049 - Que dizer dos Puritanos?

4 abril 2006

Nenhum grupo de pessoas foi mais injustamente difamado no século vinte do que os Puritanos. Como resultado, neste início do século vinte e um, chegamo-nos aos Puritanos com uma enorme bagagem de preconceitos culturalmente enraizados. Para a maioria das pessoas, hoje, os Puritanos foram um grupo de mentalidade estreita que se vestiam de preto e detestavam a diversão. Essa é uma caricatura popular.

Assim como em outras culturas, também na Língua Portuguesa o vocábulo “puritano” assumiu as conotações deméritas que lhe atribuíram em sua peja os adversários do Puritanismo, quer seculares ou religiosos, e dentre estes últimos os católicos romanos. O dicionário Aurélio constata que o vocábulo adquiriu, entre outras, a acepção de “moralista”. E não é incomum ver a palavra sendo usada como sinônima de “fariseu”, isto é, alguém exageradamente rigoroso na observância das prescrições legais, formalista religioso, orgulhoso, fingido, e que, aparentando uma santidade que não possui, se distancia do contato com outros. “O Puritano da Rua Augusta” é um filme de Amácio Amadeu Mazzaropi (1912-1981), ator, diretor e produtor paulista que se notabilizou no cinema caipira, e cujos filmes foram comédias muito populares e recordistas absolutos nas bilheterias brasileiras, nos anos 60 e 70. Esta comédia, produzida em 1965, retrata um rico industrial, pai de família, muito rígido e apegado às convenções e aos escrúpulos, que tendo aderido a uma liga moralizante contra os novos costumes da juventude, recebe reprimendas de seus filhos e de sua segunda esposa, que se vêem enlouquecidos com suas “idéias antiquadas” e com sua “mania de manter a moral e os bons costumes sempre em primeiro lugar”. Após sofrer um trauma psíquico e um ataque do coração, o tal “puritano” muda drasticamente, passando a chocar a família ao se comportar como um jovem outra vez, refazendo o penteado, renovando o vestuário, e manifestando um novo gosto por música. Ao sair de um asilo para doentes mentais, recupera os filhos e a esposa e se despede de seus "irmãos" da Liga. Assim, o moralista que Mazzaropi procurou “redimir”, parece retratar a popular caricatura brasileira do que seja um “puritano”.

De fato, muito do atual preconceito acumulado acerca dos Puritanos resulta da imagem que lhes foi impingida por escritos satíricos. E como salienta Leland Ryken, “é um costume da sátira exagerar as características negativas da coisa sendo atacada”. E Ryken acrescenta: “É uma grande tragédia que o único retrato que muitas pessoas devem ter dos Puritanos vêm de obras de sátira literária que não alegam ser fontes de história precisas”. O fato é que qualquer um, desejando desabonar os Puritanos, achou fácil encontrar material, o qual é geralmente distante da norma para os Puritanos. Arthur G. Dickens (1910-2001), um eminente historiador da Reforma Inglesa e Européia, é bastante preciso ao dizer que, “para avaliar o verdadeiro caráter do movimento Puritano dentro e fora da igreja devemos esvaziar nossas mentes do uso popular do termo”. O livro de Leland Ryken, Santos no Mundo – Os Puritanos como Eles Realmente Eram, contribui grandemente para corrigir a visão mal-informada sobre os Puritanos.

A eclesiologia e a política dos Puritanos têm sido estudadas com freqüência, e a Revolução Puritana tem sido matéria de farta discussão e crítica acadêmica. Porém, como observa Dr. J. I. Packer, só recentemente é que a teologia e a espiritualidade (ou seja, usando a palavra preferida deles, piedade) dos Puritanos têm começado a receber atenção séria da parte dos eruditos. E Packer acrescenta: “apenas recentemente tem sido notado que ocorreu, durante o século que se seguiu à Reforma, um despertamento devocional por toda a dividida igreja ocidental e que o Puritanismo foi uma das principais expressões (ou mesmo a principal expressão, em minha opinião) desse reavivamento”.

Durante a década de 1950 o interesse pelos Puritanos cresceu notavelmente. A revista britânica Banner of Truth começou em 1955, e a reedição de livros em grande escala começou em 1957. O interesse revivido na década de 1950 pela teologia puritana e reformada alcançou os confins da terra. Os editores estão trabalhando constantemente em traduções e novas edições revisadas das obras dos Puritanos. É necessário que se diga, entretanto, que em Língua Portuguesa a quantidade de publicações dessas obras é ainda diminuta.

Em seu livro, Leland Ryken relembra-nos que há lições para se aprender com o ideal Puritano de renovação da igreja. Na verdade, “renovação” não era uma palavra que eles usavam; eles falavam apenas de “reformação” e “reforma”, palavras que sugerem às nossas mentes do século vinte uma preocupação que se limita ao aspecto exterior da ortodoxia, ordem, formas de culto e códigos disciplinares da igreja. Mas quando os Puritanos pregaram, publicaram e oraram pela “reformação”, tinham em mente nada menos do que isso, mas de fato muito mais. Paul S. Seaver destaca que, no “programa Puritano”, a convocação para uma reforma foi um chamado à ação, primeiro para transformar o indivíduo num instrumento capaz de servir à vontade divina, e depois para empregar esse instrumento para transformar toda a sociedade. Portanto, corremos um grande risco quando ignoramos os Puritanos. Quando as obras escritas pelos Puritanos forem examinadas, haverá muito ouro a ser encontrado, de modo que nosso espanto em relação a essas riquezas será como o de mineradores pioneiros que encontraram grandes tesouros e jazidas. Porém, como Joel Beeke salienta, nós carecemos mais do que um renovado impulso de interesse pelos Puritanos. “Nós precisamos, em nossos corações, vidas e igrejas da disposição interior dos Puritanos – a piedade autêntica, bíblica, e inteligente que eles demonstraram”.

Os Puritanos abraçaram, de todo o coração, um tipo de cristianismo que exibia uma combinação especial de interesses biblicistas, pietistas, eclesiásticos e seculares. Packer, um profundo estudioso do Puritanismo, escreve que qualquer pessoa que conheça algo sobre o cristianismo dos Puritanos sabe que, quanto a seus melhores aspectos, ele tinha um vigor, uma ousadia e uma profundidade que falta à moderna piedade evangélica. Isto acontece porque o Puritanismo era, essencialmente, uma fé experimental, uma religião de “trabalho feito de coração”, uma prática permanente de busca da face de Deus, de uma maneira que difere muito de nosso atual cristianismo, de modo geral. “Os Puritanos eram crentes mais ousados exatamente porque eram crentes mais piedosos”, escreve Packer. Os Puritanos viam-se como peregrinos numa jornada até Deus e o céu. O Peregrino, de John Bunyan (1628-1688), está seguindo para a Cidade Celestial, a qual sempre esteve em sua mente, com exceção de quando ele foi traído por alguma forma de mal-estar espiritual.

Derek Wilson ressalta que foi basicamente a atitude dos Puritanos em relação à autoridade da Bíblia que os destacou de outros protestantes ingleses. Num certo sentido a primeira questão do movimento Puritano (como da Reforma em geral) foi a questão da autoridade. Os Puritanos resolveram a questão da autoridade ao colocar a Bíblia como autoridade final de crença e prática. Eles apresentaram um forte encorajamento ao povo para que se tornasse centrado na Palavra, tanto na fé quanto na prática, e, mais do que qualquer outro grupo de escritores na História da Igreja, os Puritanos nos mostraram como moldar completamente nossas vidas e ministérios pelas Escrituras Sagradas.

No livro Amado Timóteo, que consiste de uma coletânea de cartas ao pastor, Dr. Joel Beeke, que é um dos principais especialistas em literatura puritana entre os evangélicos reformados hodiernos, escreve duas epístolas ao jovem pastor “Timóteo” com o seguinte conselho: “Aprenda dos Puritanos”. Beeke recomenda ao jovem ministro que se submeta a uma “rígida dieta de literatura puritana”, oferecendo-lhe razões suficientes para se perseverar na leitura dos Puritanos. Quando Beeke se refere a um Puritano, a palavra inclui “não apenas aquelas pessoas que foram expulsas da Igreja da Inglaterra, pelo Ato de Uniformidade, em 1662, mas também aqueles que na Grã-Bretanha e na América do Norte, por muitas gerações após a Reforma, trabalharam para reformar e purificar a igreja e liderar o povo a uma vida bíblica e piedosa, coerente com as doutrinas reformadas da graça”. Beeke observa que o Puritanismo se desenvolveu de pelo menos três necessidades: (1) a necessidade pela pregação bíblica e ensino da sã doutrina reformada; (2) a necessidade de uma piedade pessoal bíblica, que enfatizasse a obra do Espírito Santo na fé e vida do crente, e (3) a necessidade de restauração da simplicidade bíblica na liturgia, vestimentas e governo da igreja, de forma que a vida bem organizada dela pudesse promover a adoração do Deus trino, como prescrito em sua Palavra. “Doutrinariamente, o Puritanismo era um tipo amplo e vigoroso de calvinismo; experimentalmente, era um tipo de cristianismo caloroso e contagiante; evangelisticamente, era tanto suave quanto agressivo”.

D. Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) e J. I. Packer são dois nomes que contribuíram grandemente para o atual interesse na obra dos Puritanos. Packer compara os Puritanos às sequóias, que são coníferas antiqüíssimas e de grande porte, que chegam a atingir na Califórnia nos Estados Unidos mais de três mil anos de idade, com cento e vinte metros de altura e doze metros de diâmetro. Diz Packer: “As sequóias da Califórnia fazem-me pensar nos Puritanos da Inglaterra, um outro tipo de gigantes que, em nossos dias, estão sendo novamente apreciados”. “Os Puritanos”, ele escreve, “eram gigantes, quando comparados conosco, gigantes de cuja ajuda carecemos, se quisermos crescer”. Comparando a atual geração de evangélicos ocidentais com a dos Puritanos, na estima de Packer os Puritanos são como “gigantes sábios” e nós como “pigmeus simplórios”.

John Owen (1616-1683) é considerado por Packer o mais profundo de todos os teólogos puritanos. “Em uma época de gigantes, ele sobrepunha-se a todos”, escreve. E Packer acrescenta: “Se ele quase não é conhecido hoje em dia, essa ignorância só nos torna mais pobres”. Owen foi chamado por C. H. Spurgeon de “o príncipe dos teólogos”. No extenso epitáfio gravado sobre o monumento que adorna o sepulcro de Owen, registra-se que ele deve ser “contado com os mais ilustres de sua época”, e que ele era “dotado de reconhecidos recursos da erudição humana em uma medida incomum”. Packer é da opinião que, à medida em que vamos estudando Owen quanto à vida espiritual, as suas instruções e orientações são realmente “veredas antigas”, “o bom caminho”, e nós faríamos bem em buscar graça para nós mesmos, começando a caminhar por esse bom caminho.

D. Martyn Lloyd-Jones, ao escrever sobre Jonathan Edwards (1703-1758), confessa: “Sua influência sobre mim não posso expressar em palavras... Jonathan Edwards é um dos maiores gênios que o mundo já conheceu e o maior filósofo americano de todos os tempos”. Lloyd-Jones vai adiante: “aventuro-me a asseverar que em Edwards chegamos ao zênite ou ao ápice do Puritanismo, pois nele temos o que vemos em todos os outros, mas, em acréscimo, este espírito, esta vida, esta vitalidade adicional. Não que nos outros houvesse completa falta disso, porém é uma característica tão saliente que eu afirmo que o Puritanismo chegou à sua mais completa florescência na vida e ministério de Jonathan Edwards”. E o apreço de Lloyd-Jones por Edwards não pode ser descrito de uma forma mais evidente, do que quando escreve: “De fato eu tentei, talvez tolamente, comparar os Puritanos com os Alpes, Lutero e Calvino com o Himalaia, e Jonathan Edwards com o Everest! Ele sempre me pareceu ser o homem mais semelhante ao apóstolo Paulo... Ele sobressai, parece-me, inteiramente pelo que é, entre os homens”. Fosse o que fosse que Edwards tentasse pensar, a Bíblia era suprema: tudo estava subordinado a Palavra de Deus. Assim como outros eruditos, Lloyd-Jones e Packer entendem que é na questão do avivamento que Edwards é preeminentemente o mestre. Avivamento é um derramamento do Espírito, e “se vocês quiserem saber algo sobre o avivamento verdadeiro, Edwards é o homem que se deve consultar”, arremata Lloyd-Jones.

Em sua obra de doze capítulos, ao undécimo Ryken deu o título de “Aprendendo de Exemplo Negativo: Algumas Faltas Puritanas”. A proporção escolhida por Ryken é bastante significativa, e, talvez, bastante acurada. O gigantismo dos Puritanos resulta, entretanto, em que atitudes críticas em relação a eles sejam reputadas por alguns como uma espécie de iconoclastia. Assim, alguns relutariam em admitir a relevância de um capítulo como aquele, conquanto seja ele necessário para uma visualização do quadro completo e equilibrado. Com bastante propriedade, honestidade e isenção, Ryken escreve que “os Puritanos estavam longe de serem perfeitos, e suas falhas, também, são parte da verdade sobre eles”. Interessado no que os Puritanos podem nos ensinar, Ryken não perdeu de vista este propósito quando explorou as falhas puritanas. Quer me parecer que este é um espírito bastante apropriado ao crente sincero e maduro, quando se aproximar do terreno mais crítico em relação ao Puritanismo.

Os grandes Puritanos, embora já falecidos, continuam falando conosco por meio de seus escritos, dizendo-nos coisas que precisamos ouvir urgentemente, em nossos próprios dias. Seremos sábios se considerarmos a observação que Packer fez a alguns anos atrás: “Creio que, na providência divina, algumas épocas têm uma mensagem especial para outras épocas, e que assim como a época do Novo Testamento provê um modelo para a vida de todas as igrejas e para todos os crentes de todos os lugares, assim também a época dos Puritanos tem algumas lições particulares para o mundo evangélico ocidental, neste final do século XX”.

Literatura Recomendada:

1. Leland Ryken, Santos no Mundo; os Puritanos como realmente eram. São José dos Campos: Editora Fiel, 1992, 288 pp.
2. J. I. Packer, Entre os Gigantes de Deus; Uma Visão Puritana da Vida Cristã. São José dos Campos: Editora Fiel, 1996, 389 pp.
3. D. M. Lloyd-Jones, Os Puritanos; suas origens e seus sucessores. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1993, 432 pp.
4. Erroll Hulse, Quem Foram os Puritanos? ...e que o eles ensinaram?. São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 263 pp.
5. Joel Beeke, “Aprenda com os Puritanos” (I e II). In: Thomas K. Ascol (editor). Amado Timóteo; Uma coletânea de Cartas ao Pastor. São José dos Campos: Editora Fiel, 316 pp.

Consulte também as seguintes postagens anteriores:

020 - 26/12/2005 - O Renascimento da Fé Reformada no Século XX
006 - 28/11/2005 - A Recuperação do Ministério Pastoral Reformado
025 - 05/01/2006 - Ernest C. Reisinger, os ministérios Founders, e o atual Renascimento da Fé Reformada entre os Batistas do Sul dos EUA

 

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