As Igrejas e a Formação Teológica dos Futuros Ministros
O ambiente ideal para a formação do pastor é a Igreja. O modelo ideal para a formação do pastor é um outro pastor, numa atitude que espelhe o Senhor Jesus Cristo. A idéia cristã sobre o ministério tem uma fonte primária, a saber, a própria vida e missão de Jesus Cristo. Este é o cerne do padrão do Novo Testamento, e não há como fugir disso.Uma grande discussão em andamento diz respeito ao lugar, valor e modelo de toda e qualquer educação teológica formal fora do contexto da Igreja local. Há uma geração de mestres cristãos conservadores que está cansada e desencantada com o atual modelo de seminários. Especialmente aqueles que lecionam em escolas onde, a cada ano, os professores liberais vão se tornando mais claros em suas afirmações, e continuam angariando discípulos. Se tais escolas são mantidas por denominações evangélicas confessionais, pode ser realmente desalentador o fato de que nenhuma reação é esboçada diante da secularização do ensino, ou quando se percebe que a denominação já não mais consegue articular uma teologia bíblica conservadora.
Escritores reformados vêm colocando em questão o atual modelo de ensino teológico em seminários. Alguns têm sugerido investimentos no preparo de obreiros na Igreja local, a partir do presbitério, ou em academias baseadas na Igreja local. Nas últimas décadas, algumas igrejas batistas de persuasão reformada assumiram com radicalidade o bom princípio de que é a Igreja local a responsável pela formação de seus futuros líderes. Isto não significa que tais igrejas não buscam a cooperação suplementar de outras igrejas. Elas o fazem.
Um colega recentemente opinou: “Creio que vale muito mais investir pesado no futuro obreiro, discipulando-o, e estimulando-o a fazer, com o apoio da igreja, um bom curso na área de Humanas - como letras (grego ou hebraico) ou história. E que no transcorrer deste processo, o aluno já desempenhe tarefas na Igreja local, tendo o pastor como tutor. Depois a igreja poderia encorajá-lo para um curso de mestrado (...) Este era o padrão de formação dos pastores na antiga tradição reformada, em Harvard e Yale: primeiro a formação em Humanas, depois o mestrado e doutorado em uma área específica, como, neste caso, a Teologia.”
Alguns, alternativamente, vêm sugerindo programas discipulares com mestres experimentados e reconhecidos. Vincent Cheung, um discípulo de Gordon Clark, é um deles - embora Cheung tenha escrito algumas coisas de valor duvidoso, há interessantes reflexões dele publicadas no Portal Monergismo. Os proponentes destes novos modelos estão convencidos de que haverá lacunas. Mas eles também têm sérias dúvidas se tais lacunas são convenientemente preenchidas pelos atuais seminários.
Crescem também os projetos de “educação teológica à distância”, com a associação de novos métodos que estão incidindo sobre a educação. Alguns mestres estão sugerindo que o novo cenário possibilita a experimentação e adequação de novas estratégias em educação teológica. Nestes incipientes modelos, eles buscam integrar os novos recursos da tecnologia, tais como tele-conferência, internet, telefonia celular, transmissão via satélite, etc. Vêem eles o benefício da otimização de especialistas residentes nos mais diferentes lugares, como professores à distância, aliada a um programa de tutores e monitoramento, com algum tipo de responsabilidade da Igreja local, particularmente do pastor ou presbitério local. Não obstante, requerem também as aulas presenciais, ministradas em módulos planejados para determinados períodos do ano.
Esta é uma discussão aberta, e que consideramos muito bem-vinda, devido o seu grande e oportuno valor. Aguardamos boas reflexões contemporâneas, que lancem melhor luz sobre estes aspectos.
É preciso salientar que o ponto aqui em questão diz respeito à preparação teológica dos futuros obreiros, tais como pastores, missionários, etc. Não cabe, no escopo desta postagem, considerar o lugar de cursos teológicos com outras pretensões ou propósitos. A pergunta que se enseja é a seguinte: Como a Igreja de governo congregacional pode propiciar um preparo teológico para os manifestos vocacionados dentre sua membresia? Aqui está uma área sensível. E, uma vez estabelecida a necessidade de uma suplementação teológica, recorrendo-se a um Seminário, como pensar esta relação Igreja-Seminário? Talvez possamos, aqui neste ponto, recorrer a uma comparação, utilizando-nos da relação Pais-Escola, salvaguardando-se todas as distâncias e diferenças entre as duas situações.
O princípio vital para que a criação de filhos se realize biblicamente é que a desafiadora e importante tarefa de criar filhos é responsabilidade exclusiva dos pais. A ninguém será pedido contas a respeito da criação de filhos exceto aos pais, a quem Deus explicitamente ordenou que criassem e se responsabilizassem pelo desenvolvimento de seus filhos. Embora outros venham a influenciar o seu desenvolvimento, cabe aos pais filtrar esse fluxo de influências, pois o processo de criação como um todo é responsabilidade exclusiva deles. Assim, os pais não podem abdicar desta responsabilidade, transferindo-a à Escola, ou ao Estado, ou à Igreja - o que, infelizmente, tem acontecido. Toda a contribuição que a Escola, a Igreja, e o Estado têm a dar à Família neste particular é, certamente, suplementar. E é desta maneira que os pais devem diligentemente recorrer à Escola: na suplementação da formação de seus filhos, quando, como pais, se vêem limitados em ferramentas para oferecer-lhes, por si sós, a educação formal.
Penso que, no que diz respeito à formação dos futuros ministros, uma similar relação se estabelece entre as igrejas e os seminários (ou qualquer outro tipo de educação teológica formal fora do âmbito da Igreja local). A Igreja não pode abdicar do dever de formar teologicamente seus "filhos". Este dever é fundamentalmente dela, inclusive por preceito bíblico.
No Brasil, entretanto, somos herdeiros de uma realidade, cada vez mais constrangedora, em que a Igreja abdica desse compromisso. Ela transfere para o Seminário aquela responsabilidade, e descansa neste fato. A Igreja deixa de exercer o seu papel básico, evadindo-se da responsabilidade primeira do cuidado e da supervisão. O que temos assistido é uma capitulação deste modelo, não muito diferente daquela que temos presenciado nas escolas de educação em geral. Os Seminários não devem – e nem podem – substituir a Igreja. A lógica mais natural, nesta relação, seria o Seminário refletir a Igreja, para o bem ou para o mal. Entretanto, acontece por vezes de o Seminário superar a Igreja, reparando algumas de suas distorções, o que se revela um fato bastante auspicioso, conquanto não ideal sob certas circunstâncias. Porém, o mais lamentável, e não raro, é quando há completo disparate entre a Igreja e o Seminário. Tem se tornado freqüente ouvir que o jovem saiu da Igreja um crente professo e biblicista, e saiu do Seminário um teólogo liberal ou um agnóstico. O Seminário prestou um grande desserviço à Igreja. Em muitos casos, esta realidade ocorre com seminários oficialmente confessionais, e sustentados justamente pelas igrejas.
O fato bastante evidente é que a Igreja local pode ter limites. A realidade das igrejas varia, inclusive em número de membros, capacidade de liderança, situação cultural e geográfica, e recursos financeiros. Daí podermos compreender que ela peça ajuda a outras igrejas, presbíteros ou docentes. Neste contexto, seminários (ou instituições similares) surgem desta necessidade de cooperação entre igrejas. Então, tenho pensado que, mesmo que a Igreja local assuma para si a responsabilidade da formação teológica dos pastores (e ela deve decididamente fazê-lo), ainda assim ela será sábia se, necessitando, buscar recursos fora. Tenho crido, sim, em iniciativas de formação teológica fora do contexto da Igreja local, tanto mais se tratar de áreas técnicas e especializadas. Alguém certa vez afirmou que "os seminários têm sido muletas para a Igreja local". Admito que a propriedade desta declaração está sujeita à análise. Porém, um sinal de que igrejas têm declinado do seu lugar, é que hoje alguns seminários estão se vendo no dever de transmitir aos educandos questões muito básicas, em disciplinas tais como: "Adoração e Culto", "Culto Familiar", "Vida Devocional", "Método Básico de Estudo Bíblico", etc. Tenho me perguntado se este não é o tipo de coisa elementar que deveríamos aprender em "casa", isto é, na igreja. Eu deveria esperar que a escola ensine minhas filhas a amarrar o cadarço de seus tênis?
Finalizo recomendando a leitura do Capítulo 9, sobre a educação puritana, do livro Santos no Mundo, por Leland Ryken, publicado pela Editora Fiel.
Blog Ex Corde. © 2006, de Gilson Santos

4 Comentários:
Olá, Gilson
parabéns pelo texto; essa é uma reflexão bastante abrangente sobre a questão da formação dos ministros, e sem dúvida o papel da igreja é fundamental aí, como você aponta. Agora, eu fiquei curioso por saber que coisas de valor duvidoso Vincent Cheung tem escrito. Não leve minha pergunta à mal, mas é que tenho lido muito do que dele é postado em monergismo, e inclusive, aqui e acolá, tenho me aventurado até a traduzir uma ou outra página do que ele escreveu, e confesso que tenho me enriquecido sobremaneira com seus materiais...
Saudações em Cristo,
Márcio S.
Mestre Gilson,
sempre nos edificando com suas sábias reflexões e ponderações. Deus abençoe nossas igrejas, seminários e os obreiros frutos desta relação.
Embora tenha sido tocado bem de leve, obviamente não sendo o ponto em evidência no texto, o tema da obra de Vincent Cheung foi abordado. Você poderia indicar o que é duvidoso em seu material?
obrigado
Deus abnçoe
:) SDG
Olá irmão Gilson! Eu estava pesquisando sobre o curriculum de Cheung quando me deparei com esse excelente artigo.Contudo, assim como os outros, fiquei curioso com o que irmão chama de "coisas de valor duvidoso". tenho utilizado muita coisa do Cheung para embasar minha pesquisa acadêmica e fiquei perplexo com o meu "descuido" na análise crítica de seu material.Peço encarecidamente que o irmão nos esclareça sobre esse ponto. EM Cristo, Esli Pompeu - Fortaleza
Here are some articles on Vincent Cheung which you may find helpful.
http://www.reformed.plus.com/aquascum/
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