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Uma característica da teologia reformada é que ela é firmemente tanto pactual quanto revelacional. Todo crente reformado percebe que um dos seus desafios é confrontar-se com estes dois aspectos de sua fé bíblica, de uma maneira tal que a ênfase em um não acabe devorando o outro.[1]
Na Confissão de Fé de Westminster, presbiteriana, a palavra “dispensação” é utilizada duas vezes num sentido amplo, derivando-se do verbo dispensar (8.8 e 34.2), e também é duas vezes utilizada num sentido específico: “várias dispensações” (7.6) e “dispensação do Novo Testamento” (23.2). Quanto a este último sentido mais específico, a palavra é usada tanto na Confissão de Fé de Westminster quanto no Dispensacionalismo. Ambos os sistemas utilizam esta palavra no sentido de “uma administração” de algum propósito ou plano de Deus, mas é preciso que se diga que eles diferem na compreensão sobre o que é administrado.
Para os nossos queridos irmãos presbiterianos em sua distinta Confissão de Fé de Westminster, o que é administrado torna-se claro ao se tratar do “Pacto da Graça” (7.5-6): “Este pacto no tempo da Lei não foi administrado como no tempo do Evangelho. Sob a Lei foi administrado por promessas, profecias, sacrifício, pela circuncisão... Sob o Evangelho, quando foi manifestado Cristo, a substância, as ordenanças pelas quais este pacto é dispensado são a pregação da palavra e a administração dos sacramentos do batismo e da Ceia do Senhor... Não há, pois, dois pactos de graça diferentes em substância mas um e o mesmo sob várias dispensações”.
Na Confissão de Fé Batista (1689) não encontramos a palavra “dispensação” em seu sentido específico.[2] Quando trata do Evangelho e a Extensão de sua Graça (20.1), a Confissão Batista diz que “Deus foi servido prometer Cristo, o descendente da mulher, como o meio de chamar os eleitos e gerar neles a fé e o arrependimento. Nesta promessa, a essência do evangelho foi revelada, o que tornou-a eficaz para a conversão e salvação de pecadores”. Em seu comentário, Samuel Waldron escreve: “Esta orgânica e temática unidade dos pactos contradiz a popular estruturação dispensacional das Escrituras. No lugar de distintas dispensações com diferentes povos e diferentes testes, há um propósito de redenção progressivamente revelado e um povo da redenção progressivamente revelado”.[3]
Os reformados podem diferir quanto ao número das “dispensações” nas quais devem ser propriamente divididos os procedimentos de Deus com o homem desde a queda. Mas, conforme pode ser visto em suas confissões de fé[4], em geral eles concordam que estas dispensações são todas administrações de um e o mesmo Pacto da Graça. Central na compreensão reformada é a visão de que o ensino da Bíblia é de um único plano de salvação. Os reformados rejeitam a idéia de que Deus teve vários (ou mesmo apenas dois) planos de salvação para diferentes grupos ou tipos de pessoas. Alguns há que divergem deles neste aspecto, ainda que não concordem entre si com todas as inferências que podem ser obtidas deste ponto de partida fundamental. Alguns têm ensinado que Deus tem propósitos distintivamente diferentes para grupos específicos, e que cada um desses grupos está unido a Ele por vários e diversos pactos realmente diferentes em caráter. As Confissões de Fé reformadas, entretanto, ensinam que há apenas um plano de salvação – que os homens são salvos apenas em Cristo, pela graça mediante a fé. Em sua escatologia, a Confissão de Fé Batista ensina que todos os justos irão para a “vida eterna” (32.2), que também é mencionada como uma “herança eterna no reino dos céus” (8.5). Os ímpios serão “lançados aos tormentos eternos e punidos com eterna destruição” (32.2). Este é o destino final dos salvos e dos perdidos.
Ao tratar do Pacto da Graça (7.3), a Confissão Batista de 1689 declara: “Este pacto está revelado no evangelho: primeiramente, na promessa feita a Adão, de salvação pelo descendente da mulher; depois, por etapas sucessivas, até que sua plena revelação foi manifestada no Novo Testamento”. Com esta declaração, os batistas assumem a verdade de que o caminho ou esquema da salvação tem sido um e o mesmo em todas as eras do mundo. As grandes promessas de todos os pactos são cumpridas em Cristo e no “Novo Pacto” (Ef 2.12; Jo 1.14; Mt 1.22-23). Todos os precedentes pactos foram típicos e preparatórios, e a salvação é pela promessa. Isto significa dizer que ela é pela graça, através da fé num Redentor que está por vir. Sua eficácia para salvar dava-se apenas através do antecipado trabalho de Cristo (Hb 9.15). Dr. Samuel Waldron comenta:
A ênfase da Confissão de Westminster está na unidade do pacto da graça. Apenas suas ordenanças externas ou sacramentos são mudados sob o evangelho. A Confissão Batista não limita artificialmente o desenvolvimento do pacto da graça em meras mudanças em sua administração externa ou sacramentos. Ademais, ela não limita sua discussão da revelação do pacto da graça a uma (relativamente estreita) apresentação dual de Velha e Nova administrações deste pacto. Ao contrário, ela introduz a idéia de progressiva revelação, começando com ´Adão`, prosseguindo por ´etapas sucessivas` até a ´plena manifestação` do pacto da graça no Novo Testamento. A apresentação da Declaração de Westminster tende a minimizar a diversidade dos procedimentos pactuais de Deus e omite a progressão nas características da comunidade do pacto. A apresentação da Confissão Batista, com seu uso da idéia de progressiva revelação, provê um equilíbrio entre a unidade e a diversidade e uma abrangente perspectiva nos procedimentos pactuais de Deus”.[5]
Um aspecto a ser salientado é que, quando os batistas entendem que o Pacto da Graça é completa e plenamente revelado apenas no “Novo Pacto”, então é-lhes impossível pensar que infantes estão incluídos nele. Na opinião do celebrado Dr. Charles Hodge (1797-1878), nós não deveríamos chegar a tanto. Escreveu ele:
À vista de
Deus, pais e filhos são um só. Os primeiros são os representantes autorizados destes últimos. Agem por eles, contraem obrigações em nome deles. Em todos os casos, portanto, onde os pais entram num pacto com Deus, eles levam consigo seus filhos... Se um homem se unisse à comunidade de Israel, ele assegurava para seus filhos os benefícios da teocracia, a não ser que estes filhos voluntariamente os renunciassem. E assim, quando um crente adota o pacto da graça, ele traz seus filhos para dentro dessa aliança, no sentido que Deus lhes promete dar, no tempo determinado por ele, todos os benefícios da redenção, se eles não renunciarem ao seu compromisso batismal.[6]
O igualmente reverenciado Dr. Johannes Geerhardus Vos (1862-1949) ensinava que os envolvidos na Aliança da Graça são os eleitos. Ainda assim, para ele, “os filhos dos crentes estão incluídos na Aliança da Graça”. E ele conclui: “Temos de admitir que o fato de os filhos dos crentes estarem incluídos na Aliança da Graça não implica em que todos os filhos dos crentes, sem exceção, são pessoas eleitas que receberão a vida eterna”.[7]
E Dr. Hodge defronta-se com as implicações de seu argumento, quando escreve: “A fim de justificarmos o batismo infantil, temos de obter e autenticar uma idéia acerca da igreja como uma entidade que inclui os filhos dos pais crentes.”[8] E suas conclusões são bastante inquietantes. Entre as quais:
Pecam gravemente contra as almas de seus filhos os pais que deixam de consagrá-los a Deus, através da ordenança do batismo. Permitam que os pequeninos tenham seus nomes escritos no livro da vida do Cordeiro, mesmo que depois eles prefiram apagá-los. Sendo deste modo arrolados, torne-se o batismo o instrumento para a salvação deles.[9]
Reflita solenemente por alguns momentos nessas palavras do parágrafo acima. Concorda que são bastante inquietantes? Alguém até poderia dizer que são mesmo bastante desconcertantes – aliás, um adjetivo cuja etimologia remete para “fazer perder o concerto”.
Para maiores comentários acerca do conteúdo da Confissão de Fé Batista de 1689, recomendo Modern Exposition of The 1689 Baptist Confession of Faith, Evangelical Press, por Samuel Waldron. Para leituras acerca da teologia pactual, consulte os livros recomendados no web-site da CRBB, e particularmente o livro Covenant Theology; from Adam to Christ, pelo teólogo batista Nehemiah Cox e John Owen. Para considerações específicas sobre a questão do batismo infantil, recomendo The Baptism of Disciples Alone; A Covenantal Argument for Credobaptism Versus Paedobaptism, Founders Press, por Fred Malone. Atualmente um batista reformado, Dr. Malone inclusive batizou dois de seus filhos infantes quando era pastor presbiteriano. Para alguma consideração adicional, compulse também o livro Bebês devem ser Batizados?, Editora FIEL. Neste livro todos os autores citados são pedobatistas, não havendo, portanto, qualquer citação de autor credobatista.
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[1] De fato, a própria leitura pactual das Escrituras pressupõe necessariamente uma compreensão revelacional. Aqui, entretanto, chamamos atenção para os aspectos de unidade e permanência que integram uma leitura aliancista das Escrituras, e, por outro lado, o aspecto orgânico e progressivo enfatizado pela doutrina da revelação.
[2] Na Confissão de Fé Batista de 1689 a palavra “dispensação” ocorre duas vezes, mas apenas num sentido amplo, derivando-se do verbo dispensar (5.4 e 8.8 – neste último lugar apenas no original em inglês, se comparada à tradução para o português).
[3] Samuel E. Waldron, A modern exposition of the 1689 Baptist Confession of Faith. Evangelical Press, p. 111. Itálicos meus.
[4] Cf., por exemplo, a Confissão de Fé de Westminster (presbiteriana), a Confissão de Fé de Savoy (congregacional) e a Confissão de Fé de 1689 (batista).
[5] Waldron, op. cit, p. 114.
[6] Charles Hodge, Systematic Theology, Vol. 3. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1991, p. 555. Grifos meus.
[7] J. G. Vos, Blue Banner Faith and Life, 1959, pp. 36-37.
[8] Hodge, op. cit, p. 547.
[9] Ibidem, p. 588.
Deus, pais e filhos são
um só. Os primeiros são os representantes
autorizados destes últimos. Agem por eles, contraem obrigações
em nome deles. Em todos os casos, portanto, onde os pais entram
num pacto com Deus, eles levam consigo seus filhos... Se um
homem se unisse à comunidade de Israel, ele assegurava para seus
filhos os benefícios da teocracia, a não ser que estes filhos
voluntariamente os renunciassem. E assim, quando um crente adota
o pacto da graça, ele traz seus filhos para dentro dessa
aliança, no sentido que Deus lhes promete dar, no tempo
determinado por ele, todos os benefícios da redenção, se eles
não renunciarem ao seu compromisso batismal.[6]