Ex Corde
Blog de Gilson Santos
21 Fevereiro 2006
14 Fevereiro 2006
O Cristão, o Estado e a Desobediência Civil
A conclusão de respeitados estudiosos é que a epístola aos Romanos foi escrita entre os anos 55 a 58 d.C, portanto, durante os primeiros anos do imperador Nero (54-68). Giordani nos lembra que “os maus instintos do novo César se revelaram através da perseguição de todos os que podiam fazer sombra à sua autoridade despótica”, e que coube a Nero “o triste papel de ser o iniciador das grandes perseguições aos cristãos em Roma”.[1] O apóstolo Paulo, não obstante, escreve aos cristãos em Roma acerca de seus deveres para com as autoridades civis: "Todo homem esteja sujeito às autoridades superiores; porque não há autoridade que não proceda de Deus; e as autoridades que existem foram por ele instituídas. De modo que aquele que se opõe à autoridade, resiste à ordenação de Deus (...) A autoridade é ministro de Deus para teu bem. Entretanto se fizeres o mal, teme (...) pois é ministro de Deus, vingador, para castigar o que pratica o mal" (Rm 13.2,3,4). E também escreve a Tito, a fim de que este recomende aos cristãos em Creta: "Lembra-lhes que se sujeitem aos que governam, às autoridades; sejam obedientes (...) não difamem a ninguém (...) sejam cordatos (...) para com todos os homens" (Tt 3.1,2).
A Igreja militante está atuando na sociedade humana, nesta esfera temporal e terrena. Ela não vive, atua ou desenvolve-se num vácuo. O Estado é uma realidade social; a Igreja também.
Para os reformadores, tais como Lutero e Calvino, o Estado é ordenado por Deus e um dom para esta vida. Por conseguinte, os cristãos não devem menosprezá-lo, mas sim aceitá-lo. Por outro lado, estes mesmos reformadores insistiram em que o estado não pode ser considerado um fim em si mesmo; é primordialmente um meio. E acrescentaram que a obediência a Deus é mais importante que o dever para com o estado. Deste modo, se qualquer superior viola nossas obrigações religiosas, podemos negar-nos à submissão a ele. O homem deve lealdade a um Deus soberano, acima de todos os outros soberanos. Em seu comentário sobre o quinto mandamento, Calvino escreve:
O fim deste mandamento é: Uma vez que ao Senhor Deus apraz a manutenção do que há disposto, importa invioláveis nos sejam os graus de eminência por Ele ordenados. A síntese, portanto
, será: que usemos de deferência para com aqueles que o Senhor nos fez superiores e os assistamos de honra, e de obediência, e de grato reconhecimento. De onde se segue o interdito: que lhes não derroguemos algo à dignidade, seja por desdém, seja por altaneria, seja por ingratidão.
(...) Com efeito, compartilha Seu nome com aqueles a quem distribui eminência, até onde se faz de mister que ela seja preservada. A Ele Só de tal modo convém na Escritura os títulos Pai, Deus e Senhor (...) Portanto, aqueles a quem faz partícipes destes títulos ilumina-os como que com uma centelha de Seu fulgor, de sorte que sejam, cada um, dignos de honra de conformidade com sua posição de eminência. Destarte, aquele que nos é pai, nele é próprio reconhecer algo divinal, porquanto não sem causa é portador do título divino. De igual modo, aquele que é um príncipe, ou aquele que é um senhor, tem alguma comunhão de honra com Deus.
(...) Em vista do que, não deve ser ambíguo que o Senhor aqui estatui uma regra universal, isto é, conforme tomamos conhecimento de que, por ordenação Sua, alguém nos foi posto como superior, que o honremos com reverência, obediência e reconhecimento e com quantas formas de servi-lo podemos. Nem vem ao caso se aqueles a quem esta honra se defere são dignos ou indignos, porquanto o que quer que sejam, afinal, não hão alcançado esta posição, entretanto, sem a providência de Deus, em função da qual o próprio Legislador quis sejam honrados.
(...) Mas, isto se deve também de passagem assinalar: que se nos ordena obedecer-lhes somente no Senhor [Ef 6.1]. Nem é isto obscuro do fundamento previamente lançado, pois ocupam esta posição, à qual os elevou o Senhor, com eles compartilhada uma parcela de Sua honra. Portanto, a sujeição que é para com eles exibida deve ser um passo para que seja contemplado de honra esse Pai Supremo. Pelo que, se nos instigam à transgressão da Lei, então, com justiça, não devem se por nós havidos por pais, mas por estranhos, que nos estão tentando afastar da obediência do verdadeiro Pai. Assim se deve considerar em relação aos príncipes, aos senhores e a todo gênero de superiores nossos. Pois é afrontoso e irrazoável que a rebaixar a excelsitude de Deus prevaleça a eminência destes, eminência que, uma vez que depende daquela, portanto, para com ela nos deve conduzir.[2]
Os desenvolvimentos políticos na Inglaterra e na América do Norte estiveram particularmente vinculados com esta posição. Sobre esta base os reis ingleses foram freqüentemente resistidos (e não apenas passivamente) e o Império foi transformado.
Pedro e os
demais apóstolos disseram "que mais importa obedecer a Deus do que os homens" (At 5.29). Com toda certeza isto impõe algumas tensões e levanta algumas questões. Calvino estabelece a condição para a desobediência civil: "se nos instigam à transgressão da Lei". Samuel Rutherford (1600-1661) debruçou-se sobre isto no seu Lex Rex: a Lei é Rei. Rutherford, presbiteriano, foi um dos comissários escoceses na Assembléia de Westminster, e mais tarde tornou-se Reitor na Universidade de St. Andrews na Escócia. Rutherford asseverava que a premissa básica do governo civil, e, portanto da Lei, tem que ser a Lei de Deus conforme a Bíblia traz. Certamente, a posição dele traz alguns pontos de inquietação e que requerem reflexão. E alguém que refletiu sobre Rutherford foi Dr. Francis A. Schaeffer (1912-1984). No seu interessante livro Manifesto Cristão, Schaeffer traz dois capítulos bastante inquietantes: "Os limites da obediência civil" e "O emprego da desobediência civil". Para uma consideração deste assunto, recomendo a leitura de todo o seu livro. Entre outras coisas, Schaeffer diz:
Segue-se, porém rapidamente, outra pergunta. Será que Deus determinou como autoridade sobre o Estado alguém autônomo, separado dEle mesmo? Devemos obedecer ao Estado não importando em que circunstância? Será que devemos obedecer? Nesta área o homem seria realmente a medida de todas as coisas? Eu tenho de responder que de maneira alguma é assim. Não é.
Quando Jesus diz em Mateus 22.21 "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus" não quer dizer:
DEUS e CÉSAR
Foi, é e sempre será assim:
DEUS
e
CÉSAR
O governo civil, como toda a vida, se encontra debaixo da Lei de Deus. Deus nos deu certas autoridades para proteger-nos do caos que é resultado natural de nosso estado caído. Mas quando qualquer autoridade ordena aquilo que é contrário à Palavra de Deus, os que ocupam o cargo ab-rogam sua autoridade e não devem ser obedecidos. Isso inclui o Estado.
(...) Deus ordenou o Estado como autoridade delegada, não autônoma. O Estado deve
ser agente da justiça, para restringir o mal castigando o malfeitor, e proteger o bem na sociedade [Rm 13.1-4]. Quando se faz o contrário, ele não possui autoridade correta. Torna-se, então, uma autoridade usurpada e como tal, sem lei e tirânica.
[1 Pe 2.13-17] Pedro está dizendo aqui que a autoridade civil deve ser honrada e que Deus deve ser temido. O estado, conforme ele o define, deve punir os que fazem o mal e recompensar aqueles que fazem o bem. Se não for assim, desmorona toda a estrutura. Claramente o Estado deve ser um ministério de justiça. Esta é a função do Estado, e dentro dessa estrutura os cristãos devem obedecer-lhe como questão de "consciência" (Rm 13.5).
Mas o que se deve fazer quando o Estado violenta sua função legítima? Os primeiros cristãos morreram porque não obedeceram ao Estado numa questão civil. As pessoas freqüentemente nos dizem que a igreja primitiva não demonstrava desobediência civil, porque não conhecem história da igreja. Por que os cristãos no império romano eram lançados aos leões? Do ponto de vista cristão era por razões religiosas. Mas do ponto de vista do Estado Romano eles estavam em desobediência civil, eram rebeldes civis.
(...) A linha limite é que há um certo ponto em que não existe apenas o direito, mas também o dever, de desobedecer ao estado.[3]
Questões delicadas e difíceis, certamente.
_________________
1. GIORDANI, Mário Curtis. História de Roma. Petrópolis: Vozes, 1987, p. 65.
2. CALVINO, João. Institutas da Religião Cristã, II, viii. Trad. Waldyr Carvalho Luz. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1985, pp. 35, 36 e 38.
3. SCHAEFFER, Francis. Manifesto Cristão. Brasília: Refúgio, 1985, pp. 86-88.
Blog Ex Corde. © 2006, Gilson Santos
13 Fevereiro 2006
A Nova Confissão de Fé dos Batistas do Sul dos EUA: alguns pontos que têm recebido resistência
Para aqueles que não estão familiarizados com esta questão, cabe esclarecer que, entre os problemas que alguns têm com o novo texto da Confissão de Fé da Convenção Batista do Sul, aprovado em 2000, é que ele declara no preâmbulo: “As igrejas, associações e corpos Batistas em geral têm adotado confissões de fé como um testemunho ao mundo, e como instrumentos de responsabilidade doutrinal. Nós não nos sentimos envergonhados em declarar diante do mundo que estas são doutrinas que consideramos preciosas e essenciais à tradição de fé e prática Batista”. Os Batistas do Sul afirmaram que “numa geração crescentemente hostil à verdade cristã, nosso desafio é expressar a verdade como está revelada na Escritura, e dar testemunho de Jesus Cristo, que é ´o Caminho, a Verdade, e a Vida´."
Observe que a expressão “Confissão de Fé” voltou a ser utilizada em lugar de “Declaração de Fé”. Porém, o ponto que mais tem incomodado alguns está na afirmação de que as Confissões de Fé são “instrumentos de responsabilidade doutrinal”. A palavra em inglês traduzida como responsabilidade é accountability, e pressupõe a idéia de uma responsabilidade corporativa e de algum tipo formal de prestação de constas. Alguns não crêem que tenham este tipo de responsabilidade diante das Confissões de Fé, e têm imensa dificuldade em subscrever algo assim. Eles insistem que deveria ter sido mantida a redação de 1963, em que se dizia que as “declarações de fé” nunca foram consideradas pelos Batistas como “credos oficiais de autoridade mandatária”. Desta maneira, estas pessoas são contrárias a qualquer uso autoritativo de Confissões de Fé, ou, melhor dizendo, não crêem que a Confissão de Fé estabelece critérios de responsabilidade formal. Algumas destas pessoas argumentam que as “Confissões de fé são instrumentos políticos, de controle, de poder, etc.” Este tipo de argumento sociológico tem sido utilizado principalmente por aqueles que têm problemas com a inerrância das Escrituras, ainda mais quando se considera que nesta época pós-moderna, há em igrejas batistas, mesmo em posições de liderança, alguns que não crêem mais numa verdade absoluta, nem nas reivindicações de verdade do Cristianismo.
Alguns vêm repetindo o refrão de que "a chave hermenêutica para a compreensão da Bíblia é Jesus Cristo, diferente da afirmação de que a Bíblia interpreta a própria Bíblia". De um modo geral, os conservadores estão dispostos a concordar que “a Bíblia deve ser interpretada à luz da pessoa de Jesus Cristo”. Há, entretanto, uma pequena e incômoda pergunta que esses conservadores têm dirigido aos que deles divergem: "Qual Cristo?" Seria o "Cristo" dos docetistas, dos muçulmanos, do kardecismo, dos marxistas, dos unitarianos, das Testemunhas de Jeová...? "Cristo" segundo quem? Qual Cristo? Quem Ele é? Onde podemos encontrar sua identidade, que nos forneça este critério hermenêutico seguro e que estabeleça o padrão de autoridade?
Se por um lado, alguns estão dizendo "nenhum credo somente Cristo", há também aqueles conservadores que dizem "nenhum credo, somente a Bíblia". E a estes também têm sido dirigidas algumas pequenas e incômodas questões: "A Bíblia segundo quem?” Ou: “Como você a interpreta?” Ou: “O que você quis dizer quanto votou unir-se a irmãos de mesma ´fé e ordem´? Qual fé? Qual ordem?”
Abaixo, uma comparação do primeiro artigo, “As Escrituras”, nas três versões da Confissão de Fé dos Batistas do Sul (“Fé e Mensagem”). Os itálicos são meus:
Fé e Mensagem Batista de 1925
Cremos que a Santa Bíblia foi escrita por homens divinamente inspirados, e é um perfeito tesouro de instrução celestial; que ela tem a Deus como seu autor, a salvação como seu fim, e a verdade, sem qualquer mistura de erro, como seu assunto; que ela revela os princípios pelos quais Deus nos julgará; e que, por conseguinte, é e permanecerá até o fim do mundo, o centro verdadeiro de união Cristã, e o padrão supremo pelo qual devem ser examinados toda conduta humana, credos e opiniões religiosas.
Lc 16.29-31; 2 Tm. 3.15-17; Ef. 2.20; Hb. 1.1; 2 Pd. 1.19-21; Jo 16.13-15; Mt. 22.29-31; Sl 19.7-10; Sl 119.1-8.
Fé e Mensagem Batista de 1963
A Santa Bíblia foi escrita por homens divinamente inspirados, e é o registro da revelação que Deus faz de si mesmo ao homem. É um tesouro perfeito de instrução divina. Seu autor é Deus, a salvação é seu fim, e sua essência é a verdade, sem nenhuma mescla de erro. Revela os princípios pelos quais Deus nos julga; e, por conseguinte, é e será até o fim do mundo o verdadeiro centro de união cristã, e a norma suprema pela qual se deve examinar toda conduta humana, credos e opiniões religiosas. O critério pelo qual a Bíblia deve ser interpretada é Jesus Cristo.
Ex. 24.4; Dt. 4.1-2; 17.19; Js. 8.34; Sl 19.7-10; 119.11,89,105,140; Is. 34.16; 40.8; Jr. 15.16; 36; Mt. 5.17-18; 22.29; Lc 21.33; 24.44-46; Jo 5.39; 16.3-15; 17.17; At 2.16ss.; 17.11; Rm. 15.4; 16.25-26; 2 Tm. 3.15-17; Hb. 1.1-2; 4.12; 1 Pd 1.25; 2 Pd 1.19-21.
Fé e Mensagem Batista 2000 (atual)
A Santa Bíblia foi escrita por homens divinamente inspirados e é a revelação que Deus faz de si mesmo ao homem. É um tesouro perfeito de instrução divina. Tem a Deus como seu autor, o seu propósito é a salvação, e seu tema é a verdade, sem mescla de qualquer erro. Portanto, toda a Escritura é totalmente verdadeira e confiável. Ela revela os princípios pelos quais Deus nos julga, e, portanto é e permanecerá sendo até o fim do mundo, o centro verdadeiro da união Cristã, e a norma suprema pela qual toda conduta, credos, e opiniões religiosa humanas devem ser julgadas. Toda a Escritura é um testemunho de Cristo, que é Ele mesmo o centro da revelação divina.
Ex. 24.4; Dt. 4.1-2; 17.19; Js. 8.34; Sl 19.7-10; 119.11,89,105,140; Is. 34.16; 40.8; Jr. 15.16; 36; Mt. 5.17-18; 22.29; Lc 21.33; 24.44-46; Jo 5.39; 16.3-15; 17.17; At 2.16ss.; 17.11; Rm. 15.4; 16.25-26; 2 Tm. 3.15-17; Hb. 1.1-2; 4.12; 1 Pd 1.25; 2 Pd 1.19-21.
Um outro ponto que tem recebido bastante resistência e rejeição, é o artigo sobre A Família. Em 1997 a Assembléia Convencional aprovou moção no sentido de que a Fé e Mensagem Batista de 1963 fosse revisada, e que o comitê eleito tivesse como “propósito primário adicionar um artigo sobre a Família”. O artigo foi aprovado em junho de 1998, e ratificado na revisão efetuada em 2000. Diante da aprovação deste artigo, houve uma furiosa reação da parte de diversos segmentos internos e externos à Convenção.
Deus ordenou a família como a instituição fundamental da sociedade humana. Ela é composta por pessoas relacionadas umas com as outras pelo matrimônio, sangue ou adoção.
O matrimônio é a união de um homem e uma mulher em um pacto de compromisso por toda a vida. Ele é um dom de Deus para revelar a união de Cristo e Sua igreja e para prover para o homem e a mulher um meio de companheirismo íntimo, o canal para a expressão sexual de acordo com os padrões bíblicos, e os meios para a procriação da raça humana.
O esposo e a esposa têm o mesmo valor diante de Deus, visto que ambos foram criados à imagem de Deus. A relação matrimonial modela a forma como Deus se relaciona com seu povo. Um esposo deve amar a sua esposa como Cristo amou à Igreja. Tem ele a responsabilidade dada por Deus de prover, proteger e dirigir a sua família. Uma esposa deve submeter-se graciosamente à servil liderança de seu esposo, assim como a igreja se sujeita voluntariamente à direção de Cristo. Ela, sendo criada à imagem de Deus tal como o seu marido, e portanto igual a ele, tem a responsabilidade dada por Deus de respeitar seu marido e servir-lhe de ajuda na administração do lar e na educação da próxima geração.
Os filhos, desde o momento da concepção, são uma bênção e herança do Senhor. Os pais devem demonstrar a seus filhos o modelo de Deus para o matrimônio. Os pais devem ensinar a seus filhos os valores espirituais e morais, e dirigir-lhes, mediante o exemplo de um estilo de vida consistente e uma disciplina amorosa, para que façam decisões baseadas na verdade bíblica. Os filhos devem honrar e obedecer aos seus pais.
Gn 1.26-28; 2.15-25; 3.1-20; Ex 20.12; Dt 6.4-9; Js 24.15; 1 Sm 1.26-28; Sl 51.5; 78.1-8; 127; 128; 139.13-16; Pv 1.8; 5.15-20; 6.20-22; 12.4; 13.24; 14.1; 17.6; 18.22; 22.6,15; 23.13-14; 24.3: 29.15,17; 31.10-31; Ec 4.9-12; 9.9; Ml 2.14-16; Mt 5.31-32; 18.2-5; 19.3-9; Mc 10.6-12; Rm 1.18-32; 1 Co 7.1-16; Ef 5.21-33; 6.1-4; Cl 3.18-21; 1 Tm 5.8,14; 2Tm 1.3-5; Tt 2.3-5; Hb 14.4; 1 Pd 3.1-7.
Para uma comparação das três versões em inglês, acesse: http://www.sbc.net/bfm/bfmcomparison.asp
Há, em Língua Espanhola, um quadro comparativo entre as versões de 1963 e 2000, com marcação dos pontos que alguns consideram problemáticos: http://www.baptiststandard.com/postnuke/pdf/BFM_Spanish.pdf
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08 Fevereiro 2006
06 Fevereiro 2006
As Igrejas e a Formação Teológica dos Futuros Ministros
O ambiente ideal para a formação do pastor é a Igreja. O modelo ideal para a formação do pastor é um outro pastor, numa atitude que espelhe o Senhor Jesus Cristo. A idéia cristã sobre o ministério tem uma fonte primária, a saber, a própria vida e missão de Jesus Cristo. Este é o cerne do padrão do Novo Testamento, e não há como fugir disso.Uma grande discussão em andamento diz respeito ao lugar, valor e modelo de toda e qualquer educação teológica formal fora do contexto da Igreja local. Há uma geração de mestres cristãos conservadores que está cansada e desencantada com o atual modelo de seminários. Especialmente aqueles que lecionam em escolas onde, a cada ano, os professores liberais vão se tornando mais claros em suas afirmações, e continuam angariando discípulos. Se tais escolas são mantidas por denominações evangélicas confessionais, pode ser realmente desalentador o fato de que nenhuma reação é esboçada diante da secularização do ensino, ou quando se percebe que a denominação já não mais consegue articular uma teologia bíblica conservadora.
Escritores reformados vêm colocando em questão o atual modelo de ensino teológico em seminários. Alguns têm sugerido investimentos no preparo de obreiros na Igreja local, a partir do presbitério, ou em academias baseadas na Igreja local. Nas últimas décadas, algumas igrejas batistas de persuasão reformada assumiram com radicalidade o bom princípio de que é a Igreja local a responsável pela formação de seus futuros líderes. Isto não significa que tais igrejas não buscam a cooperação suplementar de outras igrejas. Elas o fazem.
Um colega recentemente opinou: “Creio que vale muito mais investir pesado no futuro obreiro, discipulando-o, e estimulando-o a fazer, com o apoio da igreja, um bom curso na área de Humanas - como letras (grego ou hebraico) ou história. E que no transcorrer deste processo, o aluno já desempenhe tarefas na Igreja local, tendo o pastor como tutor. Depois a igreja poderia encorajá-lo para um curso de mestrado (...) Este era o padrão de formação dos pastores na antiga tradição reformada, em Harvard e Yale: primeiro a formação em Humanas, depois o mestrado e doutorado em uma área específica, como, neste caso, a Teologia.”
Alguns, alternativamente, vêm sugerindo programas discipulares com mestres experimentados e reconhecidos. Vincent Cheung, um discípulo de Gordon Clark, é um deles - embora Cheung tenha escrito algumas coisas de valor duvidoso, há interessantes reflexões dele publicadas no Portal Monergismo. Os proponentes destes novos modelos estão convencidos de que haverá lacunas. Mas eles também têm sérias dúvidas se tais lacunas são convenientemente preenchidas pelos atuais seminários.
Crescem também os projetos de “educação teológica à distância”, com a associação de novos métodos que estão incidindo sobre a educação. Alguns mestres estão sugerindo que o novo cenário possibilita a experimentação e adequação de novas estratégias em educação teológica. Nestes incipientes modelos, eles buscam integrar os novos recursos da tecnologia, tais como tele-conferência, internet, telefonia celular, transmissão via satélite, etc. Vêem eles o benefício da otimização de especialistas residentes nos mais diferentes lugares, como professores à distância, aliada a um programa de tutores e monitoramento, com algum tipo de responsabilidade da Igreja local, particularmente do pastor ou presbitério local. Não obstante, requerem também as aulas presenciais, ministradas em módulos planejados para determinados períodos do ano.
Esta é uma discussão aberta, e que consideramos muito bem-vinda, devido o seu grande e oportuno valor. Aguardamos boas reflexões contemporâneas, que lancem melhor luz sobre estes aspectos.
É preciso salientar que o ponto aqui em questão diz respeito à preparação teológica dos futuros obreiros, tais como pastores, missionários, etc. Não cabe, no escopo desta postagem, considerar o lugar de cursos teológicos com outras pretensões ou propósitos. A pergunta que se enseja é a seguinte: Como a Igreja de governo congregacional pode propiciar um preparo teológico para os manifestos vocacionados dentre sua membresia? Aqui está uma área sensível. E, uma vez estabelecida a necessidade de uma suplementação teológica, recorrendo-se a um Seminário, como pensar esta relação Igreja-Seminário? Talvez possamos, aqui neste ponto, recorrer a uma comparação, utilizando-nos da relação Pais-Escola, salvaguardando-se todas as distâncias e diferenças entre as duas situações.
O princípio vital para que a criação de filhos se realize biblicamente é que a desafiadora e importante tarefa de criar filhos é responsabilidade exclusiva dos pais. A ninguém será pedido contas a respeito da criação de filhos exceto aos pais, a quem Deus explicitamente ordenou que criassem e se responsabilizassem pelo desenvolvimento de seus filhos. Embora outros venham a influenciar o seu desenvolvimento, cabe aos pais filtrar esse fluxo de influências, pois o processo de criação como um todo é responsabilidade exclusiva deles. Assim, os pais não podem abdicar desta responsabilidade, transferindo-a à Escola, ou ao Estado, ou à Igreja - o que, infelizmente, tem acontecido. Toda a contribuição que a Escola, a Igreja, e o Estado têm a dar à Família neste particular é, certamente, suplementar. E é desta maneira que os pais devem diligentemente recorrer à Escola: na suplementação da formação de seus filhos, quando, como pais, se vêem limitados em ferramentas para oferecer-lhes, por si sós, a educação formal.
Penso que, no que diz respeito à formação dos futuros ministros, uma similar relação se estabelece entre as igrejas e os seminários (ou qualquer outro tipo de educação teológica formal fora do âmbito da Igreja local). A Igreja não pode abdicar do dever de formar teologicamente seus "filhos". Este dever é fundamentalmente dela, inclusive por preceito bíblico.
No Brasil, entretanto, somos herdeiros de uma realidade, cada vez mais constrangedora, em que a Igreja abdica desse compromisso. Ela transfere para o Seminário aquela responsabilidade, e descansa neste fato. A Igreja deixa de exercer o seu papel básico, evadindo-se da responsabilidade primeira do cuidado e da supervisão. O que temos assistido é uma capitulação deste modelo, não muito diferente daquela que temos presenciado nas escolas de educação em geral. Os Seminários não devem – e nem podem – substituir a Igreja. A lógica mais natural, nesta relação, seria o Seminário refletir a Igreja, para o bem ou para o mal. Entretanto, acontece por vezes de o Seminário superar a Igreja, reparando algumas de suas distorções, o que se revela um fato bastante auspicioso, conquanto não ideal sob certas circunstâncias. Porém, o mais lamentável, e não raro, é quando há completo disparate entre a Igreja e o Seminário. Tem se tornado freqüente ouvir que o jovem saiu da Igreja um crente professo e biblicista, e saiu do Seminário um teólogo liberal ou um agnóstico. O Seminário prestou um grande desserviço à Igreja. Em muitos casos, esta realidade ocorre com seminários oficialmente confessionais, e sustentados justamente pelas igrejas.
O fato bastante evidente é que a Igreja local pode ter limites. A realidade das igrejas varia, inclusive em número de membros, capacidade de liderança, situação cultural e geográfica, e recursos financeiros. Daí podermos compreender que ela peça ajuda a outras igrejas, presbíteros ou docentes. Neste contexto, seminários (ou instituições similares) surgem desta necessidade de cooperação entre igrejas. Então, tenho pensado que, mesmo que a Igreja local assuma para si a responsabilidade da formação teológica dos pastores (e ela deve decididamente fazê-lo), ainda assim ela será sábia se, necessitando, buscar recursos fora. Tenho crido, sim, em iniciativas de formação teológica fora do contexto da Igreja local, tanto mais se tratar de áreas técnicas e especializadas. Alguém certa vez afirmou que "os seminários têm sido muletas para a Igreja local". Admito que a propriedade desta declaração está sujeita à análise. Porém, um sinal de que igrejas têm declinado do seu lugar, é que hoje alguns seminários estão se vendo no dever de transmitir aos educandos questões muito básicas, em disciplinas tais como: "Adoração e Culto", "Culto Familiar", "Vida Devocional", "Método Básico de Estudo Bíblico", etc. Tenho me perguntado se este não é o tipo de coisa elementar que deveríamos aprender em "casa", isto é, na igreja. Eu deveria esperar que a escola ensine minhas filhas a amarrar o cadarço de seus tênis?
Finalizo recomendando a leitura do Capítulo 9, sobre a educação puritana, do livro Santos no Mundo, por Leland Ryken, publicado pela Editora Fiel.
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02 Fevereiro 2006
Idéias têm conseqüências; R. C. Sproul, o valor à filosofia, e os iniciantes nessa disciplina
Tão logo comecei a me interessar pela História da Filosofia, adquiri a volumosa obra de Padovani & Castagnola (Melhoramentos, 1ª edição, 1954), e também os calhamaços de Bertrand Russell e Will Durant. Porém, minha decepcionante experiência inicial me faz questionar se volumes daquele tipo seriam os ideais para iniciantes. Se você, tal como eu, não tiver sido favorecido com uma inteligência prodigiosa - ou mesmo mediana :) - e nem com um gênio exemplarmente disciplinado e perseverante, provavelmente experimentará a aspiração por alguma coisa mais simples e breve em sua introdução a esse terreno.Superadas algumas barreiras para o estudante secundarista do ensino público brasileiro, mais tarde, no tempo da Universidade, percebi ainda mais intensamente os desafios para o cristão neste campo concomitante da história e da filosofia. Senti o valor e a necessidade de uma clara e sólida fundamentação cristã nessas duas áreas, a fim de que o aluno não se veja perdido ou vitimado em meio ao intenso tiroteio nesses saloons freqüentados por todo tipo de personagens, que vão desde sóbrios cavalheiros aos mais consumados “jogadores” amorais.
Antes, ainda no tempo do Seminário, tive contato com as publicações de Edições Vida Nova nesse campo, tais como Filosofia e Fé Cristã (Brown) e Introdução à Filosofia (Geisler & Feinberg). Estas obras me foram muito úteis, assim como os volumes de Dr. Francis August Schaeffer (1912-1984), A Morte da Razão (ABU/Fiel, 1974) e O Deus que Intervém (ABU/Refúgio, 1981). Mas sempre senti falta de alguma coisa mais propedêutica, que servisse de auxílio aos jovens e “leigos” que estejam adentrando a esse vasto e complexo terreno, tal como me encontrei em minhas frustrantes incursões no auge da adolescência. Ainda assim, não devo responsabilizar nada nem ninguém, além de mim mesmo, pelo limitado conhecimento que adquiri nessa área.
Nos últimos anos, umas poucas editoras evangélicas brasileiras têm lançado algumas obras atualizadas, que podem favorecer o aprimoramento do estudante cristão mais aplicado. Ano passado adquiri o pequeno livro de R. C. Sproul, Filosofia para Iniciantes (Vida Nova, 2002). Ao lê-lo, percebi que este livro teria me ajudado muito lá naquele início. Quero, portanto, recomendá-lo de bom grado aos que desejam iniciar seus estudos nessa área. Como era de se esperar em uma obra com esta brevidade, há algumas sensíveis lacunas, mas, em meu entendimento, o livro satisfaz naquilo a que se propõe.
O Pr. Donald Price prefacia esta edição brasileira. Escreve ele:
Muitas vezes somos tentados a fazer pouco caso da filosofia, pois prestamos pouca atenção à origem das idéias que, com grande freqüência, constituem conceitos que norteiam nossa vida. Na realidade, tendemos a pensar que todo mundo pensa da mesma forma que nós. Por isso, podemos imaginar que a filosofia seja uma disciplina de estudo muito abstrata, sem aplicação prática. Portanto, concluímos, quem se interessa por filosofia deve ser uma pessoa aérea, sem muito vínculo com a realidade.
(...) Será que literalmente todo mundo pensa da mesma forma que nós? Absolutamente, não.
Será que o estudo da filosofia é totalmente inconseqüente, sem aplicação prática? Absolutamente, não.
Então, onde estão as raízes do pensamento e da cultura ocidentais? Enfim, por que pensamos da forma que pensamos?
Na introdução a este livro, “Por que estudar filosofia?”, escrita em janeiro de 2000, Sproul nos relembra que idéias têm conseqüências (aliás, o título original do livro é The Consequences of Ideas). Algo simples, básico e aparentemente óbvio, mas que nem sempre nos encontramos devidamente avisados para as suas implicações. Sproul narra um pouco de sua ilustrativa experiência, que passo a citar com os devidos créditos ao editor:
Verão de 1959: foi meu segundo ano na faculdade e marcou o fim da "década dos dias felizes" (...) Minha maior preocupação era um emprego para as férias. Vários amigos, estudantes de engenharia, tinham encontrado trabalhos bem remunerados para o verão, que pagavam bem mais que o salário mínimo. Minhas perspectivas eram pessimistas: eu era estudante de filosofia. Nos jornais, não encontrei um único anúncio de emprego para filósofos. Minha única alternativa era um trabalho que não exigia qualificação e pagava salário mínimo. Assim, fiquei contente ao encontrar uma vaga no departamento de manutenção de um hospital.
Quando o zelador soube que eu era estudante de filosofia, entregou-me uma vassoura e disse: "Pegue. Você pode pensar o quanto quiser, apoiado no cabo dessa vassoura". Meus colegas de trabalho gostaram da sua ofensa. Entre outras responsabilidades, eu tinha de varrer a rua e o estacionamento em frente ao hospital.
Durante a minha primeira semana no emprego, consegui varrer toda a minha área. Meu território acabava onde o acesso ao hospital confrontava o alojamento das enfermeiras. Lá vi outro homem varrendo o estacionamento adjacente. Ele me acenou, nos apresentamos e trocamos gentilezas. Quando eu lhe disse que era estudante universitário, ele logo perguntou o que eu estudava. No momento em que ouviu "filosofia", seu rosto se iluminou e seus olhos brilharam: Despejou sobre mim uma bateria de perguntas sobre Descartes, Platão, Hegel, Kant, Kierkegaard e outros. Eu estava atônito diante do conhecimento daquele homem. Era evidente que ele conhecia filosofia muito mais do que eu.
Achei muito estranho que um homem cuja principal ocupação é varrer ruas pudesse ser tão versado no campo abstrato da filosofia. Toda aquela conversa me pareceu estranha. Eu tinha de lhe perguntar como sabia tanto sobre filosofia. Sua história era de fazer chorar.
Meu novo amigo era da Alemanha. Obtivera o grau de doutorado em filosofia e havia sido professor de filosofia em Berlim. Quando Adolf Hitler chegou ao poder, os nazistas não se contentaram em encontrar uma "solução definitiva" para judeus e ciganos. Eles também tentaram eliminar intelectuais cujas idéias não combinassem com os "valores" do Terceiro Reich. Meu amigo perdeu seu cargo. Quando arriscou falar contra os nazistas, sua esposa e seus filhos foram presos e executados. Ele escapou da Alemanha apenas com a filha mais nova.
Perguntei-lhe por que não estava mais lecionando, e ele disse que o ensino da filosofia destruíra a vida dos seus entes queridos e arruinara a dele. Com lágrimas nos olhos, disse que agora vivia apenas para a sua filha.
Quando ouvi a história desse homem, eu tinha vinte anos de idade. Para mim, a Segunda Guerra Mundial era uma lembrança muito vaga. Para quem tem vinte, catorze anos parecem uma eternidade. Mas para o meu amigo alemão, que já passara dos cinqüenta, os anos da guerra pareciam ter sido ontem. Suas lembranças do passado eram tudo menos vagas.
Meus pensamentos se detiveram em mais uma coisa naquela manhã, que é a razão por que estou contando essa história aqui. Eu estava empunhando uma vassoura porque vivia em uma cultura que dá pouco valor à filosofia e tem pouca estima por quem gosta dela. Meu amigo, todavia, estava com uma vassoura nas mãos porque vinha de uma cultura que dava grande valor à filosofia. Sua família fora destruída porque Hitler sabia que idéias são perigosas. Hitler temia tanto as conseqüências das idéias do meu amigo que fez tudo o que podia para eliminá-lo - juntamente com suas idéias.
(...) A filosofia nos obriga a pensar em termos de fundamentos. Com fundamentos quero dizer os primeiros princípios ou verdades básicas. A maioria das idéias que moldam nossa vida é aceita (pelo menos no começo) sem muita crítica. Não criamos um mundo ou ambiente do zero e depois vivemos nele. Entramos num mundo e numa cultura que já existem e aprendemos a interagir com eles.
(...) nós entramos no jogo muito depois que ele foi criado. As regras foram estabelecidas, e os limites, colocados. Ficamos admirados ao ver Descartes demorar tanto e pensar tão profundamente para concluir que ele existe. Achamos isso engraçado e pensamos que é uma perda de tempo provar algo que todos sabemos ser verdade – que existimos. Ou ficamos admirados ao ver Kant passar a sua vida analisando como sabemos tudo o que sabemos, se, do nosso ponto de vista, simplesmente sabemos.
Será que sabemos? Pensadores como Descartes e Kant não estavam simplesmente contemplando o próprio umbigo. O pensamento fundamental desnuda todas as nossas pressuposições, para podermos descobrir quais são falsas e até letais. O pensamento fundamental está interessado na diferença entre verdade e falsidade porque se importa com o bem e o mal. A antiga máxima ainda vale: "Vida não avaliada não vale a pena ser vivida". Para qualquer pensador sério, especialmente para o que diz ser cristão, uma vida não avaliada não é uma opção válida.
Se meu pensamento não tem valor no mercado ou não é bem recebido no tribunal da opinião pública, sempre posso voltar a varrer estacionamentos. O que não posso é não pensar. Não pensar é impensável.
(SPROUL, R. C. Filosofia para Iniciantes. Trad. Hans Udo Fuchs. São Paulo: Edições Vida Nova, 2002, pp. 9-13)
Para uma leitura mais ampla, recomendo a consulta ao livro Filosofia e Cosmovisão Cristã, pela mesma Editora.
