach como geralmente se acredita. Este fez somente a música e a harmonização. Mas o texto do 10º movimento (Jesus alegria dos homens) foi escrito por Martin Janus que se inspirou no texto bíblico de Isaías 26:8: “No teu nome e na Tua memória está o desejo da nossa alma”.

Texto original em alemão:

Jesus bleibet meine Freude,

meines Herzens Trost und Saft,

Jesus wehret allem Leide,

er ist meines Lebens Kraft,

meiner Augen Lust und Sonne,

meiner Seele Schatz und Wonne;

darum lass' ich Jesum nicht

aus dem Herzen und Gesicht.

(de BWV 147, movimento coral nº 10)

Tradução livre para o português:

Jesus continua sendo minha alegria,

o conforto e a seiva do meu coração.

Jesus refreia a minha tristeza,

Ele é a força da minha vida

É o deleite e o sol dos meus olhos,

O tesouro e a grande felicidade da minha alma.

Por isso, eu não deixarei Jesus sair

Do meu coração e da minha presença.

Músicas profanas de Bach

Após a morte de sua primeira esposa, Bach foi nomeado Kapellmeister (mestre da capela) em Cöthen. Sob a proteção do príncipe calvinista Leopold, ele ganhava um alto salário e pôde dedicar-se à composição. São dessa época seus Concertos para violino e os seis Concertos de Brandenburgo – estes feitos sob encomenda para o duque de Brandenburgo.

A Chaconne da Partita nº2, em Ré menor, para violino solo (BWV 1004), foi presumivelmente composta nessa época (1717/1723), como memorial fúnebre em homenagem à sua esposa Maria Bárbara. Esta Chaconne é um dos poucos trabalhos de variações de Bach e alguns o reputam como o maior conjunto de variações escrito para um só instrumento. As únicas outras variações que se aproximam da sua perfeição são as Variações Goldberg (1742) também compostas por ele – estas últimas, variações que foram encomendadas pelo conde Hermano de Keyserling, da Prússia, que pediu a Bach que compusesse uma música para preencher suas habituais noites de insônia. Dentro da harmonia da Chaconne estão as notas do coral "Christ lag in Todesbanden" (Cristo jaz sujeito à morte), que representa a intensa tristeza da morte e a esperança de uma vida eterna.

Segundo casamento e dedicação exclusiva à música sacra

Um ano após a morte de Maria Bárbara, Bach casa-se (apaixonado) com a filha de um trompetista da corte e cantora – Anna Magdalena – que foi a companheira da sua vida. Ele contava então com 36 anos, e ela, com 20; tiveram 13 filhos.

Em 1723, Bach muda-se para Leipzig, onde assume o posto de organista e professor da Igreja de São Tomas. Nessa época seu trabalho é totalmente voltado ao sacro, abandonando definitivamente a música profana. Bach recolhe-se a um serviço dedicado a Deus. São dessa época as obras primas Johannespassion (1723) e Matthäuspassion (1729), respectivamente “A Paixão segundo João” e “A Paixão segundo Mateus”.

Atualmente Bach é tido como o maior compositor do barroco e por muitos o maior compositor da História. Suas obras refletem a profundidade intelectual do autor, bem como uma expressão emocional profunda, além de grande domínio técnico. É ditado corrente entre os músicos que “quem aprende a tocar Bach toca qualquer música”. Todavia, ele foi pouco reconhecido em vida. Era tido por todos como um virtuose do órgão, talvez o melhor de que se tinha notícia. Era um organista extraordinário, com tal arrojo que se permitia tocar usando também os polegares, uma ousadia para a época. Como compositor, porém, era considerado antiquado e sem criatividade. Outros compositores, como Häendel e Telemann, tiveram as obras muito mais apreciadas no período. Félix Mendelssohn (1809-1847) descobriu em 1828 a Matthäuspassion e passou a ser um dos responsáveis pela divulgação da obra de Bach, até então bastante esquecida. Com a morte de Johann Sebastian Bach em 1750, os estudiosos de música marcam o fim da Idade Barroca.

Luterano devotado, Bach compôs grande número de peças sacras: mais de duzentas cantatas, vários motetos, cinco missas, três oratórios e quatro paixões, uma das quais, a Matthäuspassion (1729) – A Paixão Segundo São Mateus – é seguramente uma obra-prima da música ocidental. Bach também escreveu grande quantidade de música para o seu instrumento preferido, o órgão.

A Arte da Fuga: obra derradeira

Sua última obra foi a magistral, porém inacabada Die Kunst der Fuge (Arte da Fuga). Bach trabalhou em A Arte da Fuga durante os últimos três anos de sua vida, de 1747 a 1750. Por ironia do destino, a primeira audição mundial dessa obra-prima só ocorreu quase 200 anos mais tarde, em 26 de junho de 1927. A Arte da Fuga é considerada por estudiosos da música como a obra instrumental mais extensa e mais coerente de Bach. E, quanto à concepção e estruturação, a mais espiritual de toda a música ocidental.

A estética musical da época era a "teoria dos afetos", segundo a qual a música exprime paixões e emoções como ira, amor, ciúme, inveja. Mas a expressão de sentimentos – que existia em Bach sempre no ambiente da coletividade luterana – desaparece agora por completo. Quanto mais o mundo se inclinava para o sensorial e o sentimental, valorizando a individualidade, tanto mais Bach se afastava de seus contemporâneos e refugiava-se no passado, que considerava o "espelho do universo". O célebre compositor, que vivia a grandiosa tensão entre o mundo antigo e o novo que se anunciava, já não se importava com a realização sonora de sua arte, cuja realidade se encontrava em longínqua abstração. O trabalho artístico significava para ele uma visão puramente espiritual, e os meios dos quais se servia, uma vez despojados do sensorial, chegaram à sublimação máxima.

A Arte da Fuga tomou o compositor até seus últimos dias, tendo sido deixada suspensa e inacabada a fuga final. A morte arrancou-lhe a pena das mãos, quando ia introduzir, na última fuga, as notas que correspondiam às quatro letras de seu nome B.A.C.H. – na nomenclatura germânica, as notas musicais representadas por letras que formam o nome de Bach são si bemol, lá, dó, si. O terceiro tema do inacabado contraponto XIV (uma fuga com três temas) de A Arte da Fuga, foi, obviamente, sua última obra, como que para assinar esse impressionante testamento musical. Esse último tema caracteriza-se por uma profunda tristeza, sem igual na música de nossa cultura. Com A Arte da Fuga termina um dos capítulos mais emocionantes da história da música ocidental.

Provavelmente, por causa do contexto no qual Bach o empregou, compositores mais recentes viram neste tema um tanto intratável um desafio às suas habilidades contrapontistas.

Um dos filhos de Bach, Johann Christian, bem como seu aluno J. L. Krebs, escreveram, ambos, fugas sobre este motivo, mas ele adquiriu maior popularidade com a redescoberta de Bach no século XIX. Schumann, cujo interesse nas equações letra-nota é bem conhecido, escreveu seis fugas sobre B-A-C-H (opus 60) para órgão ou piano com pedaleira. Liszt, Reger e Busoni usaram o motivo para erguer imponentes monumentos em memória de seu gerador. Também foi explorado por Rimsky-Korsakov e d'Indy, entre outros, e pelos compositores da escola de Viena: Schoemberg, o pai do atonalismo, e seus alunos Albam Berg e Webern.

Bach nunca enriqueceu com a música e trabalhou até os últimos dias de vida. Morreu no dia 28 de julho de 1750, cercado pelos seus entes queridos, e completamente cego, em virtude de uma cirurgia de catarata feita por um vigarista. Encontra-se sepultado num jazigo sem marca na Igreja de São Tomas. Sua viúva, Anna Magdalena Wülken Bach, morreu de penúria num asilo para pobres.

Sou meramente um leigo em música. Então me perdoe antecipadamente. Quando ouço várias das geniais e magníficas obras de Mozart, como o seu Réquiem ou a Flauta Mágica; ou quando ouço o oratório O Messias de Häendel; ou a suavidade dos violinos de Vivaldi; ou as sinfonias de Beethoven; ou os movimentos vigorosos dos compositores russos, apenas para citar alguns poucos, fico um tanto confuso e indefinido em meus gostos. Há tanto de sublime! Porém, passado algum tempo, quando volto a ouvir as composições bachianas, entre elas “Jesu bleibet meine Freunde” (Jesus alegria dos homens), então os sentimentos me parecem voltar ao seu lugar de clareza e definição. Aquela música, e Johann Sebastian Bach, se impõem diante de mim como inigualáveis. De fato, soa-me com algum sentido o que disse o teólogo suíço Karl Barth (1886-1968): "quando os anjos estão em festa entoam as sinfonias de Mozart, mas quando estão reunidos em família - petit comitè - se extasiam com a música de Bach"!

  

Ex Corde

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