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117 - "Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores" |
13 dezembro 2007 |
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Neste momento, é muito oportuno lembrarmos que a Escritura Santa diz que o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1.14); diz ela também que “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1Tm 1.15), e que sobre a cruz ele consumou a redenção do Seu povo. Porém, quando pensamos acerca da entrada de Cristo neste mundo, emergem questões sobre como Jesus pode ser tanto Deus quanto homem. O que dizer sobre o relacionamento entre a humanidade e a divindade de Cristo? Duas declarações podem ajudar-nos ao introduzirmos o nosso pensamento a esta questão. Jesus Cristo sempre tem sido Deus No primeiro verso do Evangelho de João, Jesus é apresentado como “o Verbo”. O texto joanino abre-se com as seguintes palavras: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus” (Jo 1.1). João diz que Jesus estava presente “no princípio”; especificamente que ele “era” e “estava”, conforme nossas traduções em português. O tempo do verbo mostra que Jesus não veio a ser “no princípio”. Ele “era”, então! Uma forma de parafrasear isto seria dizer: “No princípio, a Palavra continuamente era”, significando que já “estava” e “era”, então. Jesus existia antes do princípio, isto é, antes de qualquer coisa criada, no que se incluem os anjos e o tempo. Ele é eterno! João declara que “o Verbo era Deus”, o que significa que Jesus é Deus, e desde que Ele estava “no princípio”, Ele tem sempre sido Deus. Portanto, no relacionamento com Sua humanidade, é correto dizer que havia um “tempo” quando Jesus era Deus e não homem, mas nunca houve um tempo quando Jesus era homem e não Deus. Cristo Jesus tem existido como Deus antes de tornar-se um homem. Isto refuta a idéia (encontrada entre Testemunhas de Jeová, por exemplo) de que Jesus Cristo era um ser criado. Deus não queria tão somente revelar os seus pensamentos, senão também manifestar a Si mesmo ao homem. Para que isto fosse alcançado, o método foi o de encarnar a verdade numa pessoa divina, o que se realizou em Jesus Cristo, que não só ensinou, mas também viveu a verdade a respeito de Deus. Agostinho procurou ilustrar isso:
Quando se fez homem, Cristo Jesus permaneceu Deus No que concerne ao relacionamento da natureza divina com a humana, na Encarnação não acontece subtração – Jesus não perdeu algo de Sua deidade com a finalidade de tornar-se um homem. Na Encarnação, não acontece divisão – Jesus não se tornou uma combinação de homem e Deus (50% homem e 50% Deus, ou 60-40, ou 70-30). Na Encarnação, acontece adição – Jesus Cristo torna-se o que Ele nunca foi, homem, sem cessar de ser o que ele sempre foi, Deus. Ele não reduziu-se à natureza de um homem; Ele tornou-se um homem enquanto permaneceu Deus. “Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (Cl 2.9). O escritor da Epístola aos Hebreus diz que Ele, Cristo, “é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser”, isto é, do ser de Deus (Hb 1.3). A Escritura está dizendo que Jesus Cristo é o apaugasma da glória de Deus. O termo grego tem duas acepções. Tanto pode significar resplendor, uma luz que brilha, tal como a luz do sol na aurora, cujos raios penetram todos os restinhos da escuridão para espatifá-la. Ou pode significar reflexo, isto é, a luz refletida. Em Hebreus significa mais provavelmente resplendor. O Credo niceno-constantinopolitano diz que o Senhor Jesus Cristo é “Luz de Luz”.[2] Jesus Cristo é o resplendor da glória de Deus entre os homens. A ele pertence a glória original de Deus. A glória de Deus pode ser vista em Jesus Cristo. “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai” (Jo 1.14). Jesus Cristo é o brilho que irradia de Deus. E tenha em mente que a glória do Pai é invisível até que ela resplandeça em Cristo. Com o coração iluminado, contemplamos a “glória de Deus, na face de Cristo” (2Co 4.4). João Calvino escreve:
O texto da Epístola aos Hebreus diz também que Jesus é o charakter da mesma essência divina, de sua substância, de seu ser. O termo helênico charakter tem, igualmente, duas acepções. Em primeiro lugar significa um selo (ou um carimbo) em si mesmo. Em segundo lugar, pode significar a marca ou impressão que o selo deixa na cera, por exemplo. A impressão tem a forma do selo e reproduz exatamente e em detalhes a sua forma. Quando o autor de Hebreus diz que Jesus Cristo é o charakter do ser de Deus, quer afirmar que em Jesus Cristo se encontra a imagem mesma, e a expressão exata de Deus. Charakter é a forma viva de uma substância oculta. Assim como na impressão alguém vê como é o selo que a fez, assim também em Jesus se vê exatamente como é Deus. Nenhuma diferença pode ser feita entre a natureza do Pai e a natureza do Filho. O apóstolo Paulo diz aos Coríntios que Cristo é “a imagem de Deus” (2Co 4.4), e aos Colossenses acrescenta que Ele é “a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). A substância do Pai se acha de alguma forma gravada em Cristo. Ele é co-participante da natureza divina. O teólogo J. I. Packer salienta que a pessoa de Jesus Cristo “não era Deus menos alguns elementos de Sua deidade, porém Deus mais tudo que Ele assumiu ao tomar a completa natureza humana para Si mesmo”.[4] Calvino, enfatizando a simpatia de Cristo, escreve que “quando o Filho de Deus vestiu nossa carne, também concordou voluntariamente em vestir as emoções humanas”.[5] O bebê nascido da virgem Maria não era simplesmente meio-homem ou meio-Deus. Ele não era apenas “Deus coberto de pele”, nem meramente parecia ser um homem. A Confissão de Fé Batista de 1689 diz que:
Isto simplesmente mostra que não apenas Jesus Cristo é Deus, e que não apenas é homem, mas que ele é Deus-Homem. Reflita, Considere e Medite John Owen chega a dizer que a “a glória das duas naturezas de Cristo numa única pessoa é tão imensa que o mundo incrédulo não pode ver a luz e a beleza que irradiam dela”.[7] Isto ecoa o que já dissera Agostinho: “Todo homem, desde o início de sua fé, torna-se cristão pela mesma graça com que Deus fez-se homem em Cristo”.[8] O fato singelo da matéria é que a encarnação de Jesus Cristo foi um milagre. Packer aponta: “O mistério da Encarnação é imperscrutável. Nós não podemos explaná-lo; podemos apenas formulá-lo”.[9] E o mesmo autor diz em outro lugar:
Herdando a sublime linguagem de sua predecessora Confissão de Fé de Westminster, a mais madura das Confissões de Fé Reformadas expõe isto da seguinte maneira:
Quando o anjo anunciou à Maria que ela estava para ser a mãe do Messias, ela, abrindo a sua boca, louvou a Deus com um salmo, geralmente conhecido como Magnificat, que é assim conhecido porque na versão latina começa: Magnificat anima mea Dominum, Et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo. “A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador”. Um colega preclaro escreveu ontem uma mensagem provocante, em forma de manifesto, cujo título é “Não me diga Feliz Natal!”. Insurge-se ele contra o “festival inventado por ímpios que o celebram centralizado nos homens” e não na "Encarnação do Filho". E acrescenta palavras instigantes, as quais tomo emprestadas:
Prossegue o irmão dizendo que talvez nesta esteja uma das explicações para o crescimento da igreja apostólica, isto é, que em rigor "o Evangelho não era romântico". E arremata: "Era uma acusação permanente de pecado e rebelião contra Deus e um convite ao arrependimento, baseado na graça de Deus, a qual se manifestou por Cristo ter morrido em nosso lugar enquanto éramos ainda pecadores". Ele recomenda cantarmos nestes dias dois de nossos preciosos hinos. O primeiro, de Fanny Jane Crosby, com tradução de Salomão Ginsburg e música de Ira D. Sankey:
Ou recorrermos à tradicional letra de Richard Holden, para o Adeste Fideles:
(Confira também a seguinte postagem anterior: A Encarnação do Filho de Deus em Três Confissões Reformadas) [1] Agostinho, A Doutrina Cristã. São Paulo: Edições Paulinas, 1991, p. 61. [2] phós ek photós, Lumen de Lumine. [3] João Calvino, Hebreus. São Paulo: Edições Parácletos, 1997, pp. 34-35. [4] J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. São Paulo: Mundo Cristão, 1980, 352p. [5] João Calvino, Gospel According to John. Grands Rapids, Michigan: Baker Book House Company (Calvin´s Commentaries, Vol XVII), 1996, p. 440. [6] Confissão de Fé Batista de 1689, 8.2. [7] John Owen, A Glória de Cristo. São Paulo: PES, 1989, p. 24. [8] Agostinho, Da Predestinação dos Santos. I.XV. [9] J. I. Packer, O Conhecimento de Deus. [10] J. I. Packer, Teologia Concisa. Campinas: Luz para o Caminho, 1999, p. 98. [11] Confissão de Fé Batista de 1689, 8.4. Itálicos meus. |
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