130  - IX Conferência FIEL em Moçambique

15 agosto 2008

Moçambique é um país da costa oriental da África Austral, limitado a norte pela Zâmbia, Malawi e Tanzania, a leste pelo Canal de Moçambique e pelo Oceano Índico, a sul e oeste pela África do Sul e a oeste pela Suazilândia e pelo Zimbabwe. Cercado de vizinhos que têm o Inglês como língua oficial, Moçambique, antiga colônia e província ultramarina de Portugal, integra a CPLP (Comunidade dos Países de Língua Portuguesa), tendo, portanto, o idioma lusitano como oficial. Além do idioma europeu, o país tem outros vinte e dois dialetos tribais, não oficiais. Membro da ONU, da União Africana e da Commonwealth, Moçambique é igualmente membro fundador da SADC (Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral) e, desde 1996, da Organização da Conferência Islâmica. Sua capital e maior cidade é Maputo, ao sul do país, seguida por Beira, na província de Sofala, ao centro, e Nampula, capital da província de igual nome, ao norte. O censo de 2007 ofereceu uma estimativa de mais de 20 milhões de habitantes; o clima é subtropical; a moeda é o Metical (mzn); e o país insere-se entre os mais pobres do mundo.

O País

A história de Moçambique encontra-se documentada pelo menos a partir do século X, conquanto vários  achados arqueológicos permitem caracterizar a "pré-história" do país (antes da escrita). Provavelmente o evento mais importante dessa pré-história seja a fixação nesta região dos povos bantus que, não só eram agricultores, mas introduziram a metalurgia do ferro, entre os séculos I e IV. Entre os séculos X e XIX existiram, no território que atualmente é Moçambique, vários estados bantus.

A penetração portuguesa em Moçambique, iniciada no início do século XVI, só em 1885 — com a partilha de África pelas potências européias durante a Conferência de Berlim — se transformou numa ocupação militar, com a submissão total dos estados ali existentes, levando, no início do século XX, a uma verdadeira administração colonial.

Depois de uma guerra de libertação que durou cerca de dez anos, Moçambique tornou-se independente em 25 de junho de 1975, na seqüência da Revolução dos Cravos em Portugal. Após a independência, com a denominação de República Popular de Moçambique, o país seguiu uma política socialista, que teve que abandonar em 1987, quando foram assinados acordos com o Banco Mundial e FMI; esta mudança foi, em parte, resultado da dolorosa guerra de desestabilização que o país sofreu entre 1976 e 1992. Na seqüência do Acordo Geral de Paz, o país assumiu o pluripartidarismo, tendo tido as primeiras eleições com a participação de vários partidos em 1994.

Atualmente o país sofre com o êxodo rural, que vai inchando as maiores cidades e tornando-as uma arena fértil para todo tipo de problemas; a fome é um inimigo crescente, agravada na crise mundial em torno da questão dos alimentos; violência, corrupção e insegurança são desafios constantes; e as muitas enfermidades, tais como AIDS, malária, cólera, vitimizam largamente, numa batalha que abate principalmente os mais frágeis, a exemplo das crianças. Entre os tristes índices que o país detém: Expectativa de vida M/F: 44/47 anos (1995-2000); Mortalidade infantil: 114 por mil nascimentos (1995-2000); Analfabetismo: 56,2% (2000); IDH (0-1): 0,341 (1998). Moçambique integra o funesto coro de países em um continente que é, ao mesmo tempo, muito rico e muito pobre.

Convém destacar que Moçambique tem recebido algumas grandes companhias brasileiras, que têm empregado mão-de-obra local. O turismo também tem sido incrementado, com novos investimentos, e já se verifica o surgimento de alguns balneários com razoável estrutura. A costa moçambicana tem recantos belíssimos, e o Índico oferece uma paisagem bucólica e muito aprazível.

O Quadro Religioso

O censo de 1980 apontava 47,8% de religiões tribais animistas, cristianismo 38,9% (católicos 31,4%, outros cristãos 7,5%), islamismo 13%, e outras 0,3%. O Catolicismo Romano, por força do passado colonial sob a dominação portuguesa, e o Islamismo são dominantes em Moçambique, quase com o mesmo número de seguidores, segundo os dados mais atuais.

Desde a independência, a Igreja Católica, outrora beneficiada pelo seu casamento com o Estado, vem perdendo força e posições. Primeiro, há falta de quadros, houve uma redução de recursos financeiros e a igreja debate-se em divisões internas. Segundo, a igreja é confrontada com a competição de outros grupos religiosos e seitas, tais como a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus, de origem brasileira), que vêm ganhando terreno em muitas cidades. Os grupos Protestantes, em geral, estão estabelecendo-se mais fortemente no norte do país (Niassa, Nampula, Cabo Delgado) enquanto os muçulmanos estão descendo para o sul, instalando-se nos distritos das províncias de Inhambane e Gaza.

A influência do Islamismo em Moçambique é mais forte no centro e norte do país, devido aos intensos contatos ali mantidos entre a população autóctone e mercadores árabes, antes da chegada dos primeiros colonos portugueses, no século XV. Só a partir da II Guerra Mundial, o Islã passou a difundir-se com mais intensidade para sul e interior do território. O norte do país é, por conseguinte, a região de maior implantação do Islamismo (tribos Macuas e Macondes). Há quem estime que na província de Cabo Delgado cerca de oitenta por cento dos 2,5 milhões de habitantes são muçulmanos. Com a independência de Moçambique foram criados o Conselho Islâmico de Moçambique e o Congresso Islâmico de Moçambique, a que se associaram a maior parte das mesquitas do país, comunidades islâmicas, centros islâmicos e associações islâmicas. Alguns dados estatísticos apontam que em 1950 havia cerca de 600 mil muçulmanos em Moçambique e que na década de 60 assistiu-se a um rápido crescimento do seu número, atingindo já em 1974 os 1,2 milhões de muçulmanos. Em 1982, segundo números oficiais, ascendia a 2,249 milhões de muçulmanos. Em 2007 estima-se que os muçulmanos se aproximam de um quarto dos 20 milhões de moçambicanos!

A forte presença da comunidade muçulmana em Moçambique tem levado os líderes islâmicos a reivindicar a consagração de feriados nacionais nas principais datas do calendário islâmico, justificando a exigência com o fato de o dia 25 de dezembro (Natal cristão) ser feriado nacional em Moçambique. Com o propósito de não cair em contradição com o caráter laico que adotou para o Estado, logo após proclamar a independência do país, em 1975, a FRELIMO estabeleceu que o dia 25 de Dezembro passasse a ser celebrado como "Dia da Família" e não como "Natal de Jesus Cristo”. Há cerca de quatro anos, o então chefe de Estado moçambicano, Joaquim Chissano, recusou promulgar uma lei aprovada pela Assembléia da República que consagrava as datas dos principais acontecimentos da religião islâmica como feriados oficiais, precisamente com fundamento no caráter não confessional do Estado moçambicano.

A influência do Islamismo em Moçambique é crescente, mesmo na esfera governamental, e agrupamentos têm emergido, os quais reagem contra as influências cristãs, e em determinadas hipóteses serão capazes de uma ação comum. Também fala-se de alianças econômicas entre grupos do Estado e grupos econômicos muçulmanos... António Enes sugere que “se ainda houvesse na costa oriental de África um Estado muçulmano forte e prestigioso, e esse estado soltasse o grito da revolta em nome da religião contra as soberanias cristãs da Europa, esse grito teria eco dentro do próprio palácio de governador de Moçambique (...)".

IX Conferência FIEL em Nampula

Saindo do Brasil no sábado, 19 de julho, entramos no continente africano através da África do Sul. Experimentando os aeroportos lotados, os atrasos e cancelamentos de vôos, extravios de bagagens, e o fuso horário adiantado em cinco horas, passamos o domingo dia 20 nos aeroportos. Chegamos em Maputo, capital de Moçambique, após às 22 horas do domingo. Dormimos algumas poucas horas, levantamo-nos às cinco da manhã, e seguimos para o norte do país, para a cidade de Nampula.

Coordena o projeto da Editora FIEL no país, Karl Peterson, 46 anos, missionário norte-americano, casado com Glynn, e pai de Elsa (13), Col (11), Sonia (9), Lael (7), e de um casal de gêmeos sul-africanos, Filemon (6) e Johana (6). Peterson chegou à África em 1996, depois de passar um ano em Lisboa, em Portugal. Instalou-se em Maputo, e começou a trabalhar com a Editora FIEL em 1997, administrando o projeto “Biblioteca do Pastor”, e depois de três anos, as conferências tiveram início. Karl mudou-se para a África do Sul em dezembro de 2003, onde atualmente está pastoreando uma igreja da União Batista da África Austral. Morando bem próximo à fronteira com Moçambique, é diretor de uma Escola Bíblica em Maputo, e vem coordenando nos últimos anos, na cidade em que reside, uma Conferência de Evangelical Press para pastores e líderes sul-africanos. Karl é Bacharel pela Universidade do Colorado, e Mestre em Divindades pelo Seminário Teológico de Westminster na Filadélfia. Enquanto esteve na Filadélfia, pastoreou por quatro anos uma Igreja dos Irmãos. Este ano esteve na Conferência de Nampula acompanhado de sua filha Elsa, e também de um jovem norte-americano, a quem hospedava

Tive o privilégio de ser um dos preletores desta IX Conferência, juntamente com os irmãos Ronald Kalifungwa e Christine Hallet. Esta foi a segunda vez que ministrei em Nampula; tive a oportunidade de pregar na Conferência em 2004, juntamente com um outro pastor zambiano, Choolwe Mwetwa.

O pastor Ronald Kalifungwa tem 46 anos de idade. Ele é zambiano, e foi criado numa família católica romana. Em 1981 converteu-se em uma igreja batista em Lusaka, capital da Zâmbia. Casou-se com Sarah em 1990, e o casal tem três filhos: Mumba (15), Kunda (11) e Chisomo (9), todos meninos. Formou-se em Engenharia Mecânica no Northern Technical College na cidade de Ndola, 1986. Trabalhou em companhias em Zâmbia, antes de ingressar no ministério pastoral em 1988. Apesar da sólida formação teológica cristã, não recebeu formação teológica formal. Realizou, entretanto, treinamento à distância pelo Puritan Reformed Theological Seminary em Grands Rapids, Michigan. Ronald ministrou por dez anos numa Igreja Batista Reformada em Zâmbia; depois, por nove anos, pastoreou uma Igreja Batista Reformada em Pretória, África do Sul. Atualmente pastoreia uma grande Igreja Batista em Lusaka desde agosto de 2006.  Tem o privilégio de pastorear, agora, a igreja onde se converteu.

A outra preletora foi a gentil senhora Christine Hallet, viúva sul-africana, a quem Deus usou, juntamente com seu falecido esposo, como missionária em Moçambique e no Zimbabwe. Com um bom português e bastante sensibilidade diante da cultura moçambicana, ela conduziu os encontros com as senhoras.

Chegamos em Nampula por volta das 10 horas da segunda-feira, 21 de julho. O laptop do irmão Karl Peterson foi roubado no trajeto entre Maputo e Nampula. Violaram suas bagagens, mesmo com os elementos de segurança. Também violaram as embalagens com livros, mas nada apanharam da caixa de livros.

Em Nampula fomos hospedados pelo casal Charles e Julie Woodrow, que, juntamente com seus filhos Kent (19), Sarah Beth (17), Andrew (16), Grace Anne (13) e Benaiah (10), formam uma bonita, muito unida e acolhedora família. O Dr. Woodrow, 55 anos, é medico cirurgião, missionário norte-americano, muito respeitado pelo povo evangélico no país e fora dele. Ele reside em Nampula há dezoito anos. Dr. Woodrow estabeleceu uma missão evangélica no país, adquiriu uma estratégica propriedade, na qual edificou a sua casa. Uma parte da propriedade é dedicada à implantação de uma igreja batista reformada, que já conta com alguns líderes nacionais. Tive a oportunidade de pregar nesta igreja no domingo, dia 27 de julho. A maior parte da propriedade, entretanto, num total de oito acres, é destinada a um futuro hospital que está em processo de construção. O casal Woodrow tem se empenhado, por diversos anos, no desafio de implantar este hospital, que deverá ter uma importância imensa naquela cidade e em toda a região. É comum muitos moçambicanos, incluindo os evangélicos (e mesmo pastores), recorrerem a curandeiros e curiosos em geral, buscando tratamentos para os diversos males de que são acometidos.

Outras áreas de atuação missionária da família Woodrow são a distribuição de literatura, a coordenação de conferência para pastores, e a condução de seminários de treinamento de líderes. Estes ministérios são realizados em conjunção com a Editora FIEL no Brasil. Há alguns anos foi estabelecida a Livraria FIEL, no centro de Nampula, que oferece um ministério estratégico para todo aquele país, especialmente na região norte. Salomé van Niekerk, jovem missionária sul-africana, da Constantia Park Baptist Church em Pretoria, presta um competente e abnegado serviço, coordenando a livraria e outros ministérios correlatos. Durante esta conferência em Nampula, Salomé administrou a livraria com grande competência, num trabalho amplo e exaustivo. O projeto “Biblioteca do Pastor”, que tem a gestão direta do missionário Peterson, tem distribuído farta literatura reformada, patrocinada pela Editora FIEL, incluindo subsídios para a participação nas conferências, e o envio da revista “Fé para Hoje” publicada no Brasil.    

Os filhos do casal Woodrow foram criados em Moçambique, e gostam de viver no país. Até onde pude perceber, são todos bem resolvidos, e sem conflitos por conta de serem uma família missionária num país com tamanhas dificuldades. A casa dos Woodrows conta com uma grande mesa à sala, e não é difícil perceber o motivo: uma família grande, e com muitos visitantes regularmente. No período que envolve a conferência (incluindo os dias imediatamente anteriores e posteriores), a casa vive um corre-corre intenso, muitos visitantes chegam, e os missionários Peterson e Woodrow recebem inúmeros telefonemas de pastores e famílias, que pretendiam vir, que chegavam (alguns sem avisar), que chegavam inesperadamente com crianças, que pediam vagas... Enfim, muitíssimas situações de última hora, incluindo os diversos procedimentos logísticos.

Como nos últimos anos, a conferência foi instalada nas dependências da SIL – Sociedade Internacional de Linguística, organização com foco na tradução da Bíblia para as línguas nacionais. Uma tenda de excelente qualidade, e muito bem aparelhada, foi instalada nas dependências do acampamento SIL, e serviu às nossas reuniões. Aqui cabe destacar, com gratidão, o apoio que foi recebido de Mike e Hilda Stolk, simpático e dedicado casal sul-africano, que ofereceu grande suporte à conferência, inclusive servindo-nos no transporte. O irmão Stolk teve um papel de grande importância na preparação logística, inclusive na instalação da tenda.

Com o tema “Pregando as Insondáveis Riquezas de graça”, com o texto base em Efésios 3.8, a conferência transcorreu de forma muito abençoada. Preguei nos primeiros três capítulos da Epístola aos Efésios, enquanto o Pr. Kalifungwa conduziu exposições nos três últimos. Além disso, conduzi uma preleção sobre a biografia de Agostinho, como o título “O Triunfo da Graça”. Ronald pregou em inglês, e foi traduzido de forma bastante competente pelo jovem Pr. José Madeira. Este é um líder moçambicano, graduado pelo projeto “Biblioteca do Pastor”, e grandemente estimado pelos irmãos da equipe FIEL no país.

Ao expormos conjuntamente a Epístola aos Efésios, dediquei-me, portanto, à primeira parte, mais doutrinal, enquanto o irmão Kalifungwa tratou dos aspectos mais práticos, conforme o desenvolvimento apostólico na segunda parte do livro. Ronald trouxe ilustrações e aplicações muito vívidas, apresentando-as de forma rica e oportuna ao contexto africano, tão bem conhecido por ele. Suas pregações sobre a família ensejaram aplicações de grande senso e oportunidade, produzindo uma comoção geral que ia do riso ao quebrantamento.

Líderes moçambicanos conduziram a música e o culto. A música era simples e harmônica – como, aliás, é característico do canto africano. Os cânticos enchiam a tenda com uma sonoridade bonita. Alguns pastores oravam em voz alta, conduzindo a congregação - alguns oravam em sua língua tribal, e não em português. Um “Manual da Conferência” oferecia recursos e orientações para os participantes, incluindo as letras das músicas. Todas as manhãs um pastor moçambicano conduzia uma breve devocional. Vários líderes fizeram a recomendação de livros, trazendo breves resenhas. Os livros eram recomendados muito entusiasticamente, com a sugestão de que fossem providenciados junto à livraria da conferência. As mensagens eram gravadas, e no final foram disponibilizados CDs com arquivos em formatos MP3. Nas reuniões noturnas alguns grupos de mulheres (“mães”) cantavam, recorrendo a músicas evangélicas em dialetos tribais, bem ao jeito cultural africano.

 

Após o almoço tínhamos um momento muito rico de conversa com os preletores. Este tempo era conduzido de uma forma muito instigante e descontraída pelo irmão Peterson, que tem uma vocação distintamente prática de evocar os princípios expostos nas pregações. Ele mesmo sugeriu algumas questões, com base nas preleções. Os participantes também tiveram a oportunidade de encaminhar suas questões aos preletores. Eram momentos excelentes, e grandemente prestigiados por todos!

Esta IX Conferência contou com 235 inscritos, procedentes de todas as dez províncias de Moçambique. Do total de inscritos, noventa eram ativos ou graduados do projeto “Biblioteca do Pastor". Um total de cinqüenta e cinco estiveram na conferência pela primeira vez. Alguns percorreram 2.500 quilômetros para chegar até a conferência, em transportes precários e trajetos por demais cansativos. Boa parte dos inscritos hospedou-se nas próprias dependências da SIL – Sociedade Internacional de Linguística, onde a conferência transcorreu. Outros utilizaram-se de pensões e hospedarias nas proximidades. Além dos inscritos, a equipe da Conferência contava com cerca de três dezenas de pessoas, entre voluntários e empregados contratados para os serviços diversos, especialmente para cozinha e transporte. 

Até onde consegui informações, a livraria distribuiu setenta Bíblias, 480 livros, além de CDs e DVDs. Tudo isto a preços muito acessíveis à realidade moçambicana. Estes números podem ser majorados com informações mais atualizadas, e não constam deles os exemplares distribuídos gratuitamente pelo projeto “Biblioteca do Pastor”. Uma sugestão foi apresentada no sentido de, nas próximas conferências, a livraria dispor de mais bíblias em dialetos locais.

Da Editora FIEL no Brasil, Rick Denham ofereceu boa ajuda com instrumentos técnicos, fotografias, oferecendo suportes para gravações, internet, etc. Além disso, transmitiu aos presentes as saudações de Sr. Denham, presidente e fundador da Missão, e atualizou os irmãos sobre alguns dos futuros projetos da Editora. Kevin Millard, também da equipe FIEL no Brasil, esteve envolvido com questões do projeto “Biblioteca do Pastor”, manteve intenso contato pessoal com os inscritos no projeto, e também teve a oportunidade de dirigir boa palavra ao público presente.

No sábado, dia 26, tivemos um encontro de avaliação pela manhã. Ficou identificada a necessidade de se trabalhar conceitos familiares nas próximas conferências, tendo em vista o que se percebeu durante a conferência finda. Dona Christine aproveitou para comentar sobre as expectativas das senhoras neste aspecto, uma vez que ela pôde conduzir alguns debates nestes tópicos. Alguns nomes foram sugeridos como preletores para a próxima conferência em 2009, que já tem confirmada a presença do Dr. Wayne Mack, que deverá abordar o assunto de aconselhamento cristão.

Seminário FIEL

Uma das grandes conquistas nos últimos anos tem sido o “Seminário FIEL” que acontece imediatamente após a conferência. Este seminário, idealizado pelo irmão Woodrow, nasceu da necessidade de encorajamento e reciclagem para pastores. Alguns pastores vêm identificando este seminário como o ponto alto de sua ida a Nampula – e alguns, inclusive, já demonstram um grande débito para com ele, e o aguardam com ansiedade. Já mesmo na conferência, um líder chamado Baptista Herculano, que graduou-se num dos anos anteriores, falou ao público sobre os efeitos do curso de Teologia Sistemática em sua vida. Ele até considerou o curso tão importante, ou mais, do que a própria conferência! Compartilhou sobre a mudança que experimentou na sua concepção das doutrinas da graça. Com entusiasmo, ele encorajou os demais: “Vale à pena participar!”

As aulas aconteceram nas próprias dependências da SIL, que oferecem boa estrutura e recursos, e onde os alunos permaneceram hospedados (à exceção daqueles residentes ou hospedados em outros locais na cidade).

Neste ano foram ministradas duas classes diferentes. A primeira, “Lições em Teologia Sistemática”, foi conduzida pelo Dr. Woodrow, na semana seguinte à conferência, de segunda a sexta-feira, num total de quinze aulas, de duas horas cada. Cerca de vinte alunos atenderam a esta classe, e submeteram-se aos exames. O professor preparou uma apostila, “Cartilha de Teologia”, com um total de vinte e sete tópicos, cada um sendo introduzido com uma pergunta, e para a qual a resposta é desenvolvida em forma simples e objetiva. Um ponto bastante desafiante, segundo o professor, tem sido a dificuldade que vários alunos têm em compreender o conceito de Sola Gratia. Considerando o fato de que são líderes evangélicos, isto se constitui em algo muito triste – entretanto, embora também algo triste de se reconhecer, não tão surpreendentemente assim.

A segunda classe foi “Treinamento na Pregação Expositiva”, ministrada por mim. Começando no sábado à tarde, e estendendo-se até a tarde de terça feira, um total de cinco sessões de quatro horas cada. Na segunda e terça tivemos o intervalo para almoço, e cada sessão também contava com um intervalo de meia hora, que nem sempre os alunos faziam uso. Encontrei uma classe ávida por aprender! Tivemos trinta e cinco alunos inscritos, embora cerca de trinta tenham cumprido toda a agenda de um modo satisfatório. Os alunos adquiriram o livro de Stuart Ollyott, “Pregação Pura e Simples”, publicado pela Editora FIEL. Leituras deste livro foram exigidas como tarefas, e os alunos sorteados iam oferecendo seus relatórios de leitura. Trabalhamos oficinas práticas, com seis grupos, tendo cada qual um monitor. Nosso texto foi a Epístola aos Efésios (exposta na conferência), e elaboramos juntos um sermão no texto de Efésios 3.14-21, que não havia tido a oportunidade de expor na conferência. Além disso, cada aluno preparou o seu próprio sermão em outras perícopes na epístola.

Os alunos, moçambicanos que são, comunicam-se com grande facilidade! Têm um espírito afável e perceptivo. Entretanto, um dos exercícios mais desafiantes foi ajudar os alunos a identificarem a idéia central, o principal assunto do texto bíblico. Geralmente, a atenção deles era dirigida para detalhes, como que fossem “pequenas pedrinhas”, e manifestavam dificuldade de encontrar a “grande pedra”. Ensinamos que, na pregação, idealmente, não deveríamos jogar para os ouvintes um punhado de pedrinhas, mas sim uma única e grande pedra. E que para encontrar tal pedra precisamos encontrar o assunto do texto. De que o texto trata? Qual é o contexto? Qual é o principal ensino? Enfim, percebi que uma grande dificuldade enfrentada pelos alunos advém do fato de estarem acostumados a uma pregação eminentemente tópica, episódica, pouco doutrinal, e, via de regra, fragmentada. Outro grande desafio foi ajudar os irmãos a manterem-se num único assunto no sermão, do início ao fim, sem perderem-se em digressões, divagações ou multiplicidade de tópicos e aplicações.

Apesar de todos terem grande facilidade de encontrar ilustrações para os princípios ensinados, nem sempre tinham igual facilidade de encontrar boas aplicações. Trabalhamos o conceito de aplicação: um sermão sem aplicações apropriadas seria como um alfaiate preparar uma roupa, sem saber exatamente as medidas do cliente. É por meio das aplicações que tomamos o remédio e o aplicamos no local exato da ferida. Geralmente, os irmãos traziam princípios sem aplicações, ou, por outro lado, algumas aplicações sem um bom princípio estabelecido – risco grande numa ética legalista.

Todos os alunos vinham para a aula com os seus sermões, e sorteamos quatro alunos, que pregaram durante o transcorrer do curso. Os sermões foram entregues como a avaliação de cada aluno, o que compôs a nota com o quadro de tarefas e atividades. O sermão final foi pregado pelo aluno Luís Vasco, experimentado pastor na cidade de Maputo, que teve a incumbência de pregar o sermão que preparamos juntos como classe. Fomos todos abençoados por sua mensagem! Ao final, os alunos prestaram-me uma gentil e imerecida homenagem, e as senhoras alunas ofereceram-me um bonito presente do artesanato local. Um certificado estará à disposição dos alunos.

Na quarta-feira retornamos à capital, e depois seguimos para a África do Sul. Pernoitamos na casa de hóspedes da Missão SIL em Johannesburg, e na sexta-feira, 1 de agosto, estávamos de volta ao Brasil. Trouxe comigo uma enorme gratidão por haver voltado a Moçambique, quatro anos após, e perceber que Deus tem feito uma grande obra ali. É perceptivo o amadurecimento e crescimento que vimos estar ocorrendo. Ao nosso Deus, à Editora FIEL, e também à nossa família e igreja, o meu muito obrigado pela oportunidade tão singular de servir o povo do Senhor. Antes de tudo, fui eu mesmo grandemente abençoado!                   

Ex Corde

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