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Blog de Gilson Santos

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30 Março 2006

Caminhos Misteriosos da Providência de Deus

Atualmente, e inclusive no Brasil, está em questão a concepção da providência de Deus como historicamente crida, confessada e pregada pelos cristãos, particularmente os evangélicos reformados. A moderna noção de Deus produziu, logicamente, uma moderna compreensão de Sua providência. O "Deus" moderno encontra-se desprovido de sua providência!

O salmista disse que os juízos de Deus são “como abismo profundo” (Sl 36.6). E visto que os juízos de Deus são tão cheios de mistério, e por ser tão difícil para a mente finita penetrá-los, corremos o perigo de diminuir-lhe a sabedoria e até mesmo de duvidar da inteligência que os executa. O fato é que, quando consideramos a operação da providência de Deus, nós nos defrontamos com mistério. É por isso que a grande obra de John Flavel (c. 1628-1691) sobre o assunto, publicada em 1677, é intitulada O Mistério da Providência [1]. E ele escreve: “o povo de Deus não pode compreender tudo que lhe acontece no caminho para o céu... Quando chegarmos ao céu, veremos não apenas que é um lindo lugar, mas também veremos a beleza do caminho pelo qual viemos”.

Mistério não significa ausência de desígnio. Mistério não significa falta de inteligência. Significa que o desígnio é profundo, insondável, oculto. Muito embora não possamos vê-lo, o plano, o propósito, e a inteligência estão presentes. Pode ser inteligência que transcende nosso poder de descobrir e discernir, mas ela está ali. Mistério não significa que o motivo está ausente. Quer dizer apenas que ele é mais vasto, ilimitado e significativo (...) Esse é o motivo de o mistério ser tão fascinante. É porque existe um plano inteligente e um plano abrangente que contém muitas facetas, muitos fios. Ele é tão profundo, tão bem elaborado, que no momento não podemos imaginar nenhum desígnio, nenhum propósito compreensível. Sabemos que há por trás de tudo alguma coisa em andamento que mais tarde se tornará clara.[2]

A providência de Deus abrange tudo, e se estende a todas as criaturas e coisas, desde as maiores até às mínimas. A providência de Deus é totalmente abrangente, e inclui, certamente, os atos pecaminosos dos homens e das mulheres. A Confissão de Fé Batista de 1689 diz que “a onipotência, a sabedoria inescrutável e a infinita bondade de Deus se manifestam na providência, de um modo tão abrangente, que o seu conselho determinado se estende até mesmo à queda no pecado e a todos os outros atos pecaminosos, sejam de homens ou de anjos. Isto envolve mais do que uma mera permissão, porque Deus, muito sábia e muito poderosamente, limita, regula e governa os atos pecaminosos, em uma dispensação multiforme, atendendo aos santos desígnios de Deus. Mesmo assim, a pecaminosidade desses atos procede das criaturas, e não de Deus, que, sendo muito santo e muito justo, não é nem pode ser o autor do pecado; e nem pode aprová-lo” (5.4).

J. I. Packer assevera que o plano de Deus “não pode ser impedido pelo pecado humano, porque o pecado do homem está incluído no plano e o desafio à vontade de Deus revelada é usado por Deus no cumprir-se da Sua vontade através dos acontecimentos”. Os irmãos de José, por exemplo, venderam-no para o Egito. “Vós na verdade intentastes o mal contra mim”, disse José posteriormente, “porém Deus o tornou em bem... para conservar em vida a um grande povo” (Gn 50.20). “...assim, não fostes vós que me enviastes para cá e sim Deus” (Gn 45.8). A própria cruz de Cristo é a suprema ilustração deste princípio: “Este, sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus”, disse Pedro no seu sermão no dia de Pentecoste, “vós o matastes, crucificando-o por mãos de injustos” (At 2.23). Fica evidente, assim, que a iniqüidade do homem não impede o plano de Deus para a redenção do Seu povo. Pelo contrário, mediante a sabedoria do Onipotente, ela é tornada em serva desse plano. Exatamente como Deus usa os atos pecaminosos dos homens sem participar do seu pecado, é um mistério para nós. Contudo, se “a soberania de Deus significa que Ele faz o que quer fazer, quando Ele o quer fazer, e sem ter que dar explicação da razão pela qual o faz”[3], como poderia ser diferente?

No último mês de fevereiro, nossa igreja promoveu um retiro por ocasião do carnaval. O nosso assunto foi “A Providência de Deus na vida de José”. Recomendei a todos que lessem o livro de David Kingdon, cujo título é
Caminhos Misteriosos, recentemente lançado pela Editora PES. [4] Recomendo a todos que leiam este pequeno livro. É de uma leitura fácil, bastante devocional, e adapta-se a ministrações em grupos de estudos, classes de EBD, etc. Numa série de exposições em Gênesis, utilizei um domingo para uma pregação introdutória antes do retiro, ministrei sete estudos durante o retiro, e agora estou concluindo com algumas pregações na igreja.

Kingdon enfatiza que ao usar os atos pecaminosos dos homens e das mulheres, de maneira nenhuma Deus compromete a Sua santidade – continua sendo santo como sempre foi e sempre será. Igualmente, quando Ele inclui os atos maus em Seus propósitos, Ele é sempre soberano. Como Agostinho escreveu: “Portanto, nada acontece a não ser que o Onipotente queira que aconteça. Ou Ele permite que aconteça, ou Ele próprio o faz acontecer”. A observação de Calvino é muito pertinente: “Mas Deus age maravilhosamente mediante Seus meios (isto é, mediante as ações de homens maus), a fim de que, da impureza deles, ele manifeste a Sua justiça perfeita”.[5]

A nossa responsabilidade como cristãos é manter nossos olhos postos em nosso dever – no que Deus requer de nós. E assim, devemos concluir que, embora Deus se agrade em dirigir inclusive os pecados para o bem (Rm 8.28), a nossa preocupação deve ser com o nosso dever para com Deus, e não com o resultado da ação providencial. Os maravilhosos caminhos de Deus na providência nunca visam dar-nos licença para pecar, nem propiciar-nos uma escusa para tanto. Podemos maravilhar-nos ante os caminhos de Deus, porém nunca jamais devemos usá-los como uma retirada do reconhecimento da nossa responsabilidade pessoal diante dEle. Um exemplo disto pode ser visto no filho de Davi e de Bate-Seba, Salomão, que se tornou notório por sua sabedoria, e integra a genealogia de Jesus Cristo. Todavia o fruto da sua união de maneira nenhuma escusa o pecado de Davi (Sl 51.2,3). Jamais devemos admitir a idéia de que o bom resultado de uma cadeia de eventos pode servir de desculpa para o pecado humano. Portanto, é pura e simples iniqüidade da nossa parte tentarmos livrar-nos da culpa apontando para um bom resultado. Assim como Davi, devemos recusar justificar-nos, mas, devemos, sim, confessar com tristeza, do fundo do coração: “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que a teus olhos parece mal, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” (Sl 51.4). José confortou os seus irmãos, não escusando o pecado deles, porém mostrando a eles que a pecaminosidade humana não pode derrotar o propósito da graça de Deus (Gn 45.5,7; comparar com Gn 15.13).

A vontade de Deus é sempre santa, sábia e boa. É santa, porque, embora use atos de malfeitores, nunca se compromete com o pecado. É sábia, mesmo quando não a entendemos. É boa, mesmo quando não podemos ver que possível bem poderá provir dos nossos infortúnios e adversidades particulares. Naturalmente podem surgir indagações e até objeções na mente de muitas pessoas, mesmo de alguns crentes. Entretanto, cabe lembrar que há mistério ligado às operações da providência de Deus. Há, contudo, algumas pessoas que não se dispõem a viver com o mistério. Tais pessoas não querem admitir que há limites para a razão, limites além dos quais não é possível ir. Quanto ao crente, ao se deparar com o mistério da providência de Deus, a abordagem correta é dar-se conta de que Deus é Deus. Ele Se encontra tão acima de nós que muito do que Ele faz está oculto para nós. “Nuvens de obscuridade estão ao redor dele” (Sl 97.2) – tal é o caráter absconso de Deus. Mas, como na seqüência diz os versículo supracitado, “justiça e juízo são a base do seu trono”. O mistério não esconde a retidão e a justiça. “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (1Jo 1.5).

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[1] Flavel, John. Divine Conduct, or, The Mystery of Providence. 1678. Reimpressão em Londres: Banner of Truth, 1963, 224 pp. Leia uma versão simplificada deste clássico, preparada por Hervey Mockford, Se Deus Quiser, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1987, 57 pp.
[2] Billheimer, Paul E. O Mistério da Providência de Deus. Miami: 1988, pp. 20-21. Observe que mesmo Billheimer, que assumiu algumas posições controversas, sustenta uma posição mais bíblica neste aspecto do caráter abscôndito da providência do que modernos autores "heteroteístas".
[3] Ellsworth. “Pastoral Benefits of the sovereignty of God”. In: The Founders Journal, Número 51, Inverno 2003, p.13.
[4] Kingdon, David. Caminhos Misteriosos; A providência de Deus na vida de José. São Paulo: Publicação Evangélicas Selecionadas, 2005, 107 pp.
[5] Calvino, João. Gênesis; A Geneva Series Commentary. Vol. II. Londres: Banner of Truth, 2000, p. 378.


Blog Ex Corde. © 2006, de Gilson Santos

13 Março 2006

Refletindo sobre o Avivamento

Em 1990 participei da Conferência da Editora FIEL, quando Dr. Tom Ascol pregou sobre avivamento. Depois li porções do livro Avivamento, de Martyn Lloyd-Jones, publicado em português pela Editora PES em 1992. Estes dois fatores me ajudaram a formar uma compreensão mais bíblica sobre o tema, e também me foram de grande auxílio numa série de palestras sobre a História dos Avivamentos, que mais tarde proferi num pequeno município na região norte do Estado do Rio.

Lendo um dos sermões do Pr. John Piper, tomei conhecimento de um antigo ministro chamado William Sprague (1795-1876), que durante quarenta anos foi pastor da Igreja Presbiteriana em Albany, Nova York. Num período em que milhares de homens e mulheres foram convertidos, e sendo contemporâneo de Charles G. Finney (1792-1875), Sprague escreveu em 1832 um livro chamado Lectures on Revivals of Religion (Conferências em Avivamento). Charles Simeon (1759-1836), líder evangélico na Inglaterra e pastor da Holy Trinity Church em Cambridge, escreveu na página de rosto de seu exemplar desta obra: "Um dos mais valiosos livros.... Eu amo o bom senso de Dr. Sprague".

Em 1999, hospedando o querido irmão Pr. Jim Elliff em nossa residência, pudemos conversar um pouco sobre o ministério e o livro de Sprague. Dias depois, Jim muito generosamente me presenteou com o seu antigo volume pessoal desse livro, tendo escrito na dedicatória: “Este é um dos mais distintos livros sobre avivamento”. E quando em 2001 tive a oportunidade de visitar Albany, em Nova York, fui com um colega ao local onde Sprague realizou o seu ministério, e tivemos uma boa conversa sobre o assunto.

No final de 1958, quando a obra de Sprague foi republicada pela Banner of Truth, o Dr. Martin Lloyd-Jones, pastor da Capela de Westminster em Londres, era tão agradecido por este livro, que escreveu no prefácio:

Estou profundamente convencido de que a maior necessidade hoje no mundo é o avivamento na Igreja de Deus. A idéia completa de avivamento parece que se tornou estranha a muitos bons cristãos... [Isto] se deve a um sério equívoco na compreensão das Escrituras, e a uma lamentável ignorância da história da Igreja...

Minha oração é que ao lermos este livro sejamos relembrados do "nosso glorioso Deus”, e de suas poderosas obras entre o seu povo em tempos passados. E que isto nos conduza a um grande senso de nossa própria indignidade e insuficiência, e que seja criado dentro de nós um correspondente desejo pela manifestação de Sua glória e de Seu poder. O "Seu braço não está encolhido". Possa este livro conduzir-nos à súplica de que Ele estenda o Seu braço novamente, e que os Seus inimigos sejam confundidos e envergonhados, e o coração do Seu povo seja cheio de alegria e regozijo.

O Pr. John Piper disse em seu sermão:

Se corretamente entendo, esta é uma oração para estes dias. Cremos que o braço do Senhor não está encolhido e que estamos designados a pleitear que Ele o estenda novamente, para maldição dos seus inimigos e para despertar a alegria e poder de sua igreja pela evangelização do mundo.

Eu concordo com Lloyd-Jones que o avivamento na igreja é a maior necessidade no mundo de hoje. Mas tenho dúvidas se muitas pessoas sabem o que Lloyd-Jones quer dizer quando fala em avivamento. Visto que em nosso século este termo é utilizado para uma cruzada evangelistica ou para alguns eventos planejados, o significado original tornou-se quase inacessível para a maioria dos cristãos.

Por esta razão um livro antigo, como as Conferências em Avivamento de Sprague, pode ser tremendamente útil. De grande valor no livro são suas 165 páginas de notáveis correspondências. Por exemplo, há uma carta de Dr. Francis Wayland (1796-1865), que pode ser de particular interesse para nós batistas, quando quisermos saber o que nossos antepassados pensavam sobre avivamento, por volta de 170 anos atrás. Francis Wayland foi um proeminente pastor, educador e filósofo batista, que se tornou presidente da Brown University no Estado de Rhode Island, tornando-se bastante conhecido na primeira metade do século XIX. Ele foi um grande admirador de Adoniram Judson (1788-1850), o missionário batista na Birmânia, tendo escrito a primeira grande biografia de Judson.

Em 1832 Wayland escreveu uma carta acerca do avivamento ao seu conspícuo irmão Sprague. Tentemos descobrir um pouco de sua compreensão de avivamento e dos meios que Deus usa para trazê-lo.

Eu creio na existência do avivamento da religião, tanto quanto creio em qualquer outro fato, seja físico ou moral. Por avivamento da religião eu me refiro às épocas especiais nas quais as mentes de homens, dentro de uma certa região, ou numa determinada congregação, estão, mais do que normalmente, susceptíveis de impressão pela exibição da verdade moral.

(...) os ministros são mais que normalmente desejosos da conversão dos homens. Eles possuem, habitualmente, um poder incomum de apresentar as verdades simples do evangelho diretamente às consciências dos seus ouvintes, e sentem uma peculiar consciência de sua própria fraqueza e insuficiência, e ao mesmo tempo uma perfeita confiança na eficácia do evangelho, mediante a operação do Espírito, para converter os homens.

Durante os períodos de avivamento, os cristãos são caracterizados por um espírito incomum de quebrantamento, de confissão de pecado, e de oração, por um desejo de mais santidade, e especialmente por uma preocupação mais intensa pela salvação de almas.

Pessoas não-convertidas estão mais famintas por ouvir o evangelho, e particularmente pelas exposições mais claras e mais simples dele; elas escutam prontamente as conversas sobre o assunto e parecem aguardá-las. Verdades que elas freqüentemente ouviram com total despreocupação, agora ouvem com atenção solene e fixa; e em muitos casos, e por dias seguidos, quando é pregado um sermão ou oferecida uma exortação, estes se tornam eficazes na convicção ou conversão de uma ou mais almas.

De onde procedem tais avivamentos da religião? De onde eles vêm? Antigos homens, tais como o batista Wayland e o presbiteriano Sprague, criam que eles eram o trabalho soberano de Deus. Sprague põe isto da seguinte maneira:

Em todo avivamento nós somos distintamente conduzidos a reconhecer a soberania de Deus. Assim como isto é verdade e pode ser percebido na influência pela qual uma única alma é convertida, certamente não é menos manifesto nessas copiosas chuvas de influência pela qual são convertidas centenas de pessoas. É Ele quem causa isto. É Ele quem faz chover em uma cidade e não em outra. É Ele quem dirige o movimento dessas nuvens no mundo espiritual, da quais descem as bênçãos de reavivar e acelerar a graça. "O vento sopra aonde quer; e ouves a Sua voz, mas não sabes de onde vem nem para onde vai. Assim é todo que é nascido do Espírito". Assim, igualmente, é todo avivamento da religião.

Portanto, avivamento deve ser reconhecido como um trabalho soberano e sobrenatural de Deus. E disto então se conclui como deveríamos buscar esta obra de grande porte. Francis Wayland menciona três coisas que nós deveríamos fazer, como um prelúdio ao derramar do Espírito de Deus no avivamento.

Primeiro: o afastamento de todo o pecado conhecido.

Segundo: separar, individual e coletivamente, ocasiões para jejum, oração e humilhação.

E terceiro: a mais freqüente e mais fiel pregação do evangelho.

Muito já se tem escrito, em detalhes, sobre cada um destes itens. Porém, ainda que brevemente, deixe-me mencionar o resumo por Wayland do tipo de pregação que têm sido utilizada por Deus para promover o avivamento. Este é certamente o tipo de coisa pelo qual deveríamos orar para termos em nossos púlpitos.

As doutrinas mais prosperamente anunciadas na promoção de avivamento da religião têm sido... especialmente, a completa falta de santidade, por natureza, em todos os homens; a justiça de Deus na condenação perpétua de pecadores; o caráter iníquo e a pecaminosidade do homem; a total incapacidade do homem para se reconciliar com Deus mediante seus próprios esforços; a suficiência, liberdade e abundância da expiação; o dever do arrependimento imediato e fé em Jesus Cristo; o inescusável caráter da procrastinação; a denúncia dos enganosos refúgios sob os quais os pecadores se escondem; a soberania de Deus na salvação de pecadores; a exibição clara da verdade de que Deus não se encontra, sob nenhuma maneira, debaixo da obrigação de os salvar; e a necessidade da obra do Espírito de Deus para a conversão de qualquer indivíduo do gênero humano.

Em outras palavras, na visão de Dr. Francis Wayland, as verdades que Deus parece honrar com o trabalho reavivador do Seu Espírito Santo têm sido aquelas verdades que acentuam a

justiça e a santidade de Deus como o juiz de todos os pecadores,
a condição desesperada e sem esperança de todos os homens,
a glória do trabalho de Cristo,
a livre e soberana graça de Deus,
e a necessidade absoluta de arrependimento e fé.

Isto, obviamente, está a milhares de quilômetros de distância do contemporâneo “Cristianismo de Televisão”.

Sprague salienta que uma das características dos antigos avivamentos, que nós precisamos considerar, e que deve nos orientar, é sua seriedade absoluta e seu caráter solene. Há, certamente, um lugar para o humor em nossas vidas. Mas algo pode estar descompensado e mal quando nós abusamos disto em nosso ensino, pregação e atos de culto. Ouça as palavras de William Sprague acerca desta situação, escritas há mais de 170 anos, quando muitas das atitudes levianas que vemos nos dias de hoje estavam longe de insinuar-se no meio cristão evangélico.

Todos os meios relacionados ao avivamento, autorizados pela Palavra de Deus, caracterizam-se por seriedade.

Devo indagar a todos os que já presenciaram um avivamento: uma profunda reverência não permeava o ambiente? Preciso também perguntar: se você costuma gracejar de tudo, não foi compelido a manifestar seriedade no lugar em que ocorria um avivamento? E, se naquele momento desejou agir como uma pessoa brincalhona, não sentiu ser aquele lugar impróprio para isto?

Ora, se um profundo grau de reverência acompanha um avivamento; se na terra não existe algo mais solene, certamente todas as medidas que adotamos em conexão a um avivamento devem possuir esta mesma característica. Seria absurdo pensar em levar avante uma obra como esta utilizando meios que não se identificam por profunda seriedade ou introduzir coisas que têm o propósito de estimular emoções superficiais, quando tais emoções devem estar ausentes de nossa mente. Todas as anedotas irreverentes, formas cômicas de expressão, gestos e atitudes engraçadas nunca são mais inconvenientes do que nas ocasiões em que o Espírito Santo está agindo nos corações das pessoas presentes na igreja. Todas as coisas desse tipo O entristecem, porque frustram o objetivo para o qual Ele veio – convencer de sua culpa os pecadores e renová-los para arrependimento. E a situação não é amenizada se, após coisas levianas, introduzirmos aquilo que é realmente solene e importante, pois seu efeito legítimo é quase neutralizado pela conexão com a qual é apresentado; e aquilo que poderia vir com terrível poder sobre as consciências dos ouvintes torna-se, deste modo, sem poder e expressão. E, não apenas isso, com freqüência é formada uma associação na mente do ouvinte, a qual é excessivamente hostil às impressões religiosas – uma associação entre verdades solenes que deveriam fazer os pecadores tremer e expressões engraçadas que lhe oferecem matéria para gracejos.

Assim, me parece que se vamos realmente buscar e esperar o avivamento em nossas vidas e igrejas, temos que nos pôr mais sérios em nossa busca e sermos mais solenes em nossos procedimentos.
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Sprague, William B. Lectures on Revivals of Religion. London: The Banner of Truth Trust, 1959, 287pp, e Appendix 165 pp. Acesse online em:

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07 Março 2006

O Culto Cristão; considerações sobre sua natureza, e suas relações com a arte e a música

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