038 - O "amor platônico" de ontem, o "amor virtual" de hoje, e a sexualidade cristã

08 FEVEREIRO 2006

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Na semana passada, ao ministrar uma aula sobre Filosofia Antiga para uma turma de Ensino Médio, chegamos ao filósofo Platão. Um tema aparentemente não muito interessante para uma turma de cerca de trinta e seis adolescentes! Um aluno tratou logo de reverter a situação, e perguntou-me: “Professor, o que é o amor platônico?” De imediato, o interesse da turma foi sensivelmente despertado.

O “amor platônico”, que alguém sugeriu ser melhor denominado como “paixão, atração ou admiração platônica”, é algo bastante comum. Todo romântico, é aquele que nunca se concretiza. Quem nunca ouviu acerca do “amor” de um menino por sua primeira professora? Todos nós, de alguma maneira, passamos por esta fase de amor platônico. Isto independe de sexo ou do processo educacional. Dizem que é uma etapa comum a todos, sendo uma parte de nosso desenvolvimento. Em alguns o amor platônico é mais claro; em outros é menos evidente. Mas de um modo geral, todos nos lembramos do nosso primeiro “grande amor”. Freqüentemente ouvimos as meninas falarem de seus “heróis”, e os rapazes de suas “musas”. O “amor platônico” não acontece apenas com pessoas tímidas. Pessoas muito tímidas, ou aquelas com alguma dificuldade de relacionamento, podem se esconder atrás de algo que se assemelhe com isso, que, em sua maioria, são “amores” impossíveis e sofridos, na tentativa de não se exporem e não correrem o risco de rejeição. Porém, este sentimento de autodefesa pode ser experimentado por todo tipo de pessoa.

Segundo Heidi Tabacof, o amor platônico revela uma dose de imaturidade emocional, à medida que nunca experimenta os limites e as frustrações de uma relação concreta. Para a especialista, "o aspecto positivo do amor platônico surge quando ele estimula a reflexão sobre os motivos que impedem a pessoa de ter uma relação madura consigo mesma e com o outro". Quando alguém se “apaixona” por uma pessoa com quem nunca conversou, motivada por uma troca de olhares, é como se a sua mente tivesse escolhido aquela pessoa para representar essa necessidade de paixão. A pessoa não conhece a outra, e portanto, o que alimenta essa atração são “fantasias amorosas”. O amor platônico é feito de idealização, pois não há confronto com a realidade. Você não conhece os defeitos dele(a), tampouco as qualidades. A verdade é que poderia ser uma pessoa vizinha ou outra qualquer. É importante que você se dê conta de que tudo o que sente é um reflexo do que se encontra no seu interior.

Se o amor platônico for realizado, pode ocorrer o que chamamos popularmente de “fogo de palha”, pois quando há a conquista do outro, “perde a graça”. Por exemplo: alguns adolescentes passam anos esperando pela realização de um “amor” idealizado, quando se apaixonam por um professor ou por um artista. Mas esses “amores” se esvaziaram e foram transformados no momento em que o amor ou a paixão real aconteceram.

De onde vem a expressão "amor platônico"? O adjetivo "platônico" nos remete ao filósofo Platão (427 - 347 AC), que viveu na Grécia antiga, e que considerava o amor espiritual mais importante do que o amor físico ou carnal. O adjetivo deriva-se de Platão justamente porque o filósofo grego acreditava na existência de dois mundos – o das idéias, onde tudo seria perfeito e eterno, e o mundo real, finito e imperfeito, mera cópia mal-acabada do mundo ideal. Na filosofia de Platão, o amor era o desejo de amor ao belo, à perfeição que era vivida como um processo de ascensão espiritual que, partindo do amor carnal se desenvolve numa crescente rumo a um estado de contemplação do ideal. Tanto é que Eros, na filosofia grega a partir de Platão, é a exposição de um pensamento sob forma figurada, do impulso que conduz o ser humano em direção ao plano elevado das idéias, da verdade, do conhecimento e da beleza.

Sob a influência dos poetas, Eros era representado como uma criança alada ou sem asas, que se divertia perturbando corações, que queimava com suas tochas ou feria com suas setas. Sob a aparência de um ser inocente, Eros era um deus de grande poder, capaz de ferir cruelmente. Para Platão, esta atuação é destacada como negativa, pois vem associada à tirania dos sentidos. Os cortejos de Eros levariam a alma à loucura.

Platão passou a descrever Eros como uma força perpetuamente insatisfeita e inquieta. Apesar de não ser um deus, o Amor pode ser de grande auxílio para o homem. De fato, o homem é um ser no exílio. Exílio de si próprio, de seu verdadeiro eu, de suas origens. Não obstante, o homem pode conhecer o prazer verdadeiro e satisfazer corretamente aos desejos. Porém, deve buscar o prazer verdadeiro, que é tanto mais legítimo quanto mais se aproxima do espírito – e o prazer ligado à carne, que satisfaz aos desejos eróticos e tirânicos, é o que se mostra mais distanciado dele. Para tanto, é necessário nutrir no homem o Amor do Bem. Colocá-lo no rumo certo, em direção ao Bem, ao Belo e ao Verdadeiro, num processo de “ascensão das sombras para a luz", de transposição de uma “condição de servo para a condição de espírito livre". Nesse movimento para o Bem, o Amor atua como uma força propulsora, que sempre estimula o homem a caminhar em direção de si próprio, à sua verdadeira natureza, sedenta do belo, do bem e da verdade.(1)

O Amor Platônico, como podemos ver, está distante do Eros tirano, que escraviza os homens às paixões dos sentidos e os mergulha no abismo da desordem. O Amor platônico faz os homens verem que a verdade de sua natureza é procurar. Procurar o saber. É nele e por ele que os homens geram o conhecimento e, por este, aproximam-se de si mesmos. Neste sentido, o Eros platônico pretendia-se libertador.

Quem parece ter batizado o "amor platônico", mais de dezoito séculos depois da morte do autor grego, foi o sacerdote, médico e filósofo Marsílio Ficino, que viveu em Florença, na época do Renascimento. Marsílio Ficino (1433-1499), que era um grande admirador de Platão, organizou um grupo que se reunia todos os anos no dia 7 de novembro para comemorar o aniversário tanto do nascimento como da morte do pensador grego. E o livro mais famoso de Ficino é um comentário sobre O Banquete, de Platão, justamente o texto onde o amor está em discussão.(2)

Interpretando o pensamento de Platão, Marsílio Ficino afirma que, por meio das coisas e dos seres belos, o homem entra em contato com o absolutamente belo, quer dizer, com a idéia de beleza, a beleza pura, desencarnada. O homem reconhece a manifestação do belo ideal em coisas e seres materiais, perecíveis, provisórios, imperfeitos. Quando um ser humano ama outro, o sentimento o impele na direção de algo que está situado além das limitações da materialidade: algo que é por si mesmo eterno e perfeito. Nisso consiste o "amor platônico" para Marsílio Ficino: evitar o corpo para se voltar inteiramente para a transcendência, para o sublime, para usufruir de uma beleza mais completa. Como salientam Rosália Duarte & Leandro Konder, o pensador florentino não disse, mas poderia ter dito: "quem ama não toca".(3)

“Em nosso tempo, esse tipo de amor parece não fazer sentido”, salientam Duarte & Konder. Os indivíduos são incessantemente "bombardeados" por imagens que os "induzem" a desejarem corpos apresentados como desejáveis. Entretanto, os corpos "desejáveis" que são vistos, em larga escala, estampados nas paredes, nas revistas, nas telas e monitores, são, para a esmagadora maioria dos que os vêem, totalmente inacessíveis, intocáveis. A exibição constante deles provoca, na realidade, uma certa frustração, um desalento, um tédio. A imagem em geral atrai visualmente, pois está lá para ser vista, mas não toca; gera desejos, é verdade, mas desejos virtuais e irrealizáveis; "distancia os corpos ao invés de aproximá-los". Em sociedades audiovisuais como a nossa, onde a imagem atrai pela exposição permanente de corpos ideais, "quem ama [também] não toca" verdadeiramente. No final das contas, a pessoa fica tão longe da realização dos seus desejos quanto estavam os adeptos do amor romântico renascentista. Ironicamente – salientam os dois autores – o "amor platônico", objeto de críticas e deboches nestes tempos de “liberdades individuais” e de “revolução sexual”, parece estar sendo reeditado como um "amor virtual", idealizado, inalcançável, fazendo as pessoas perceberem sua própria experiência sexual como desinteressante, sem cor, sem brilho e sem encanto.

C. S. Lewis (1898-1963), no seu livro “Cristianismo Puro e Simples”, ilustra graficamente a distorção de nosso instinto sexual:

Vejamos isto de outro modo. Pode-se reunir uma grande platéia para uma cena de “strip-tease”, isto é, para ver uma jovem despir-se no palco. Suponhamos agora que chegássemos num país onde se pudesse lotar um teatro para ver um prato coberto no palco, e sua tampa ser levantada lentamente de forma que todos pudessem ver, antes de se apagarem as luzes, que continha um peru assado ou uma torta de maçã; será que não pensaríamos que nesse país há algo de errado com o instinto de alimentação?(4)

Entre o “amor platônico” de ontem, e o “amor virtual” de hoje, apresenta-se, como alternativa mais sublime, aquela oferecida pela cosmovisão cristã. Nesta, a sexualidade e a espiritualidade não são inimigas mas amigas. De fato, escreve Richard Foster, “uma das verdadeiras tragédias da história do Cristianismo tem sido o divórcio entre sexualidade e espiritualidade”.(5) A Bíblia tem um elevado conceito do amor e da sexualidade. E os antigos escritores cristãos disseram que, se o homem nunca tivesse caído, o prazer sexual em vez de ser menor do que é agora, seria, na verdade, maior. O Cristianismo é praticamente a única das grandes religiões que aprova inteiramente o corpo; que pensa que a matéria não é essencialmente má; que o próprio Deus revestiu-se um dia de um corpo humano; que um certo corpo nos será dado mesmo no Céu, e que este será parte essencial de nossa felicidade, de nossa beleza e de nossa energia. Como diz Lewis, “o Cristianismo glorifica o casamento mais do que qualquer outra religião, e quase todas as grandes poesias sobre o amor foram feitas por cristãos”.

Durante o tempo do Novo Testamento, o prevalecimento das idéias gnósticas era um problema sério. E entre as fontes do gnosticismo estava o dualismo platônico. O gnóstico via o espírito como totalmente bom, e a matéria como essencialmente má. Se a matéria é essencialmente má, logo, o corpo é necessariamente maligno. Sendo assim, há duas possibilidades – presentes, em algum grau, em duas escolas filosóficas gregas com as quais o apóstolo Paulo defrontou-se em Atenas. Em primeiro lugar, há a possibilidade do ascetismo rígido em que todos os desejos do corpo são rígida e vigorosamente negados. Em segundo lugar, há a possibilidade de que um homem argumente que, se o corpo é mau, não importa o que se faz com ele. Pode-se saturar e saciar os seus apetites, e isto não tem importância alguma, porque o corpo é, de qualquer maneira, algo perecível e maligno.

Uma coisa fica clara: nenhum gnóstico poderia dizer, em momento algum que "o corpo é para o Senhor" (1Co 6.13). Para o gnóstico, o corpo era a única parte do homem que nunca poderia ser para o Senhor. A mensagem cristã sobre a salvação da pessoa como um todo, do homem total, “corpo, alma e espírito”, era uma coisa nova e necessariamente envolvia um evangelho de pureza. Num mundo em que a religião e a imoralidade sexual andavam juntas, e onde os pecados sexuais grassavam, o Cristianismo enfrentou a situação de frente, trazendo aos homens um poder para viver em pureza, e reafirmando a amizade da espiritualidade com a sexualidade.(6)
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(1) Barros, Gilda Naécia Maciel de - Eros, a Força do Amor na Paideia de Platão. Online: http://www.hottopos.com/videtur18/gilda.htm [capturado em fevereiro/2006].

(2) Platão - A República. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1976. Trad. de Maria Helena da Rocha Pereira. Diálogos; Mênon, Banquete, Fedro. Coleção Universidade de Bolso. Rio de Janeiro: Ediouro, s.d., 184p.

(3) Duarte, Rosália & Konder, Leandro - Sensualidade e imagem, hoje. Online: http://www.tvebrasil.com.br/oficinatvedemidia
/2004/pais_educ/sensualidade_e_imagem_hoje.asp [capturado em fevereiro/2006].

(4)  Lewis, C.S. – A Essência do Cristianismo Autêntico. São Paulo: Abu, 1979.

(5) Foster, Richard J. – Dinheiro, Sexo & Poder. São Paulo: Mundo Cristão, 1988.

(6) Leia Murray, John – Principles of Conduct; Aspects of Bibilical Ethics. Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1999.


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