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Há algum tempo atrás, o meu colega Pr. Franklin Ferreira compartilhava algo que escreveu sobre o pastor puritano Richard Baxter (1615-1691). E ao fazê-lo, ele arrematou: “Creio que um tema urgente é a recuperação do ministério pastoral reformado”. Franklin estava certo, com toda certeza!
Uma das áreas grandemente responsáveis pelo atual enfraquecimento do testemunho evangélico tem a ver com o ministério pastoral, inclusive em sua dimensão acadêmica. Quer me parecer que devemos orar por um ministério pastoral com genuína piedade cristã, com integridade moral, no qual o espírito de serviço e renúncia seja recuperado, em que a ortodoxia doutrinal seja valorizada e amada, e a excelência acadêmica seja almejada ou, ao menos, respeitada. Precisamos de graça tal que nos afete positivamente, reavivando-nos nestas cinco áreas. Num país emocional como o nosso, de grande tendência à informalidade, supersticioso e místico, somos solo fértil para uma espiritualidade que espere muito da piedade em detrimento da excelência acadêmica. Assim como em muitas coisas em nosso país, também no meio evangélico costumamos ter muito calor que resulta de pouca luz. Porém, o desejável é luz e calor, nesta ordem. A tendência contrária tem se mostrado frágil, precária e insuficiente em nossa história. Entre outros resultados, assistimos a um crescente neo-paganismo que tem tomado proporções no meio evangélico brasileiro.
Certamente que as condições econômicas prevalecentes em nosso país são reais entraves à preparação acadêmica dos ministros. Desde a antiga Suméria sabe-se que o acesso ao conhecimento acadêmico tem grande relação com as condições materiais de um determinado povo. Quando a mente, o espírito e o estômago, em conjunto gritam alto, normalmente o homem tende a satisfazer primeiro este último. Porém, neste particular, será requerido de cada um segundo a proporção do que recebeu, e não podemos simplesmente enterrar as oportunidades que estão diante de nós.
A fragilidade da tendência acima apontada tem exemplos em círculos pentecostais brasileiros. Para alguns dentre estes a excelência acadêmica é sinônimo de "apagar o Espírito", "confiar na carne", e a semente da soberba, o que, aliás, pode mesmo tornar-se absolutamente verdadeiro. Entretanto, mesmo eles estão agora buscando publicar livros que reparem esta carência, bem como superar as deficiências de seus seminários. Porém, no que tange a esta questão da espiritualidade, o problema não se limita a determinados círculos pentecostais. A espiritualidade fundamentalista" (1) e a espiritualidade pietista/pentecostal, conquanto pólos presumidamente repelentes, por vezes parecem-me como verso e reverso de uma mesma moeda. Por isto é tão comum uma desaguar na outra. Portanto, precisamos urgentemente resgatar uma cosmovisão reformada (bíblica) aplicada ao ministério pastoral. E necessitamos de graça para nos tornarmos relevantes em nossa geração. Ministros a quem Deus tem abençoado ricamente, como Paulo de Tarso, Agostinho, Calvino, Edwards, Baxter, Spurgeon, Lloyd-Jones, apenas para citar alguns mais conhecidos, foram homens nos quais estavam reunidos todos aqueles cinco ingredientes mencionados anteriormente.
Creio que precisamos ver boas
biografias de pastores sendo publicadas. Tenho dito isto a alguns
editores, os poucos com os quais tenho a oportunidade de travar
contato. Como um país que, graças a Deus, tem sido abençoado nos
últimos cento e cinqüenta anos com o ministério de bons
missionários, temos sido igualmente abençoados com algumas boas e
encorajadoras biografias missionárias, embora ainda poucas. E
vamos continuar precisando delas. Não obstante, a história parece
ter provado que não há vigor missionário que se mantenha se não
estiver apoiado em igrejas locais fortes. Nos dias de Carey, qua
ndo
numa reunião preparatória para a criação da Sociedade
Missionária, várias decisões preliminares foram tomadas,
inclusive a de buscar apoio financeiro para o futuro trabalho, o
Pr. Samuel Pearce (1766-1799) estava presente. Ele voltou para a
sua igreja em Birmingham, e convocou uma reunião. Os que atenderam
ao seu chamado criaram uma sociedade auxiliar para dar apoio à BMS.
Eles levantaram 70 libras que o pastor Pearce entregou ao
tesoureiro, quando a BMS foi oficializada. Sua iniciativa se
tornou um modelo para apoiar e promover missões. Este é apenas um
exemplo que mostra a importância do ministério pastoral no
virtuoso círculo missionário. Recomendo, a este
propósito, o bom livro do Dr. Michael Haykin, One Heart and One
Soul; John Sutcliff of Olney, his friends and his times,
Evangelical Press.(2)
Leia também o artigo de Dr. Haykin,
online,
“A Wretched, poor, and Helpless Worm”: The Life and Legacy of
William Carey (1761-1834).
Outro livro que também quero recomendar, de muito bom
grado, é Amado Timóteo, que a
Editora FIEL lançou recentemente. Este livro consiste de muito
pertinentes e oportunas cartas ao pastor.
(3)
Estes livros encontram-se também recomendados no
web-site da CRBB.
Temos hoje grande necessidade de referência pastoral, e talvez até de modelos pastorais em igrejas locais. Reafirmamos, pois, que uma das maiores necessidades da igreja contemporânea no Brasil diz respeito ao ministério pastoral. E o contexto atual impõe aos pastores enormes e singulares desafios. Sinto isto a partir de minha própria experiência como pastor, à frente de igrejas por quase duas décadas. Neste período, Deus tem me concedido o privilégio de conduzir o processo de organização de algumas igrejas, e de ver a implantação de alguns projetos, ministérios e frentes missionárias. Não obstante, nunca antes senti, como sinto hoje, tal intensidade e premência pelo desfrutar de copiosa graça divina no ministério pastoral. Penso que estou certo em presumir que, não apenas eu, mas muitos irmãos e colegas pastores têm sentido um certo tipo de desalento no contexto em que militam. Há muitos ministros piedosos entre nós que, crescentemente, vêm experimentando esta carência de maior graça no ministério pastoral, e que resistem à idéia de sucumbir diante das tendências tão atraentes das metodologias pragmáticas da moda. Precisamos que o Senhor restaure o verdor dos seus campos. E que, para tanto, purifique e refrigere o ribeiro de águas que sai do "altar do templo".
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(1) Utilizo a expressão aqui no seu sentido histórico mais específico e em sua acepção negativa.
(2) 431 páginas, ISBN: 0 85234 326 4.
(3) 316 páginas - ISBN: 859914510-X.