Caminhos Misteriosos da Providência de Deus
O salmista disse que os juízos de Deus são “como abismo profundo” (Sl 36.6). E visto que
os juízos de Deus são tão cheios de mistério, e por ser tão difícil para a mente finita penetrá-los, corremos o perigo de diminuir-lhe a sabedoria e até mesmo de duvidar da inteligência que os executa. O fato é que, quando consideramos a operação da providência de Deus, nós nos defrontamos com mistério. É por isso que a grande obra de John Flavel (c. 1628-1691) sobre o assunto, publicada em 1677, é intitulada O Mistério da Providência [1]. E ele escreve: “o povo de Deus não pode compreender tudo que lhe acontece no caminho para o céu... Quando chegarmos ao céu, veremos não apenas que é um lindo lugar, mas também veremos a beleza do caminho pelo qual viemos”.Mistério não significa ausência de desígnio. Mistério não significa falta de inteligência. Significa que o desígnio é profundo, insondável, oculto. Muito embora não possamos vê-lo, o plano, o propósito, e a inteligência estão presentes. Pode ser inteligência que transcende nosso poder de descobrir e discernir, mas ela está ali. Mistério não significa que o motivo está ausente. Quer dizer apenas que ele é mais vasto, ilimitado e significativo (...) Esse é o motivo de o mistério ser tão fascinante. É porque existe um plano inteligente e um plano abrangente que contém muitas facetas, muitos fios. Ele é tão profundo, tão bem elaborado, que no momento não podemos imaginar nenhum desígnio, nenhum propósito compreensível. Sabemos que há por trás de tudo alguma coisa em andamento que mais tarde se tornará clara.[2]
J. I. Packer assevera que o plano de Deus “não pode ser impedido pelo pecado humano, porque o pecado do homem está incluído no plano e o desafio à vontade de Deus revelada é usado por Deus no cumprir-se da Sua vontade através dos acontecimentos”. Os irmãos de José, por exemplo, venderam-no para o Egito. “Vós na verdade intentastes o mal contra mim”, disse José posteriormente, “porém Deus o tornou em bem... para conservar em vida a um grande povo” (Gn 50.20). “...assim, não fostes vós que me enviastes para cá e sim Deus” (Gn 45.8). A própria cruz de Cristo é a suprema ilustração deste princípio: “Este, sendo entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus”, disse Pedro no seu sermão no dia de Pentecoste, “vós o matastes, crucificando-o por mãos de injustos” (At 2.23). Fica evidente, assim, que a iniqüidade do homem não impede o plano de Deus para a redenção do Seu povo. Pelo contrário, mediante a sabedoria do Onipotente, ela é tornada em serva desse plano. Exatamente como Deus usa os atos pecaminosos dos homens sem participar do seu pecado, é um mistério para nós. Contudo, se “a soberania de Deus significa que Ele faz o que quer fazer, quando Ele o quer fazer, e sem ter que dar explicação da razão pela qual o faz”[3], como poderia ser diferente?
No último mês de fevereiro, nossa igreja promoveu um retiro por ocasião do carnaval. O nosso assunto foi “A Providência de Deus na vida de José
”. Recomendei a todos que lessem o livro de David Kingdon, cujo título é Caminhos Misteriosos, recentemente lançado pela Editora PES. [4] Recomendo a todos que leiam este pequeno livro. É de uma leitura fácil, bastante devocional, e adapta-se a ministrações em grupos de estudos, classes de EBD, etc. Numa série de exposições em Gênesis, utilizei um domingo para uma pregação introdutória antes do retiro, ministrei sete estudos durante o retiro, e agora estou concluindo com algumas pregações na igreja.Kingdon enfatiza que ao usar os atos pecaminosos dos homens e das mulheres, de maneira nenhuma Deus compromete a Sua santidade – continua sendo santo como sempre foi e sempre será. Igualmente, quando Ele inclui os atos maus em Seus propósitos, Ele é sempre soberano. Como Agostinho escreveu: “Portanto, nada acontece a não ser que o Onipotente queira que aconteça. Ou Ele permite que aconteça, ou Ele próprio o faz acontecer”. A observação de Calvino é muito pertinente: “Mas Deus age maravilhosamente mediante Seus meios (isto é, mediante as ações de homens maus), a fim de que, da impureza deles, ele manifeste a Sua justiça perfeita”.[5]
A nossa responsabilidade como cristãos é manter nossos olhos postos em nosso dever – no que Deus requer de nós. E assim, devemos concluir que, embora Deus se agrade em dirigir inclusive os pecados para o bem (Rm 8.28), a nossa preocupação deve ser com o nosso dever para com Deus, e não com o resultado da ação providencial. Os maravilhosos caminhos de Deus na providência nunca visam dar-nos licença para pecar, nem propiciar-nos uma escusa para tanto. Podemos maravilhar-nos ante os caminhos de Deus, porém nunca jamais devemos usá-los como uma retirada do reconhecimento da nossa responsabilidade pessoal diante dEle. Um exemplo disto pode ser visto no filho de Davi e de Bate-Seba, Salomão, que se tornou notório por sua sabedoria, e integra a genealogia de Jesus Cristo. Todavia o fruto da sua união de maneira nenhuma escusa o pecado de Davi (Sl 51.2,3). Jamais devemos admitir a idéia de que o bom resultado de uma cadeia de eventos pode servir de desculpa para o pecado humano. Portanto, é pura e simples iniqüidade da nossa parte tentarmos livrar-nos da culpa apontando para um bom resultado. Assim como Davi, devemos recusar justificar-nos, mas, devemos, sim, confessar com tristeza, do fundo do coração: “Contra ti, contra ti somente pequei, e fiz o que a teus olhos parece mal, para que sejas justificado quando falares, e puro quando julgares” (Sl 51.4). José confortou os seus irmãos, não escusando o pecado deles, porém mostrando a eles que a pecaminosidade humana não pode derrotar o propósito da graça de Deus (Gn 45.5,7; comparar com Gn 15.13).
A vontade de Deus é sempre santa, sábia e boa. É santa, porque, embora use atos de malfeitores, nunca se compromete com o pecado. É sábia, mesmo quando não a entendemos. É boa, mesmo quando não podemos ver que possível bem poderá provir dos nossos infortúnios e adversidades particulares. Naturalmente podem surgir indagações e até objeções na mente de muitas pessoas, mesmo de alguns crentes. Entretanto, cabe lembrar que há mistério ligado às operações da providência de Deus. Há, contudo, algumas pessoas que não se dispõem a viver com o mistério. Tais pessoas não querem admitir que há limites para a razão, limites além dos quais não é possível ir. Quanto ao crente, ao se deparar com o mistério da providência de Deus, a abordagem correta é dar-se conta de que Deus é Deus. Ele Se encontra tão acima de nós que muito do que Ele faz está oculto para nós. “Nuvens de obscuridade estão ao redor dele” (Sl 97.2) – tal é o caráter absconso de Deus. Mas, como na seqüência diz os versículo supracitado, “justiça e juízo são a base do seu trono”. O mistério não esconde a retidão e a justiça. “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (1Jo 1.5).
______________
[1] Flavel, John. Divine Conduct, or, The Mystery of Providence. 1678. Reimpressão em Londres: Banner of Truth, 1963, 224 pp. Leia uma versão simplificada deste clássico, preparada por Hervey Mockford, Se Deus Quiser, São Paulo: Publicações Evangélicas Selecionadas, 1987, 57 pp.
[2] Billheimer, Paul E. O Mistério da Providência de Deus. Miami: 1988, pp. 20-21. Observe que mesmo Billheimer, que assumiu algumas posições controversas, sustenta uma posição mais bíblica neste aspecto do caráter abscôndito da providência do que modernos autores "heteroteístas".
[3] Ellsworth. “Pastoral Benefits of the sovereignty of God”. In: The Founders Journal, Número 51, Inverno 2003, p.13.
[4] Kingdon, David. Caminhos Misteriosos; A providência de Deus na vida de José. São Paulo: Publicação Evangélicas Selecionadas, 2005, 107 pp.
[5] Calvino, João. Gênesis; A Geneva Series Commentary. Vol. II. Londres: Banner of Truth, 2000, p. 378.
Blog Ex Corde. © 2006, de Gilson Santos

0 Comentários:
Postar um comentário
<< Home