Nosso bom Deus, Pai e Salvador, uma vez que a Ti Te aprouve ordenar que trabalhemos para podermos atender à nossa indigência, por Tua graça, de tal modo abençoa nosso labor que Tua bênção se estenda até nós, sem o que ninguém poderá prosperar no bem, e que tal favor nos sirva para testemunho de Tua bondade e assistência, mercê da qual reconheçamos o paternal cuidado que tens de nós. Ademais, Senhor, que Te apraza assistir-nos por Teu Santo Espírito, para que possamos exercer fielmente nosso múnus e vocação sem qualquer dolo nem engano, pelo contrário, que tenhamos antes o propósito de seguir Tua injunção que satisfazer o desejo de enriquecer-nos; que se, não obstante, a Ti Te apraz prosperar nosso labor, que também nos dês a disposição de proporcionar assistência àqueles que estão na indigência, segundo os recursos que nos houveres dado, retendo-nos em toda humildade, a fim de que nos não elevemos acima daqueles que não hajam recebido tal abundância de Tua dadivosidade. Ou, se nos queres tratar em maior pobreza e indigência do que desejaria nossa carne, que Te apraza fazer-nos a graça de acrescentar fé em Tuas promessas, para fazer-nos seguros de que nos haverás de, por Tua bondade, prover-nos sempre o sustento, de sorte que não caiamos na desconfiança; antes, pelo contrário, esperemos pacientemente que nos cumules não somente de Tuas graças temporais, mas também de Tuas graças espirituais, para que tenhamos sempre mais amplo motivo e ocasião de render-Te graças e descansar inteiramente em Tua só bondade. Ouve-nos, Pai de misericórdia, por Jesus Cristo, Teu Filho, nosso Senhor.
(João Calvino, Oração para antes do trabalho, 1562)[1]
Na maioria dos países industrializados, o 1º de maio é o Dia
do Trabalho. Comemorada desde o final do século XIX, a data
é uma homenagem aos oito líderes trabalhistas norte-americanos
que morreram enforcados em Chicago (EUA), em 1886. Eles foram
presos e julgados sumariamente por dirigirem manifestações que
tiveram início justamente no dia 1º de maio daquele ano.
Baixos salários e jornadas de
trabalho que se estendiam até 17 horas diárias eram comuns nas
indústrias da Europa e dos Estados Unidos no final do século XV
III
e durante o século XIX. Férias, descanso semanal e aposentadoria
não existiam. Para se protegerem em momentos difíceis, os
trabalhadores inventavam vários tipos de organização – como as
caixas de auxílio mútuo, precursoras dos primeiros sindicatos.
Chicago, um dos principais pólos industriais norte-americanos,
também era um dos grandes centros sindicais. No dia 1º de maio,
os trabalhadores realizaram uma grande manifestação – foi a
última do período em que não houve violenta repressão policial.
Nos dias seguintes, toda ação dos operários foi duramente
reprimida pela polícia, com mortos, feridos e muitos presos. As
conseqüências chocaram o mundo: depois de um julgamento sumário,
vários líderes foram condenados à prisão perpétua e oito deles,
à morte na forca. Aos poucos, porém, vários Estados
norte-americanos começaram a estabelecer jornadas de trabalho
menores, de dez e até de oito horas.
No Brasil, a data é comemorada desde 1895 e virou feriado nacional em setembro de 1925 por um decreto do presidente Artur Bernardes. Com Getúlio Vargas – que governou o Brasil como ditador por 15 anos e como presidente eleito por mais quatro – o 1º de maio ganhou status de "dia oficial" do trabalho. Era nessa data que o governante anunciava as principais leis e iniciativas que atendiam as reivindicações dos trabalhadores, como a instituição e, depois, o reajuste anual do salário mínimo ou a redução de jornada de trabalho para oito horas. Vargas criou o Ministério do Trabalho, promoveu uma política de atrelamento dos sindicatos ao Estado, regulamentou o trabalho da mulher e do menor, promulgou a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), garantindo o direito a férias e aposentadoria.[2] Desde 2003, um Projeto de Lei na Câmara dos Deputados propõe a modificação do “Dia do Trabalho” para “Dia dos Trabalhadores”.[3]
Podemos nos valer deste dia para ensejar uma breve reflexão acerca da ética do trabalho na Cosmovisão Reformada.
O Calvinismo e o Trabalho
Um dos maiores legados do Calvinismo à cultura ocidental é uma
nova atitude em relação ao trabalho e, sobretudo, ao trabalho
manual. O trabalho, longe de ser meramente um meio inevitável e
um tanto tedioso de se obter as necessidades básicas da
existência, é das mais louváveis atividades humanas. Ser
“chamado” por Deus não implica em se afastar do mundo, mas exige
engajamento crítico em cada esfera da vida secular. O trabalho é
entendido, assim, como uma atividade profundamente espiritual,
um labor socialmente benéfico. A transformação do status do
trabalho de uma atividade desagradável e degradante a ser
evitada, se possível, para um meio honrado e glorioso de afirmar
a Deus e ao mundo que ele criou, é, pois, uma das mais
importantes contribuições do Calvinismo à cultura ocidental.
Atente-se, porém, que no
pensamento de João Calvino “o que conta acima de tudo
na vida do homem não é trabalhar, nem ganhar, nem preocupar-se
de todas aquelas coisas aparentemente primordiais que dizem
respeito ao ganha-pão, mas confiar em Deus, neste Deus ativo que
se contempla no dia do descanso. Que não é um Deus
ocioso, mas um Deus que quer expressamente associar os homens à
Sua obra, com a condição, todavia, de que só o Seu serviço os
preocupe e não o benefício que possam daí tirar”, ressalta André
Biéler.[4]
E se a Bíblia nos ensina que o trabalho não pode jamais ser,
para o homem, um fim em si, pessoal ou social, uma justificação
da existência, nem por isso deixa de ser um dos mais importantes
aspectos de sua vocação, de sua obediência e de sua fidelidade.
O trabalho não deve ser havido como um fim em si. Deve estar
subordinado à vida eterna, que é o alvo da existência, e não ser
um obstáculo à vida espiritual. No pensamento calvinista, na
medida em que o trabalho toma o lugar de Deus, absorve toda a
existência e não mais se reporta a seu fim, está ele votado ao
fracasso. A secularização do trabalho é um pecado tão grave
quanto sua divinização. Na medida, ao contrário, em que o
trabalho é relacionado com Deus, na fé e na obediência, é ele
acompanhado de bênçãos.
Pode ser, na verdade, que essa nova atitude calvinista em relação ao trabalho tenha se constituído em um dos elementos que conduziram ao desenvolvimento do Capitalismo. Leland Ryken salienta, não obstante, que o rótulo “ética puritana do trabalho” é usado hoje em dia para cobrir toda uma classe de males correntes: a síndrome do vício de trabalhar, trabalho escravizador, competitividade, culto do sucesso, materialismo e o culto da pessoa auto-realizada.[5] Nossa cultura tem visto o trabalho primordialmente como o caminho para as riquezas e posses. Esta ética secular tem sido atribuída aos Puritanos e ao seu precursor Calvino. Tem sido aceito como um axioma que a ética Puritana baseia-se na riqueza como a recompensa máxima pelo trabalho e a prosperidade como um sinal de santidade. Entretanto, o pesquisador aplicado em vão procurará pela consubstanciação da afirmativa de que o puritanismo e o calvinismo mais propriamente consideravam o trabalho como o meio pelo qual as pessoas conquistam seu próprio sucesso e riqueza.
A divisão de trabalho em categoria de sagrado e secular tornara-se uma característica principal do catolicismo romano medieval. E essa dicotomia sagrado-secular foi exatamente o que os Puritanos rejeitaram como ponto de partida para sua teoria do trabalho. Foi Martinho Lutero, mais do que qualquer outro, quem derrubou a noção de que clérigos, monges e freiras engajavam-se em trabalho mais santo do que a dona de casa e o comerciante. Calvino rapidamente acrescentou seu peso ao argumento, e os Puritanos foram unânimes em seguir a direção de Lutero e Calvino. Para os Puritanos, toda a vida era de Deus. O objetivo Puritano era servir a Deus, não simplesmente no trabalho no mundo, mas através do trabalho. Seu objetivo era integrar seu trabalho diário com sua devoção religiosa a Deus.
Há um ponto, salienta Ryken, em que a moderna interpretação da ética puritana está correta: que os puritanos escarneciam do ócio e louvavam a diligência. Porém, a finalidade do trabalho, no ideário puritano, era “obedecer a Deus e fazer o bem aos outros”, compartilhando da convicção de que as recompensas do trabalho eram primariamente espirituais e morais. A ética Puritana do trabalho fazia do trabalho uma responsabilidade individual, bem como uma obrigação social. A crítica puritana da ociosidade equiparava-se a seu louvor à diligência no trabalho, nem tanto por ser ele inerentemente virtuoso, mas por ser o meio designado por Deus para prover as necessidades humanas. A convicção puritana era que o trabalho é uma das ordenanças da Criação e, portanto, uma necessidade para o bem-estar humano. O ideal puritano era situar-se moderadamente entre trabalhar com zelo, por um lado, sem, contudo, dar sua própria alma pelo trabalho. E ao manterem sua visão dos fins morais e espirituais do trabalho, os Puritanos extraíram a conclusão lógica de que estes mesmos objetivos deveriam governar a escolha pessoal de uma vocação.
“Ética Protestante” e “Espírito do Capitalismo”
Como bem identifica Alister McGrath, na tese de Max Weber “a
demonstrável afinidade entre o Calvinismo e o Capitalismo
funciona como uma premissa, em vez de uma conclusão”. É algo que
necessita ser explicado, em vez de demonstrado. Há pouca dúvida
de que a elite econômica da Europa, no início do século XVII –
tanto nos países católicos quanto nos protestantes – fosse
calvinista.
Parecia que o Calvinismo isoladamente era capaz de movimentar a indústria e as finanças e de injetar um impulso vital na vida comercial das cidades e nações. A sugestão de que o Calvinismo de alguma forma causou – ainda que remotamente – o desenvolvimento de condições sob as quais o Capitalismo pudesse florescer é obviamente bastante plausível. Porém, é a explicação religiosa dessa tendência que levanta algumas dificuldades para o teólogo. Deliberadamente falando, é difícil para um teólogo cristão, familiarizado com o pensamento religioso do período, discernir a ligação íntima entre a espiritualidade calvinista e o “espírito do Calvinismo moderno” que Weber detecta.[6]
Um dos problemas nesta vasta coleção de ensaios que tratam da relação do Calvinismo com o Capitalismo é que, de um modo geral, seus autores estão limitados em instrumentos teológicos – e até histórico-teológicos – necessários para avaliar as implicações de certas posturas e doutrinas teológicas. O próprio Max Weber é um exemplo nesse problema. Alguns destes autores freqüentemente têm compreendido mal a doutrina da predestinação e vocação em Calvino e seus sucessores, como se fosse uma doutrina nova em si mesma, como se a idéia da eleição divina fosse uma inovação teológica ignorada antes da Reforma – e, mesmo então, aceita somente entre uma parcela do Protestantismo. Desse equívoco básico, têm surgido tentativas grosseiras de analisar psicologicamente o conceito calvinista de predestinação como um caminho para o Capitalismo. Os desdobramentos do Capitalismo holandês, por exemplo, revelam que foi justamente a Amsterdã arminiana que gerou a notável riqueza das Províncias Unidas, enquanto o ducado calvinista permaneceu economicamente ultrapassado. Portanto, podemos sugerir que um melhor lastreamento histórico-teológico teria tido efeito salutar sobre a sociologia e a historiografia econômica moderna. Talvez os teólogos possam humildemente recomendar aos sociólogos e economistas um exame mais detalhado e isento da noção de “ética do trabalho” calvinista. Um espírito humilde para análises interdisciplinares nesta área poderá ser não apenas sinal de sabedoria e prudência, mas de rigor acadêmico. Uma crítica teológica do debate sobre a relação entre a graça divina e a atitude moral humana, e da conseqüente introdução de uma “teologia da aliança”, poderia ser de grande auxílio para clarear alguns pontos, os quais a sociologia moderna simplesmente tem assentado como premissas em seus argumentos.
A primitiva propensão calvinista
em relação ao ativismo moral, econômico e político deve ser
vista como algo que repousa sobre importantes fundamentos
teológicos, que têm
sido freqüentemente olvidados em seculares análises do
Calvinismo. A imagem caricatural que se tem feito da doutrina
calvinista da predestinação, como encorajando um tipo de
contemplação passiva, carece de absoluta evidência histórica. Ao
contrário, as evidências históricas apontam que seu efeito foi
justamente o oposto, e que essa doutrina continha as sementes do
ativismo secular. No século XVI, uma postura dinâmica e
afirmativa em relação ao trabalho levou os calvinistas à
vanguarda do progresso. Porém, no século seguinte, outros grupos
protestantes do período, que não partilhavam da ortodoxa
doutrina calvinista, estavam incondicionalmente engajados em
atividades seculares. E McGrath arremata: “O que pode ter sido
singular ao Calvinismo, no século XVI ou no início do século
XVII, parece ter se tornado de cunho comum na burguesia do Norte
da Europa, por volta de 1650”.[7]
E muitos empreendedores “calvinistas” da metade do século XVII
estavam, na verdade, longe de serem ortodoxos em suas
perspectivas religiosas. A premissa de Weber pressupõe
acertadamente o compromisso desses “calvinistas” com a atividade
secular, e as ansiedades existenciais que a doutrina da
predestinação gerava. Porém, a premissa weberiana olvida que, a
despeito de haver restado esse engajamento por parte dos
indivíduos, ao mesmo tempo, os seus fundamentos religiosos que,
originariamente, causaram seu aparecimento, haviam se evaporado,
em sua maioria. As persistentes atitudes seculares não se
encontravam mais apoiadas sobre os mesmos fundamentos
religiosos.
Uma dificuldade fundamental em relação à tese de Weber está no fato de que esta não consegue construir a ligação específica entre a ética do trabalho, de um lado, e a acumulação e o reinvestimento do capital, de outro; na verdade, não há qualquer conexão específica com a atividade econômica em geral (...). Embora o calvinismo possa ter trazido consigo o imperativo de se assegurar a eleição do indivíduo e ao mundo por intermédio da atividade secular apropriada, a forma específica que essa atividade pudesse assumir era deixada em aberto. A análise histórica sugere que essas formas eram uma questão de contingência histórica, variando de uma época e um contexto histórico para outros.[8]
Se a afirmativa teologia de João Calvino em relação ao mundo tem alguma conexão inevitável com o Capitalismo, talvez possa ser identificada no fato evidente de que o Cristianismo evangélico produz tanto a atividade quanto a frugalidade, um alicerce do Capitalismo. No estilo de vida calvinista, mormente Puritano, é verdade que um mistura de diligência e frugalidade tendia a fazer as pessoas relativamente prósperas, ao menos parte do tempo. É importante, porém, considerar como eles viam sua virtual riqueza. A atitude puritana era de que a riqueza era um bem social, não uma propriedade pessoal – um dom de Deus, não o resultado de esforço humano somente ou um sinal da aprovação de Deus. A maciça pesquisa de fontes primárias revelará que os Puritanos afirmavam que nenhuma correlação direta existe entre riqueza e santidade. Para os Puritanos, "não riquezas, mas fé e sofrimento por causa do evangelho são sinais da eleição", salienta o historiador Richard L. Greaves.[9] E, em sua ética do trabalho, os Puritanos nunca conceberam-no à parte do contexto espiritual e moral no serviço a Deus e ao homem.
Para uma consideração mais ampla da ética calvinista do trabalho, recomendo a leitura do capítulo 5 da obra de André Biéler, o capítulo 11 da obra de Alister McGrath, e o capítulo 2 da obra de Leland Ryken.
Leia também a seguinte postagem anterior:
049 - 04/04/2006 - Que dizer dos Puritanos?
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[1] Orações. OPERA CALVINI,
tomo VI, p. 137. In: Biéler, André. O Pensamento Econômico e
Social de Calvino. Trad. Luz, Waldyr Carvalho. São Paulo:
Casa Editora Presbiteriana, 1990, p. 513.
[2] Para maiores informações
online, acerca do Primeiro de Maio, acesse:
http://rwor.org/i/graphpage/haymark.htm e
http://www.ofelia.com.br/1maio.htm
[3] Confira, online:
http://www.camara.gov.br/sileg/integras/172584.htm
e sua tramitação em
http://www.camara.gov.br/sileg/Prop_Detalhe.asp?id=116190
[4] Biéler, op. cit, p. 521.
[5] Ryken, Leland. Santos no Mundo; Os Puritanos como realmente eram. São Paulo: Editora Fiel, 1992, p. 37.
[6] McGrath, Alister. A Vida João Calvino. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 269. McGrath é catedrático de Teologia Histórica na Universidade de Oxford, e tem escrito extensamente sobre a história e o pensamento da Reforma.
[7] Idem, p. 274.
[8] Ibid., p. 275.
[9] Greaves, Richard L. Society
and Religion in the Seventeenth Century. Cambridge:
Cambridge University Press, 1927, p. 550.