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118 - A Propósito do Recente Diálogo entre Batistas e Católicos Romanos |
17 dezembro 2007 |
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Clique aqui para ler ou inserir comentários A Aliança Batista Mundial teve início em 1905, e desde o evento organizador ela recebeu o apoio de batistas no Brasil. Líderes batistas brasileiros já têm ocupado a sua presidência e tomado assento nos comitês diretivos, e grandes eventos e celebrações têm sido promovidos no Brasil. John Clifford (1836-1923), pastor em Londres e presidente da União Batista Britânica, foi o primeiro presidente (1905-1911) da Aliança Batista Mundial. A intenção era a de criar uma instituição que pudesse servir de fraternidade entre os batistas em todo o mundo. Hoje, a ABM (BWA - Baptist World Alliance) engloba 214 agremiações batistas, e a organização estima que tais agremiações compõem-se de “36 milhões de crentes batizados e uma comunidade de 105 milhões”. É notícia alardeada a de que, na chamada Cristandade, "católicos romanos e batistas formam os dois maiores grupos”. No Brasil, integram a Aliança Batista Mundial a Convenção Batista Brasileira e a Convenção Batista Nacional (Cf. aqui). São estas as duas maiores agremiações batistas no Brasil.[1] A segunda, organizada em 1967, resultou de uma dissidência doutrinal na primeira, e é definidamente carismática. A primeira, organizada em 1907, ainda é formada por boa parte dos evangélicos batistas conservadores, embora abrigue um leque bem diversificado, que vai desde pentecostais em diversos estágios até pessoas com aproximações em níveis diferenciados com o liberalismo teológico. É desnecessário dizer que hoje a Aliança Batista Mundial engloba grupos bastante heterodoxos, e sem qualquer compromisso com a histórica identidade confessional dos batistas. Se alguns são chamados de “batistas” isto se deve a razões reduzidamente pontuais, ou por algum casuísmo, ou por mera herança ou identificação histórica – em alguns casos por alguma nada feliz “ironia da história”. Não há como ignorar o fato de que alguns são definidamente apóstatas ou inimigos declarados da fé reformada. Ao longo dos anos, especialmente nas últimas décadas, alguns fatos vêm conduzindo a ABM a um contexto de crescente desmoralização. Aqui e ali se multiplicam os críticos (cf. exemplo), embora a sobriedade das críticas também expresse igual variação. Um aperto de mão Em tempos mais recentes, o “diálogo” entre a Aliança Batista Mundial e o Vaticano vem se intensificando. Em novembro de 1996, o pastor brasileiro Nilson do Amaral Fanini, presidente da ABM à ocasião, e o Secretário Geral Denton Lotz, se reuniram com o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos (PCPCU - Pontifical Council for Promoting Christian Unity) em Roma.[2] Fanini teria declarado “que a situação mundial trouxe um novo clima e que mais conversas poderiam ser iniciadas”. Ambos os líderes se encontraram com o papa João Paulo II, pontífice romano entre outubro de 1978 e abril de 2005. Em dezembro de 2001, treze líderes batistas e nove líderes católicos romanos se reuniram no Seminário Teológico Batista Internacional, em Buenos Aires, Argentina, num encontro promovido pelo PCPCU em Roma e pela Aliança Batista Mundial. Participaram do encontro os líderes batistas brasileiros Fausto Aguiar de Vasconcelos, à ocasião pastor da Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro e presidente da UBLA (União Batista Latino-Americana) e da Convenção Batista Brasileira, e Nilson do Amaral Fanini, à ocasião pastor da Primeira Igreja Batista de Niterói (RJ). Na plataforma do encontro entre batistas e católicos, concluiu-se pela “necessidade de um testemunho comum para nossa fé em Jesus Cristo”. O início das conversações antecedeu, contudo, aos eventos acima. Na reunião da Aliança Batista Mundial em Porto Rico, em 1981, o pastor batista brasileiro, Dr. Ebenézer Soares Ferreira, teria se oposto à proposição de diálogo entre a ABM e a ICAR. Sua voz não teve acolhimento, contudo. Um relatório, cobrindo as conversações no período 1984/1988, foi publicado em 1990 com o título “Summons to Witness to Christ in Today's World” (Cf. aqui texto em português). Notícia veiculada pela ABM dava conta de que os dois corpos estavam "convencidos de que os contatos e discussões entre as duas comunidades são de imenso valor" e que deveriam continuar. E de fato os encontros prosseguiram e também se intensificaram. Na Convenção Batista do Sul dos Estados Unidos, que era o principal membro e um dos proeminentes fundadores da ABM, os diálogos com o Catolicismo Romano já obtinham algum lugar. Há, inclusive, um documento de 1989, da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos, sobre seus pontos de acordo com scholars da Convenção Batista do Sul: Agreed Statement of Southern Baptist-Roman Catholic Scholars. Em junho de 2004, entretanto, no curso desta nova orientação conservadora que vem assumindo, a Convenção do Sul decidiu por afastar-se da Aliança Batista Mundial, fato amplamente noticiado pela imprensa secular, inclusive no Brasil (Cf. notícia do Washington Post). Desta maneira a ABM perdeu o seu maior e um dos mais engajados membros, que lhe provia cerca de 35% da planilha orçamentária. Na última década, o movimento Evangelicals and Catholics Together (Evangélicos e Católicos Juntos) teve ampla repercussão, inclusive por contar com a assistência de conceituados líderes no mundo evangélico, e mesmo reformados. As publicações se multiplicaram (Cf. o e-book Catholics and Evangelicals, de Thomas P. Rausch, 2000, 192p). Voltando à Aliança Batista Mundial: Em julho de 2005, cerca de nove mil batistas, oriundos de 130 países, reuniram-se em Birmingham, Inglaterra, no centro desportivo da cidade, para participar do Congresso do Centenário da ABM. Se o congresso de fundação, realizado em 1905, em Londres, contou com a participação de 2,5 mil delegados, dos quais somente 750 eram de fora da Grã-Bretanha, no congresso do centenário, dentre os cerca de nove mil participantes de diversas nacionalidades, 3,2 mil eram britânicos. Ainda sob o impacto do afastamento da Convenção do Sul, o congresso emitiu uma declaração final, denominada "Mensagem de Birmingham", um texto de trinta e sete pontos trabalhados pelo Comitê de Resoluções da ABM. O secretário geral do organismo, Denton Lotz, definiu a declaração como "uma afirmação dos princípios batistas". A declaração proclamou o ecumenismo como "arrependimento por não ter orado e trabalhado duro o bastante pelo cumprimento da oração de Cristo pela unidade da Igreja". E conclamou a comunidade batista mundial a orar e trabalhar na promoção da unidade dos cristãos. Alguns meses antes, mais especificamente no início de abril, no sepultamento de João Paulo II (Karol Wojtyla) em Roma, os representantes da ABM, conduzidos por Lotz, reconheciam o papa como "um cristão sincero", "homem devotado a Cristo" e "comprometido com o seu evangelho", e reiteravam sua expectativa de novas conversações teológicas. No que concerne aos diálogos entre a Aliança Batista Mundial e o Vaticano (PCPCU- Pontifical Council for Promoting Christian Unity), as duas recentes rodadas têm chamado a atenção de diversos líderes batistas ao redor do mundo. A primeira rodada aconteceu nos Estados Unidos, na Beeson Divinity School em Birmingham, Alabama, em dezembro de 2006. O grupo batista foi conduzido por Denton Lotz, Secretário Geral da ABM, e por Paul Fiddes, do Regent's Park College da Universidade de Oxford, relator da comissão da ABM que tinha a gestão específica do diálogo (Commission on Doctrine and Inter-Church Cooperation). Antes, porém, consultas e encontros preparatórios foram realizados, inclusive em Curitiba, no Brasil, em abril daquele ano. À ocasião do evento no Alabama, Lotz salientou aos presentes a sua satisfação em que “Fausto Vasconcelos, anteriormente presidente dos batistas brasileiros e o novo diretor da Divisão de Estudo e Pesquisa da ABM, seria o liaison officer da ABM para estas conversações”. Além do trio Lotz, Fiddes e Vasconcelos, outros líderes batistas de renome integravam a comitiva batista; entre eles, Neville Callam, pastor jamaicano eleito para suceder Lotz na Secretaria Geral da ABM, e Dr. Timothy George, conhecido teólogo reformado da anfitriã Beeson Divinity School, Samford University, Birmingham, Alabama. Dr. George teria apresentado no evento um paper cujo tema foi “Scripture and Tradition: An Evangelical Baptist Perspective” (Escritura e Tradição: Uma Perspectiva Evangélica Batista). Cf. detalhes aqui. O órgão do Vaticano (PCPCU) foi representado por Arthur Serratelli, bispo Católico Romano da Diocese de Paterson, New Jersey, e mais oito representantes católicos (cf. aqui). No encontro foi agendada a segunda rodada de conversações para este ano de 2007, e os diálogos foram previstos para serem concluídos em dezembro de 2010. Após um processo que tivera início em dezembro de 2006, em 06 de julho de 2007 o líder religioso caribenho e dirigente da União Batista da Jamaica, Neville Callam, foi eleito para suceder Denton Lotz na secretaria geral da ABM (Lotz, que tem ocupado a secretaria geral da ABM desde 1988, está aposentando-se neste mês de dezembro). Callam é "o primeiro secretário-geral não procedente dos Estados Unidos nem da Europa anglo-saxã na história da ABM. Ele é afrodescendente, teólogo formado em Harvard, e batista ecumênico. Tem sido um dos teólogos de referência no Concílio Mundial de Igrejas (CMI)". Na Comissão Plenária de Fé e Ordem (Faith and Order Plenary Comission), reunida em Kuala Lumpur, Malásia, em 2004, Callam apresentou uma conferência sobre o tema de estudo no qual é tido como uma autoridade no mundo ecumênico: “o reconhecimento mútuo do batismo” (Acesse aqui a tese de Callam, disponível em inglês, alemão e espanhol). A celebração da chamada Convenção do Novo Pacto Batista, que vem alardeada com o apoio, entre outros, dos ex-presidentes dos Estados Unidos Jimmy Carter e Bill Clinton, anunciada para o próximo mês de janeiro, será o primeiro cenário no qual Callam terá de comparecer depois de receber a tarefa das mãos de Lotz. Bento XVI, o novo pontífice romano, impulsionou grandemente a segunda rodada desta segunda série de diálogos entre o Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos e a Aliança Batista Mundial. Essa aconteceu em Roma, dias atrás, a saber, de 2 a 8 de dezembro. O tema desta fase de contatos é “A Palavra de Deus na vida da Igreja: Escritura, Tradição e Koinonia”. Para “avançar na reconciliação e na fraternidade entre batistas e católicos”, o Papa considerou que “é necessário enfrentar juntos temas como estes, com um espírito de abertura, com respeito recíproco e fidelidade à vida libertadora e ao poder salvador do Evangelho de Jesus Cristo”. E arrematou: “Hoje o mundo precisa, mais do que nunca, de nosso testemunho comum de Cristo e da esperança trazida pelo Evangelho” (Cf. aqui informações em português). Segue abaixo o teor das palavras de bênção e saudação de Bento XVI à delegação da Aliança Batista Mundial, proferidas na Cidade do Vaticano, quinta-feira, 6 de dezembro de 2007, conforme tradução feita da publicação oficial:
A comitiva batista no Vaticano foi conduzida por Fausto Aguiar de Vasconcelos, Diretor da Divisão de Estudos e Pesquisas da ABM (Study and Research - S&R Division), e incluiu a liderança maior do organismo representativo batista. O teólogo Timothy George continuava a integrar o comitê na condição de membro permanente (Cf. notícia no site da ABM, aqui). O documento oficial do Vaticano, que explicita os propósitos da ICAR para o diálogo com os batistas, encontra-se publicado em inglês no portal do Vaticano na internet: ”Catholic-Baptist Relations”. O documento vem assinado pelo Monsenhor John A. Radano, do PCPCU. Nele, o processo de conversações é historiado. O Vaticano expressa sua “crescente confiança no diálogo”, e reitera a “crescente influência do movimento ecumênico em geral”. Aqui no Brasil, a notícia desta segunda rodada de conversações tem produzido algum impacto entre setores do evangelicalismo (notadamente alguns líderes pentecostais), alguns dos quais, inclusive autonomeados “apóstolos”, acusam os batistas em geral de apóstatas (Cf. exemplo aqui). Sob o báculo do pontífice romano Alguns leitores batistas, ou evangélicos em geral, poderão reagir confusos diante do quadro que vem se configurando. E com razão. Por um lado, o Papa Bento XVI discursa que a ICAR é a Igreja verdadeira e que católicos romanos não devem ter comunhão formal com protestantes. Por outro lado, tem-se notícias deste tipo de diálogo. Incoerência? Uma leitura cuidadosa de todo o processo ecumênico gerido pelo Vaticano há de constatar, não obstante, que se há incoerência, essa não parece estar do lado de Roma. Apesar da avançada idade, o pontífice romano não parece acometido de senilidade. Em rigor, para a visão católica oficial (o que inclui a do ex-cardeal Joseph Ratzinger, atual Bento XVI) os protestantes são sectários, uma espécie de ovelhas desgarradas do rebanho, insubmissas ao bordão apostólico, representado pelo trono de São Pedro. Enfim, o ecumenismo romano, neste sentido, não tem pretendido qualquer tipo de concessão no seu latino sistema papal, sacramental e mariolátrico, isto para nos determos apenas nestes três aspectos de sua espinha dorsal. Cabe lembrar, a esta altura, que em Roma é a autoridade da Igreja que está sobre o rebanho, e não a autoridade da Escritura. Enquanto os protestantes insistem que o instrumental para a Cabeça viabilizar o governo é a Escritura, os católicos romanos, apelando para a idéia de uma ininterrupta sucessão apostólica na história, dizem que o instrumental é a própria Igreja, da qual a Escritura se deriva. "A mãe da Escritura é a Igreja", é lema de teólogos romanos, e “o bispo de Roma o herdeiro direto do apostolado cristão”. Dentro do sistema católico-romano, Pedro é considerado mais do que apóstolo e servo de Jesus Cristo; ele é designado como “representante de Cristo na terra, fundamento da sua Igreja... O pastor universal de todos em nome de Cristo”, o primeiro na linhagem dos papas da ICAR.[4] Se o leitor se dispuser a fazer uma pesquisa histórica do "diálogo entre católicos e evangélicos", provavelmente há de constatar que a Igreja Romana, em geral, tem sido consistente. Procure o leitor por algum documento oficial da Igreja Romana, em que ela, como resultado dos tais diálogos, faz concessões formais aos chamados Solas da Reforma Protestante. Se o leitor não encontrar, talvez será levado a constatar que a ICAR não tem essa intenção, e, a bem da verdade, nunca disse que tivesse. O mesmo não se pode dizer dos grupos convocados para o diálogo... Se por um lado é verdade que Roma não se aproximou deles, dá-se o contrário quase que invariavelmente. Agora, no Vaticano, estão os batistas da ABM praticando esses ideais ecumênicos, e buscando “atenuar essa imagem dos batistas como ´fechados` ou ´sectários`.” De fato, no século XVII os batistas britânicos sustentaram uma posição bastante diferente, conforme a Segunda Confissão de Fé Batista Londrina, 1677/1689, que veio endossada ao longo dos anos por batistas ao redor do mundo:
Aqueles antigos batistas estavam cientes de que a perspectiva romana era diametralmente diferente. No Concílio Ecumênico de Florença (1438-1445), a Igreja Romana publicara o seu dogma, ratificado ao longo da história:
Como foi dito, esta posição tem sido ratificada ao longo dos anos, como no Concilio Vaticano I, de 1870, onde se declara que “se alguém disser que Pedro recebeu de Jesus Cristo somente uma supremacia de honra e não de jurisdição real e verdadeira, seja anátema”. A despeito do pretendido aggiornamento da Igreja, a partir do pontificado de João XXIII (1958-1963), o Concílio Ecumênico Vaticano II pôs em destaque a autoridade pontifícia, e nele a unidade dos cristãos é defendida sob o báculo do pontífice romano. O decreto Unitatis Redintegratio, evocado por Bento XVI em sua palavra de saudação à comitiva batista no início do mês, é datado de 21 de novembro de 1964, e emanou do Concílio Vaticano II. Este documento simplesmente reedita as orientações do papa Pacelli (Pio XII), quando, na alínea 24, lembra o objetivo primacial do ecumenismo romano, qual seja, o de “conciliar todos os cristãos na unidade de uma só e única Igreja de Cristo”. E, conforme a Constituição Dogmática Lumen Gentium, aprovada, decretada e estatuída naquele mesmo dia de 1964, pelo Vaticano II, “esta Igreja, constituída e organizada neste mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja Católica governada pelo sucessor de Pedro e pelos Bispos em comunhão com ele” (§ 8). E acrescenta:
Ainda no mesmo Unitatis Redintegratio, citado na bênção papal à comitiva da ABM, documento específico sobre as normas adotadas na ação ecumenista, os bispos do Vaticano II salientam na alínea 3:
E delimitam o escopo ecumenista por parte dos católicos romanos, na já mencionada alínea 24:
Hoje, se alguma dúvida pairar sobre a posição oficial de Roma acerca deste ponto, o documento "Respostas a questões relativas a alguns aspectos da Doutrina sobre a Igreja", datado de 29 de junho deste ano, e divulgado pela mídia em 10 de julho, é suficiente para dirimi-la. Nele, os documentos do Vaticano II citados acima, e outros posteriores, são ratificados ou recebem interpretação explícita e detalhada:
Não é nova a tentativa da ICAR de trazer de volta ao seu seio os “herejes” ou, na linguagem ecumênica atual, “os irmãos separados” e suas "venerandas Comunidades cristãs". Já no Concílio de Trento, realizado de 1545 a 1563, no qual foram ratificados os dogmas católicos da igreja contra-reformada, quis o papado a participação dos reformadores no conclave. Antes de Lutero, Roma não dialogava com os cristãos dissidentes, mas fazia prevalecer a sua autoridade férrea. John Wycliffe (1320-1384) e Jan Huss (1369-1415) são testemunhos deste fato. E mesmo depois do Concílio Tridentino, milhares de outros testemunhos, vestidos de sangue, têm se erguido, inclusive em nosso país, conforme a saga de nossos pais na batalha da fé. Como dissemos, da parte do Vaticano nenhum passo consistente tem sido dado na direção da fé evangélica, desde a Reforma. Pelo contrário, novas doutrinas e práticas, igualmente antibíblicas, foram adicionadas ao credo católico-romano: incorporação dos livros apócrifos ao Cânon (1546), chamados pela ICAR de Deutero-canônicos; dogma da Imaculada Conceição de Maria (1854); a doutrina da infalibilidade papal (1870); o dogma da assunção de Maria (1950), etc. E o que dizer da idolatria mais vil e grosseira? No que diz respeito à sua espinha dorsal, Roma vem mantendo alguma consistência. Ela não mudou. O mesmo já não pode ser dito de algumas igrejas do mundo evangélico-protestante. O Exercício Pastoral e Apologético É preciso assumir, a bem da honestidade, que o movimento ecumênico no seio do evangelicalismo/protestantismo tem um leque diversificado, e esta questão pode não ser tão simples quanto talvez pareça a alguns. As bases da plataforma ecumênica da ABM, especificamente, podem ser encontradas nos textos publicados em seu portal na internet, e o leitor interessado poderá debruçar-se sobre eles de forma mais analítica. Ainda assim, uma breve palavra pode ser dada acerca do leito principal do movimento. O atual movimento ecumênico utiliza o Credo Niceno-Constantinopolitano e o Credo Apostólico como a base para sua proposta de "Fé e Ordem". Verifique o "Documento de Estudo da Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas", publicado no Brasil pelo CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs). O título em português é "A Confissão da Fé Apostólica".[6] Desde 1888, na Terceira Conferência de Lambeth, o movimento ecumênico vem assumindo “o Credo Apostólico, enquanto símbolo batismal, e o Credo Niceno, na qualidade de declaração suficiente da fé cristã". Assim, o movimento ecumênico remete-se à Igreja no período patrístico. De princípio, a tarefa de estudar os Pais da Igreja, numa confrontação com o Catolicismo Romano, em seus desenvolvimentos (1) medievais; (2) tridentinos; (3) ultramontanos; e (4) contemporâneos (após João XXIII e o Concílio Vaticano II) é algo que não deve ser desencorajado. Atente, porém, o leitor para o fato de que a grande maioria das obras no período dos Pais da Igreja, inclusive os chamados Credos Ecumênicos, é material apologético. Em outras palavras, a unidade ou "ecumenicidade" que eles almejavam, certamente, não podia prescindir de uma sólida fundamentação na verdade. Eles aspiravam por ambas as coisas, por isso seus escritos são apologéticos, e foram coligidos para livrar a igreja do erro, claramente visando eliminá-lo de seu seio. A sua apologética, portanto, não está em posição diametral à sua ecumenicidade; ao contrário, coordena-se com ela e explica-se por ela. Outro aspecto que deve ser considerado é que os cristãos primitivos, em particular os líderes cristãos patrísticos, não negligenciaram o seu lugar naquela geração. Isto é importante, pois se há uma lição que podemos aprender com eles é sermos perceptivos quanto aos desafios de nossa geração. Neste aspecto, a forma como autores como Tertuliano e Cipriano lidaram com alguns problemas é bem diferente da forma como lidaram Agostinho e Crisóstomo. E isto não apenas por uma questão de ênfase, mas pela necessidade de se estar atento ao contexto. Por exemplo: para cristãos do tempo de Cipriano, a cidade de Roma é a "Babilônia" e para cristãos do tempo de Jerônimo a cidade de Roma é a "Jerusalém". Enfim, não se deve considerar os Pais da Igreja sem atentar diligentemente para esta dinâmica interna e histórica. Nesta perspectiva, repito, "a tarefa de estudar os Pais da Igreja numa confrontação com o catolicismo romano, em seus desenvolvimentos (1) medievais; (2) tridentinos; (3) ultramontanos; e (4) contemporâneos (após João XXIII e o Concílio Vaticano II) é algo que não deve ser desencorajado". Deixar de fazê-lo é simplesmente negar um princípio básico que foi-nos legado pela Patrística, e, de fato, desde o Novo Testamento. Se por um lado o desafio de esforçar-se por uma Igreja Una deve ser considerado, por outro isto não está em contraposição a um exercício apologético contemporâneo e contextual. Se aqueles não fecharam os olhos para o que a história antes deles havia estragado, e mesmo para os ataques e investidas em sua própria geração, porque deveríamos nós fazê-lo? Em nosso caso, haveria como apagar mil e quinhentos anos de história? Certamente que não. Enfim, creio que todos podemos aprender da Patrística, realmente, inclusive a Igreja Romana. Mas isto não diz respeito apenas ao conteúdo da exegese e confessionalidade patrística, mas também ao seu exercício pastoral e apologético. Ser pastor significa conduzir o rebanho, esforçando-se por prover-lhe o alimento e por oferecer-lhe a proteção contra os perigos. Nosso Senhor Jesus Cristo utilizou esta palavra em João 10.11,14 para descrever sua própria obra, sendo sempre Ele mesmo, o sumo Pastor (Hb 13.20; 1Pe 2.25; 5.4), sob quem os homens são chamados a pastorear "o rebanho de Deus" (1Pe 5.2; Jo 21.15; At 20.28). Aos presbíteros compete, individual e coletivamente, vigiar diligentemente pelo rebanho entregue aos seus cuidados, de tal forma que nem a corrupção da doutrina nem a da moral penetre na igreja. É preciso apascentar as ovelhas, apartar os bodes, afugentar os lobos, e postar-se alerta em relação ao salteador e ao mercenário. Há, portanto, uma lição, insisto: A apologética cristã na patrística não está em contraposição à sua ecumenicidade. Se a igreja cristã, durante a Patrística, esforçava-se para manter a unidade, não o fez ao custo de sua vocação profética e pastoral, e não declinou da apologética. Também, na leitura do patrístico, não convém forçar a realidade, pois já vinham se acentuando as diferenças entre os lados grego e latino, processo que alcançará seu ápice na Idade Média. Um exemplo específico pode ser percebido nas três escolas de hermenêutica, a saber, a alexandrina, a antioquiana, e a ocidental. Outros exemplos poderiam ser dados. Enfim, o ideal de uma igreja una, "ecumênica" (no sentido afirmativo da palavra), manifestou-se claramente na apologética, em prol de uma unidade ortodoxa - naquele contexto, particularmente uma ortodoxia trinitária e cristológica. Portanto, quando o movimento ecumênico, orbitando ao redor do Concílio Mundial de Igrejas, nos conclama a aprendermos da igreja patrística, convém considerarmos que, desde os dias apostólicos, uma Igreja ortodoxa não será viável sem que seja, igualmente, uma Igreja apologética. Uma apologética que leve em consideração os desafios de sua geração, e não negligencie seu lugar na história. "O pequeno problema de ontem já não é mais um pequeno problema hoje". Por isto, além de Nicéia, houve também Calcedônia, Éfeso, etc. Esta é uma questão que merece a consideração atenta dos evangélicos reformados, particularmente dos batistas. Os evangélicos britânicos C. H. Spurgeon (1834-1892) e Martin Lloyd-Jones (1899-1981) lidaram com esta questão, em seus respectivos contextos, e há lições que podemos aprender com ambos. O livro “O Spurgeon que foi esquecido” pode ser útil à atual geração batista.[7] Entre os muitos fatos envolvendo o desligamento de Spurgeon da União Batista, há o ocorrido em 13 de janeiro de 1888, quando ele recebeu no Tabernáculo Metropolitano uma delegação da União. Entre os quatro membros da comissão estava o presidente eleito, John Clifford, que viria a ser o principal idealizador da futura ABM, e seu primeiro presidente. Os quatro homens pediram a Spurgeon que reconsiderasse sua saída da União, conforme se processava desde outubro do ano anterior. Spurgeon propôs que a União adotasse uma declaração de fé evangélica. A delegação recusou a proposta. Cinco dias mais tarde, todo o Conselho da União Batista se reuniu. Nesta ocasião votaram a aceitação da saída de Spurgeon. Também votaram censurá-lo editando uma resolução que condenava as ações dele. Para uma visão histórica do conceito de “Fé e Ordem” para a identidade e unidade batista, acesse também o material aqui em Ex Corde, Fé e Ordem; Identidade e Unidade na história batista (1) (PDF 32 páginas). Sobre Lloyd-Jones, recomendo a leitura de uma postagem anterior aqui em Ex Corde: Vinte e Cinco Anos desde o falecimento de D. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981); Lloyd-Jones e a Base da Unidade Cristã. Quanto ao mais, tenho crido que a Aliança de Evangélicos Confessionais, ao propor a plataforma dos Cinco Solas, colocou algumas bases seguras para o cenário contemporâneo. As conclusões daqueles teólogos têm ainda algumas tensões por serem consideradas, mas eles ofereceram balizas muito importantes. Leia a seguinte postagem anterior: Os Cinco Solas e o Âmago da Identidade Evangélica. Geoffrey Thomas, conhecido escritor e conferencista, e pastor batista no País de Gales, publicou em junho de 1994 um interessante artigo no periódico britânico Evangelical Times (cf aqui), tratando do incipiente movimento Evangelicals and Catholics Together (Evangélicos e Católicos Reunidos). Destaco abaixo uma parte do artigo:
Se alguma pitada de humor tiver lugar no final deste artigo, chama-nos a atenção uma afirmação que é feita nesse documento Evangelicals and Catholics Together. A declaração é a seguinte: “Evangélicos e Católicos são irmãos e irmãs em Cristo. Não nos escolhemos uns aos outros, bem como não escolhemos a Cristo”. Como observou um bem-humorado colega, chega a ser irônico que, no final das contas, ao abraçar o católico romano, o "evangélico" converta-se num calvinista de carteira. E que até o católico diga: “Amém!” [1] Estatísticas apresentadas no portal da Convenção Batista Nacional informam que, em 2006, o organismo contava com 1509 igrejas cooperantes, além de congregações e frentes. Quanto à Convenção Batista Brasileira, estatísticas do IBGE referentes ao ano de 2006 informam que o organismo agremiava cerca de 6000 igrejas, além de congregações e outras frentes de trabalho. [2] Estabelecido por João XXIII, em junho de 1960, como Secretariado do Vaticano para Promoção da Unidade Cristã, em junho de 1988 o organismo foi transformado por João Paulo II no Conselho Pontifício para a Promoção da Unidade dos Cristãos, designação que começou a vigorar em março de 1989. [3] Traduzido por Élison Santos, © Innovative Media, Inc. Extraído de: http://www.zenit.org/article-16969?l=portugues [4] John Francis Noll & Lester J. Fallon, Father Smith Instructs Jackson, St. Louis, 1949, pp. 48-49. [5] Confissão Batista de 1689 ou Confissão Batista de Filadélfia, 26.4b. [6] A Confissão da Fé Apostólica; Documento de Estudo da Comissão de Fé e Ordem do Conselho Mundial de Igrejas. Trad. Jaci Maraschin. São Bernardo, São Paulo: Instituto Ecumênico de Pós-Gradução em Ciências da Religião; Porto Alegre, RS: Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC), 1993, 173p. O documento pretende ser uma “Explicação Ecumênica da Fé Apostólica segundo o Credo Niceno-Constantinopolitano (381)”. [7] Iain Murray, O Spurgeon que Foi Esquecido. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas., 2004, 299p. |
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