Ex Corde

Blog de Gilson Santos

Voltar ao Índice Geral do Blog Ex Corde

08 Fevereiro 2006

O “amor platônico” de ontem, o “amor virtual” de hoje, e a sexualidade cristã

2 Comentários:

Anônimo escreveu...

À proporção que lia esta sua mensagem, tinha a impressão de que você também idealizava o conceito de amor platônico, e mesmo que endossava o atual paradigma de sexualidade. Contudo, o final deixa bem claro que você procurava oferecer uma idéia isenta do que são estes dois conceitos. Gostei muito disto. Sua mensagem mostra que este tipo de influência platônica pode estar dentro de nossas Igrejas, e eu penso que ela está. No Brasil, a obra de colonização católica, e também a obra missionária evangélica, nos transmitiram uma idéia bastante platônica do corpo e da sexualidade. Gostei de ler algo assim, independente, e escrito por uma visão mais conservadora.

Mas o ponto que mais gostei realmente foi a forma honesta e isenta como você apresentou os conceitos com os quais divergiu depois. Estou no ministério pastoral e na docência por mais de três décadas, e tenho sentido que um dos grandes problemas que enfrentamos é a forma como apresentamos as visões das quais divergimos. Penso que devemos muito disso ao “fundamentalismo” norte-americano (uso com cuidado esse título, pois li também a sua última mensagem sobre o assunto). Tem sido raro ler uma visão imparcial e suficientemente honesta neste campo da apologética. A forma como se aborda a visão contrária costuma ser tão simplista e maniqueísta, que é capaz de transformar “moinhos de vento” em guerreiros inimigos. Há muita distorção, vaidade e unilateralidade nesse campo.

Tenho lido muito do que tem sido publicado no Brasil pelas organizações “reformadas”. E tenho sido convencido de que herdei uma visão distorcida do calvinismo e das doutrinas da graça. A denominação na qual sou pastor tem grandes preconceitos e ignorância quanto a isto. Eu também tive muitas resistências no início, mas estou deixando de lado minha teimosia e repensando isto. Mesmo assim eu preciso ser honesto para dizer que me sinto um pouco fora dágua no meio de vocês “reformados”. O motivo é que as vezes me parece que vocês têm um foco meio restrito para a multiforme ação de Deus. Os "reformados" as vezes me parecem como uma militância de frente única. Além disto, a influência muito grande de organizações e missionários estrangeiros em seu meio me faz ficar um pouco desconfortável. Não discuto a piedade e a sinceridade destes irmãos, mas a minha experiência com alguns deles não foi sempre positiva. Isto ficou ainda mais claro durante os quatro anos que estudei fora do país. Eu creio que precisamos experimentar no Brasil uma realidade em que estes irmãos venham lidar com mais sensibilidade, discrição e com uma melhor abordagem com nossos sentimentos e cultura. Se estes irmãos querem nos ajudar, nos ajudem a caminhar sobre os nossos próprios pés, e nos privem de sua ação paternalista. Devemos continuar abertos para os bons missionários, mas precisamos experimentar no Brasil um momento mais “nosso”.

Lendo um texto como este seu, e também o que li antes sobre a valorização da filosofia, me deixa um pouco mais aliviado, pois vejo que há espaço entre vocês para uma abordagem mais multiforme e ampla. Gostaria de saber que isto não é algo somente com você. Você não se limitou aqueles temas prediletos que tenho lido repetidamente nas publicações reformadas.

Me perdoe se estou utilizando o recurso do anonimato, mas assim posso ficar mais à vontade. Foi você quem deixou aberta esta porta! Se entender que não deve publicar este comentário, que mais parece um desabafo cansativo, não me sentirei ofendido. Espero um dia ter o prazer de conhecê-lo pessoalmente. Tenho muito o que aprender, e seria bom orarmos juntos e termos um bate-papo sobre a Bíblia. Enquanto isto, pretendo voltar ao seu blog, e ler seus novos posts.

Domingo, 12 Fevereiro, 2006  
Alberto Costa escreveu...

Há dois comentários que eu gostaria de fazer a respeito do comentário de "Anônimo", mais propriamente a respeito do 3° parágrafo:

1) sim, os reformados, calvinistas, ou que nome se dêem (eu sou um reformado batista), devem estar muito atentos para com suas próprias atitudes, como o Solano Portela adverte em seu livreto "5 pecados que ameaçam os calvinistas". Corremos sérios riscos sempre, de assumirmos uma postura sectária, de fecharmos tanto o espectro de nossas definições que, ao fim, nem nós mesmos caibamos nelas. Não custa ficar alertas e é bem-vindo qualquer aviso a respeito, mesmo quando anônimo.

2) Fico em guarda, sempre que ouço alguém (ou a mim mesmo) fazer alusão a origens nacionais ou culturais como parte do debate de idéias - não por não reconhecer que todo sistema de idéias tem suas fôrmas definidas, também, pela experiência nacional-cultural de seus postulantes, mas porque o ato de presumir essas fôrmas estrangeiras (reclamando ou não delas) incorre o risco de condescendência para com as nossas próprias fôrmas. E minha pergunta é: do ponto de vista do Reino de Deus, porque uma teologia ou experiência eclesiástica brasileira refletiria melhor a verdade que uma norte-americana, européia ou africana? Eu fico tão desconfortável diante da influência norte-americana entre os batistas (por ex., toda aquela bobagem do Church Growth Movement, do Peter Wagner, representado entre nós pelas políticas da Junta de Evangelismo - João Falcão Sobrinho, pelo Projeto de Adensamento da Convenção Batista do Estado de SP - Salovi Bernardo, etc.), quanto pela influência do nacionalismo anti-imperialista "Brasil - Ame-o ou Deixe-o" e do Tropicalismo em nosso conceito de culto e louvor e música sacra. É tudo pensamento pecaminoso humano moldando o pensamento e a vida da igreja. Contra isso, Rm 12:1-2...

Faz parte de reconhecer-se peregrino neste mundo, opor ao Reino de Deus, a que pertencemos, todo o resto, ao invés de adotarmos uma política de tensão e preferência por essa ou aquela manifestação cultural do pecado. A Teologia da Prosperidade, a da Libertação, a do Processo, a Feminista, a Pietista, a Neo-ortodoxa, a Pós-modernista, etc., são manifestações não de culturas legítimas tentando corresponder à provocação do Reino, mas do pecado na mente humana tentando enquadrar o Reino de Iahweh e seu Ungido em nossas categorias humanas, para melhor controlá-lo. Por isso, pessoalmente, prefiro conversar sobre culturas diferentes só para perceber como o homem se manifesta, em múltiplas formas, em seu desejo de liberdade ("Rompamos seus grilhões... - Salmo 2), reconhecendo que dessas culturas não virá a verdade, só limitações a ela. E da prevenção em relação aos estrangeiros não resultará mais que condescendência a respeito de nossos próprios pecados e mentiras intelectuais, em sua roupagem simpática de "pensamento ou estilo brasileiro ou latino-americano", etc. Deve ser sempre a Bíblia contra o erro (qualquer erro, de qualquer cultura, em qualquer línguagem, principalmente o nosso). Nosso complexo de inferioridade, como cultura adolescente que somos, nos faz focar culturas mais antigas como modelos ou anti-modelos (Freud explica...). Mas não creio que deva ser assim.

Por isso, seja quem for o "Anônimo", foi bom ler seu comentário, ainda que para colocar-lhe restrições. Por outro lado, Gilson, ele tem razão ao valorizar sua exposição honesta da posição da qual, em seguida, você diverge com força. Esse tratamento não é comum nos debates, mas é extremamente valioso a qualquer debate.

Alberto

Domingo, 12 Fevereiro, 2006  

Postar um comentário

<< Home