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071 - Agostinho, bispo de Hipona (354-430) |
30 agosto 2006 |
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"O último dos antigos e primeiro dos modernos", Aurélio Agostinho nasceu em 13 de novembro de 354 e morreu, aos 72 anos, em 28 de agosto de 430. A conversão de Agostinho à fé cristã deu-se aos trinta e três anos de idade. Dotado de uma inteligência extraordinária, ele viveu numa era em que o Império estava em colapso, sofrendo os ataques dos bárbaros. Agostinho testemunhou, portanto, a Decadência do Império Romano do Ocidente, um “mundo que estava desmoronando”. O poderoso estado que durante meio milênio dominara a Europa estava a esfacelar-se em lutas internas e sob as investidas dos bárbaros. É bom lembrar também que, pela época de Agostinho, a cidade de Roma, além de capital do Império, tornara-se o centro da Igreja no Ocidente. A Igreja, igualmente, estava fragmentada e confusa, enfrentando muitos cismas, e as heresias prosperavam. Escrevendo contra tais heresias do seu tempo, o pensamento de Agostinho serviu muito para fortalecer a Igreja. O pensamento agostiniano é marcado por uma busca da verdade; ele busca entender o problema e a origem do mal, e também as noções de liberdade e graça. Escreveu mais de noventa livros, sem contar muitos textos pequenos, sermões e sua vasta correspondência. Aos dezenove anos, a leitura do Hortênsio, de Cícero1, contribuiu para que Agostinho se apaixonasse pela filosofia. A partir de então, ele passou a buscar a verdadeira sabedoria numa longa e inquieta peregrinação. Passou pelo Maniqueísmo2, ao qual abandonou desiludido, depois de ter se deparado com várias contradições. Teve, depois, uma fase em que recebeu grande influência do neoplatonismo3. Finalmente foi dramaticamente conduzido à fé cristã. Dedicou-se, desde então, totalmente à vida cristã e deixou sua ocupação como professor, buscando levar a vida de um monge ao converter sua própria casa em mosteiro para a oração, estudo e reflexão. Havendo vendido suas posses, dedicou-se ao seu ideal de vida comum: estudo, pobreza, trabalho e meditação. Fundou um mosteiro no norte da África e nele viveu, presbítero e monge, no ascetismo e no estudo. Depois, foi eleito bispo. O mosteiro que ele fundou acabou por se tornar um seminário para presbíteros e bispos para toda a África.
Sua teologia se desenvolveu em meio a sua
série de debates teológicos. Das muitas obras de Agostinho, as mais
conhecidas são Confissões e A Cidade de Deus. Em Confissões,
escrita entre 397 e 401, Agostinho relata, nos nove primeiros livros, sua
vida até a morte de sua mãe: sua miséria no pecado e sua lenta ascensão
para a presença de Deus. Esta obra não é uma narrativa ou diário, mas uma
longa oração, em que o autor recorda na presença de Deus seus trinta e
quatro anos, meditando sobre sua peregrinação espiritual, revendo sua
busca pessoal por Deus confessada em seu pecado e proclamada na soberania
e liberdade da graça de Deus, que lhe concede misericórdia e o perdoa. O
décimo livro apresenta uma análise psicológica de seu estado de espírito,
no período da redação d Talvez a maior de todas as obras de Agostinho seja A Cidade de Deus (413‑26). Esta obra foi escrita a propósito da queda de Roma em 410 e por causa das acusações dos pagãos de que o desastre era culpa do Cristianismo. Esse tratado sobre a providência de Deus, na verdade a primeira filosofia cristã da história, é a afirmação de que nenhuma cidade terrestre pode se comparar com a Jerusalém Celestial, a cidade de Deus. A cidade terrestre tem sua ascensão e queda, mas a cidade de Deus permanece para sempre. Para Agostinho, a cidade terrestre é a ferramenta temporal e temporária de Deus, e pode assumir muitas formas ao longo do tempo. A cidade terrena está fundada sobre o amor a si mesmo, e contra Deus. A cidade de Deus é invencível e continuará triunfando e realizando a vontade de Deus. Na essência, homens e nações se levantam e caem, mas a cidade de Deus conquistará tudo. A cidade de Deus é a igreja e, pela graça e poder de Deus, acabará substituindo os reinos terrestres na cidade celeste na ocasião da segunda vinda de Cristo. E até a segunda vinda de Cristo, a cidade de Deus será um reino espiritual oculto que existe sempre e onde quer que a vontade de Deus o queira. Havendo desenvolvido a doutrina da igreja “invisível”, da qual apenas os verdadeiros cristãos fazem parte, Agostinho concluía, logicamente, que nem todos os que fazem parte da Igreja visível fazem parte da igreja invisível, ou seja, nem todos os que congregam com os cristãos são cristãos. Mas, para Agostinho, não era possível pertencer à Igreja invisível e não pertencer à Igreja visível, católica.
A interpretação cristã da história, conforme
defendida por Agostinho, foi um grande consolo para muitos cristãos que
viram o Império Romano no Ocidente esfacelar-se por causa das invasões dos
vândalos. Até mesmo cristãos estavam identificando o Império Romano
cristianizado com o Reino de Deus, e sua derrota para as tribos bárbaras
foi um choque. Roma parecia, para os homens desse tempo, o princípio
organizador de toda a história humana. Ao desaparecer, que sentido teria o
mundo? Mas a idéia central de Agostinho é Alguns entendem que, no pensamento político contido na Cidade de Deus, Agostinho retém, da Antigüidade grega, as idéias de Platão (República e Leis). O verbo “reter”, entretanto, pode induzir a muito mais do que a realidade. Não obstante, entre as semelhanças que identificam: os planos de uma cidade ideal, a Cidade de Deus, em contrapartida com a da cidade terrestre, em que predomina a guerra, a injustiça, o egoísmo, etc. Para Agostinho, a verdadeira administração de uma cidade deve estar baseada nos ensinos de Cristo. A Cidade de Deus exerceu grande influência na filosofia da história. Enquanto no pensamento grego predominava o conceito do ciclo do Cosmos, com uma idéia cíclica do tempo – “o eterno retorno” -, Agostinho define o tempo como história linear que tem um começo e um fim, feita de eventos inteiramente singulares, e possuindo um sentido, ou seja, ao mesmo tempo uma orientação e uma significação. Desse modo, Agostinho estabelece o esquema que, daí em diante, se tornará característico das várias filosofias da história, inclusive as mais modernas. Para Agostinho, cada membro da Cidade de Deus tem sua responsabilidade histórica. E ele crê no triunfo final da Igreja, para a glória do Criador. A Cidade de Deus também exerceu influência na distinção entre Igreja e o Estado, com a implicação, posteriormente desenvolvida, de que o Estado só poderia ser uma parte da Cidade de Deus submetendo-se à Igreja em todas as questões religiosas. À partir de então, esta doutrina se desenvolveu no catolicismo medieval. Durante toda a Idade Média e o desenvolvimento gradual do poder papal, bem como durante todo o conflito entre o Papa e o Imperador, a Igreja Ocidental recorreu a Agostinho para justificar teoricamente a sua política. Depois da queda do Império Romano do Ocidente, a Igreja romana será a guardiã única e também a herdeira da cultura e do espírito de Roma, e a fraqueza dos governantes medievais ocidentais permitiu que a Igreja, em grande parte, realizasse "o ideal" da Cidade de Deus. No Oriente, onde o imperador era poderoso, isso jamais se verificou, e a Igreja permaneceu muito mais sujeita ao Estado do que no Ocidente. Em sua imensa luta teológica, Agostinho reflete o seu princípio de que a fé deve buscar a compreensão. Agostinho claramente reconhecia a primazia e a autoridade da revelação cristã. Ele se separou de suas influências filosóficas onde via que elas conflitavam com a Escritura Sagrada, que foi a fonte de autoridade de sua elaboração teológica. Agostinho usou a filosofia a serviço da teologia, mas sempre procurando submeter ambas às Escrituras Sagradas. Ele discordava dos filósofos gregos pré-socráticos que diziam ser o mundo originado de matérias primitivas como a água, o ar, o fogo, etc. Para Agostinho, todas as coisas existentes foram criadas por Deus a partir “do nada” (ex nihilo). A criação não é uma necessidade (como no pensamento grego), e o mundo material não é eterno. Para Agostinho, pois, a matéria não é eterna, e o universo teve um começo. Tendo sido o criador de todas as coisas, Deus não foi criado por coisa alguma. Deus é um ser incriado, não possuindo princípio nem fim, pois ele transcende o mundo, isto é, Ele está além das leis que governam as coisas. Agostinho não argumentou que antes não havia nada e de repente havia algo; antes de criar o mundo, o Deus eterno existia. Se recorrermos à idéia de causalidade de Aristóteles, podemos dizer que o universo tinha uma causa formal, final e eficiente, mas não uma causa material. E quando alguns céticos lhe perguntaram o que Deus estava fazendo antes de ter criado o mundo, Agostinho respondeu: “Estava criando o inferno para as almas curiosas”!
Em relação ao platonismo, o posicionamento
de Agostinho não é meramente passivo; ele está convencido de que
algumas verdades antevistas por Platão (427-347 a.C.) são as mes Assim como Platão argumentara que, para escapar das sombras no muro da caverna, o prisioneiro precisa ver as coisas à luz do dia, Agostinho argumentava que a luz da revelação divina é necessária ao conhecimento. E quando Agostinho fala da “revelação” de Deus, não está falando apenas da revelação que está na Bíblia. Para ele, além de todas as verdades encontradas na Bíblia dependerem da revelação de Deus, toda a verdade, incluindo a verdade científica, depende da revelação de Deus. Para Agostinho, “toda verdade, é a verdade de Deus, onde quer que você a encontre”. Para ele, o conhecimento de si mesmo e o conhecimento de Deus são os objetivos gêmeos da filosofia. “Não posso conhecer a Deus sem antes estar ciente de mim mesmo no pensamento, porém não posso me conhecer realmente a não ser no relacionamento com Deus”. Para Agostinho, a fé não é cega como a credulidade. Ser crédulo significa crer no absurdo e irracional – crer sem boas razões. A revelação transmite informações que não se podem obter pela razão, sem ajuda, mas jamais informações opostas às leis da razão. A dispersão de sua obra pelo mundo cristão ocidental explica a influência considerável de Agostinho no Baixo Império Romano, em toda a Idade Média e depois disso. As obras de Agostinho forneceram à Igreja aquilo de que necessitava para os séculos vindouros, criando um oásis de certeza num mundo perturbado. Agostinho foi o mestre por excelência de uma nova época. Na Idade Média, ele foi a fonte principal de vários teólogos. Até o tempo de Tomás de Aquino (1225-1274), Agostinho foi o principal alimento do espírito medieval, que recebeu dele o pensamento patrístico e clássico Os maiores nomes do Renascimento — entre eles, Erasmo de Rotterdam (1469-1536) — dedicaram-se a editar as obras agostinianas com o surgimento da imprensa. Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564), os grandes reformadores do século XVI, foram profundamente influenciados pelo agostinianismo; igualmente, os teólogos do movimento de renovação inglês do século XVII, isto é, o movimento puritano, que tem sido chamado de “agostinianismo reformado”. O teólogo e educador reformado norte-americano, Benjamin B. Warfield (1851-1921), chegou a declarar que a Reforma foi o triunfo da doutrina agostiniana da graça sobre a doutrina agostiniana da igreja.4 Há, certamente, católicos atuais que não compartilham de alguns pontos de vista de Agostinho, assim como protestantes também. E certamente há aspectos em que Agostinho se distanciou do sentido das Escrituras Sagradas. Porém, seu impacto se fez sentir através dos séculos futuros em toda a Cristandade ocidental, tanto católica como protestante. Assim, a vida e o pensamento de Agostinho chegaram até nós, e há quem diga que nenhum personagem da Antigüidade é mais bem conhecido do que ele. Leitura Recomendada: 1. Para uma biografia de Agostinho, a obra de referência tem sido escrita por Peter Brown, Santo Agostinho: uma biografia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Record, 2005, 672p. 2. Para uma biografia mais resumida, a obra escrita por Garry Wills, Santo Agostinho. Série Breves Biografias. Tradução Ana Luiza Dantas Borges. Rio de Janeiro: Objetiva, 1999, 172p. 3. Para uma leitura evangélica sobre Agostinho, com citações temáticas traduzidas do latim, a obra escrita por Franklin Ferreira, Agostinho de A a Z. Coleção Pensadores Cristãos. São Paulo: Editora Vida, 2006, 248p. 4. Para uma tradução em português das duas obras de Agostinho, mencionadas neste artigo, Confissões pela Editora Paulus, e Cidade de Deus - Vol 1 e Cidade de Deus - Vol 2 pela Editora Vozes. _________________ 1. Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.)– Brilhante orador e político romano que se inspirava no ecletismo – a busca de um acordo entre os ensinamentos das escolas platônica, aristotélica, etc. 2. Maniqueísmo – Seita persa que afirmava ser o Universo dominado por dois grandes princípios opostos, o bem e o mal, mantendo uma incessante luta entre si. Doutrina que reduz a realidade à oposição irredutível de dois princípios contraditórios, o Bem e o Mal, aos quais correspondem as realidades espirituais e materiais. 3. Neoplatonismo – Movimento filosófico do período greco-romano desenvolvido por pensadores inspirados em Platão. Entre os neoplatônicos, citam-se Plotino (205-270), Proclo (411-485). O neoplatonismo se espalhou por diversas cidades do Império Romano, sendo marcado por sentimentos religiosos e crenças místicas. 4. Warfield, Benjamin B. Calvin and Augustine. Philadelphia: Presbyterian and Reformed Publishing Company, 1956, 321-22. Atente-se, porém, que esta opinião de Warfield, citada assim isoladamente, fora do seu contexto, pode simplificar demais. |
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