120  - Pastoreando a Igreja de Deus; Redescobrindo o Modelo Bíblico de Presbitério na Igreja

29 JANEIRO 2008

Uma igreja que funciona de maneira bíblica exige devoção intencional ao modelo de liderança de igreja apresentado no Novo Testamento. Os evangélicos reformados estão concordes com a bíblica compreensão de João Calvino (1509-1564) de que a vida da Igreja é ordenada de cima, visto que a Cabeça dela é o Senhor Jesus Cristo. Por determinação do Pai, de uma maneira suprema e soberana, nEle está investido o poder de chamar, instituir, ordenar e governar a Igreja. E também concordam com a afirmação calvinista de que, nas Escrituras Santas, o Senhor Jesus Cristo “não omitiu nada que pudesse contribuir para o Santo acordo de e à devida ordem”. Tal é assenso comum nos evangélicos de herança reformada, ainda que alguns reconheçam, não obstante, que certos corolários essencialmente bíblicos das idéias eclesiásticas e civis de Calvino só surgirão bem depois dele, uma vez que essas não foram além da Igreja-Estado magisterial herdada do período medieval.

Autonomia e governo próprio são duas tradições antigas e amadas na maioria das igrejas evangélicas. O congregacionalismo é grandemente legatário do regime praticado nas sinagogas judaicas mesmo antes da era cristã, é amplamente verificável no Novo Testamento, e adapta-se muito convenientemente à realidade de uma igreja peregrina, não estatal, não jungida pelo status quo político e institucional. Por ser muito simples, em contextos onde a igreja sofreu a perseguição e marginalização, este modelo foi o que melhor adaptou-se. Organismos simples são os que se adaptam mais facilmente, e também os que sobrevivem mais facilmente. Além disso, o congregacionalismo cumpre bem o papel de representar a comunidade local, com seus reconhecidos anciãos, sem, contudo, pressupor uma co-extensão entre a igreja e a sociedade.

No congregacionalismo, os membros participam da vida da igreja. O congregacionalismo batista, particularmente, tem historicamente insistido na importância de uma membresia regenerada e pactuada internamente no Corpo Local, e de uma interdependência deste com as demais congregações cristãs de igual fé e ordem.  “Não encontramos na Escritura base para o governo de um só ou de todos”, entretanto, é o que defende o Pastor Phil A. Newton, num livro recentemente lançado pela Editora FIEL. Em Pastoreando a Igreja de Deus; Redescobrindo o Modelo Bíblico de Presbitério na Igreja, o experiente pastor norte-americano examina o modelo bíblico de liderança, explicando a necessidade de pluralidade de presbíteros e como essa pluralidade funciona em ambiente congregacional. Ele expõe três passagens bíblicas, buscando esclarecer o modelo neotestamentário para os líderes espirituais, e busca responder a perguntas difíceis, feitas comumente quando se fala em liderança na igreja. O autor procede a uma crítica básica, à luz do Novo Testamento, do modelo de democracia direta, advogado fortemente nos meios batistas, especialmente norte-americanos, a partir do século XIX.[1]

O prefácio é escrito por Dr. Mark Dever, conhecido escritor e líder batista, o qual pastoreia uma conhecida igreja em Washington, D.C., e que já tem pregado no Brasil em uma das conferências da Editora FIEL. Através do ministério deste irmão teve início “Nove Marcas de uma igreja Saudável”. Em seu texto, Dever levanta as seguintes indagações acerca do modelo de presbiterato: 1. É uma prática batista; 2. É bíblico?; 3. É melhor? Newton e Dever são pastores à frente de igrejas crescentes e influentes na Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, e vivem a experiência de presbitério em suas congregações locais. Aliás, muito do esforço de Newton neste livro é justamente direcionado aos Batistas do Sul. O primeiro capítulo tem o seguinte título: “Por que presbíteros batistas não são um paradoxo?” Neste capítulo o autor faz algumas considerações históricas sobre o conceito na vida batista.

O livro, publicado originalmente em inglês em 2005, contem 176 páginas, além das 20 páginas finais reservadas para as notas e para a bibliografia selecionada. Phil A. Newton já tem pregado no Brasil, por pelo menos duas vezes, na Conferência Reformada em Niterói (RJ). Nesta cidade, o missionário de sua igreja, Kevin Millard, tem plantado uma igreja batista. Newton também já tem pregado em Portugal, na Conferência da Editora FIEL para Pastores e Líderes, e está agendado como um dos preletores na próxima conferência da Editora no Brasil, em outubro deste ano, em Águas de Lindóia, SP.

O Pastoreio na Congregação Local

A propósito deste assunto talvez possamos fazer uma observação. Alguns grandes e abençoados pregadores realizaram ministério notável em seus dias, e tornaram-se conhecidos em todo mundo. Vários de seus sermões e escritos têm chegado até nós, sendo apreciados e estudados com avidez. Multidões afluíam para ouvi-los. Contudo, falecidos estes homens suas igrejas perderam grandemente a sua consistência. Alguém indagou-se sobre qual teria sido o problema. É óbvio que as razões são mais diversas e amplas do que se pode dizer em uma palavra. Contudo, parte da resposta que encontrou foi: o ministério orbitando em torno de um homem só!

Três palavras a respeito podem ser oportunas. Primeira, conforme bem salienta John Sttot, o conceito neotestamentário de pastor não é o de uma pessoa que conserva a totalidade do ministério nas suas próprias mãos, tendo ciúme dele, e que esmaga toda a iniciativa dos membros, mas, sim, de uma pessoa que ajuda e encoraja todo o povo de Deus a descobrir, desenvolver e exercer os seus dons. "O ensino e o treinamento do pastor se dirigem para esta finalidade, para capacitar o povo de Deus a ser um povo que serve, ministrando ativa, porém, humildemente, num mundo de alienação e dor."[2] Assim, ao invés de pessoalmente monopolizar todo o ministério da igreja, chega realmente a multiplicar ministérios. O mesmo comentarista diz que não se pode atribuir à igreja "a figura de um ônibus, em que o pastor é o único que dirige, ao passo que a congregação é o grupo de passageiros dormindo em segurança pacífica atrás dele".

Segunda, o Novo Testamento contempla não um único pastor com um rebanho inativo, mas, sim, tanto uma direção plural quanto um ministério de todos os membros. O Novo Testamento aponta para uma pluralidade de liderança na Igreja. Estes são chamados de presbíteros ou anciãos (At 13.1; 14.23; 15.4; 20.17, 28; Fl 1.1; 1Ts 5.12, 13; 1Tm 5.17; Tt 1.5; Hb 13.17, 24; Tg 5.14; 1Pe 5.1-3). As referências neotestamentárias aos líderes da congregação local encontram-se invariavelmente no plural. A despeito do seu nome, não eram necessariamente pessoas idosas. Observe-se também a passagem de 1 Timóteo 5.17. Os "dobrados honorários" ou "honra duplicada" a que se refere aqui é mais do que o respeito que se deve prestar ao presbítero que labora no ensino. A palavra grega expressa o salário dos soldados. Também as citações que se seguem dão sustento a este ponto de vista: "não amordaces o boi, quando pisa o trigo", e, "o trabalhador é digno do seu salário". Este texto descreve a posição dos presbíteros; sua função é presidir ("exercer liderança") em cada congregação. Quer dizer que exercem uma supervisão geral sobre seus negócios de modo um tanto quanto análogo à supervisão exercida pelos anciãos numa sinagoga judaica (cf. Rm 12.8; 1Ts 5.12). Em segundo lugar, este texto refere-se àqueles, dentre os anciãos locais, que “se afadigam na palavra e no ensino", presumivelmente porque dedicam mais do seu tempo e das suas energias a esta função.

Terceira, é necessário que observemos o conselho de Paulo a Timóteo: "E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros" (2Tm 2.2). Os homens que Paulo tinha em mente deveriam ser primeiramente ministros da palavra, cuja função principal é ensinar. Anciãos cristãos, com a responsabilidade de, à semelhança dos anciãos judeus, preservar “a tradição”. Tais são "despenseiros de Deus", como Paulo escrevera a Tito (1.7), porque tanto a família de Deus como a verdade de Deus lhes foram confiadas. E o requisito fundamental para os despenseiros é a fidelidade (1Co 4.1,2). Devem ser "homens fiéis". Além disso, devem ser "também idôneos para ensinar a outros". Aqui também se aduz, além do caráter, a capacidade de ensinar. Eles devem ser "aptos para ensinar" (Gr. Didaktikoi), palavra usada por Paulo em relação aos candidatos ao ministério em 1 Timóteo 3.2, e empregada de novo mais adiante em 2 Timóteo 2.24. É desta forma que se dá, idealmente, a transmissão da doutrina dos apóstolos, passada de mão em mão como a tocha olímpica. Esta tradição apostólica, "o bom depósito", é hoje encontrada no Novo Testamento. "Tradição" aqui tem o sentido da "fé bíblica", pois o que a Igreja deve transmitir de geração em geração deve ser a fé bíblica, nada mais e nada menos. E a fé bíblica é a fé apostólica. Foi o mesmo apóstolo quem relembrou a Timóteo que a Igreja é a "coluna e baluarte da verdade". 

Portanto, o propósito imediato de Cristo em dar pastores à sua igreja é, através do ministério da palavra exercido por eles, equipar todo o seu povo para os ministérios variados. Isto será de grande benefício para aqueles que exercem o seu ministério com fidelidade assim como para aqueles que o recebem, pois, por meio desta dinâmica, a igreja torna-se cada vez mais saudável e madura. E, em rigor, o tamanho do ministério do pastor não é medido pelo número de pessoas a quem ele serve diretamente, mas pelo número de pessoas servidas pelos santos a quem ele serve, e equipa para o seu ministério (Ef 4.11,12). Lembremo-nos, a este propósito, do conselho que Moisés recebeu de seu sogro Jetro (Ex 18); e tomemos como exemplo o próprio Senhor Jesus Cristo e os apóstolos na Igreja Primitiva.


[1] Por democracia direta referimo-nos ao regime político legado pela antiga cidade grega de Atenas. Naquela cidade, os cidadãos (uma parcela da população) participavam diretamente das assembléias e decidiam os rumos políticos da cidade. Em nossos dias, a democracia direta praticamente não existe mais. O que encontramos atualmente é a democracia representativa, em que os cidadãos elegem seus representantes políticos para o governo do Estado. Num debate conduzido por Hélio Jaguaribe acerca da democracia grega, Mário Vieira de Melo argumenta que "a lei da democracia ateniense entendia a situação do cidadão, na constituição do Estado, de uma tal maneira que não havia diferença entre a vida privada do indivíduo e a sua vida pública no Estado. Não havia espaço para o indivíduo". Cf. MELO, Mário Vieira, "A Crítica Socrático-Platônica à Democracia Ateniense", IN: JAGUARIBE, Hélio (organizador), A Democracia Grega. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981, p. 58. 

[2] STTOT, John R. W.  A Bíblia Fala Hoje: A Mensagem de Efésios. São Paulo (SP): ABU Editora, 1986. p. 120   

Ex Corde

© Copyright Gilson Santos  2008 - Direitos Reservados

www.gilsonsantos.com.br