Lei e Evangelho (I)
Na obra O Peregrino, de John Bunyan, Cristão chega à casa de Intérprete, o qual lhe transmite preciosos ensinamentos. Intérprete...
No último século, ganhou prestígio no meio evangélico um sistema de interpretação das Escrituras Sagradas cuja chave hermenêutica se manifesta, entre outra áreas, na forma de articulação entre a Lei e Evangelho. E a tendência neste sistema não é apenas distinguir, mas contrapor essas realidades em lados acentuadamente opostos.tomou-o pela mão e o conduziu a uma sala muito grande que estava cheia de poeira, porque nunca erra varrida; e, depois de ser vista por um pouco, Intérprete chamou um homem para varrê-la. Ora, quando ele começou a varrer, o pó voava tão espesso em derredor, que Cristão quase ficou sufocado. Então, disse Intérprete a uma moça que estava de prontidão: Traga água e borrife a sala. Havendo ela feito isto, a sala foi varrida e limpa prazerosamente.
Cristão perguntou: O que significa isto?
Intérprete respondeu: Esta sala é o coração de um homem que nunca foi santificado pela doce graça do Evangelho. O pó é seu pecado original e as corrupções interiores que contaminaram todo o homem. Aquele que começou a varrer é a Lei; mas aquela que trouxe água e a espargiu é o Evangelho. Ora, logo que o primeiro começou a varrer, a poeira se levantou em redor; a sala não pôde ser limpada por ele, e você ficou quase sufocado. Isso lhe mostra que a Lei, em vez de limpar do coração o pecado (pela maneira com ela age), revive-o, fortalece-o e aumenta-o na alma, ao mesmo tempo que o revela e proíbe, porque não concede o poder de reprimi-lo.
Pó outro lado, assim como você viu a moça borrifar a sala com água, e, deste modo, a limpeza foi realizada com prazer, isso lhe mostra que o Evangelho, ao entrar no coração, exerce suas doces e preciosas influências. Então, digo-lhe que, assim como você viu a moça fazer o pó assentar-se, borrifando o chão com água, assim também o pecado é vencido e subjugado, e a alma torna-se limpa, pela fé descrita no Evangelho; conseqüentemente, a sala fica em condições para o Rei da Glória habitar.
O Intérprete nos ensina que é realmente necessário estabelecer a distinção entre Lei e Evangelho. E esta distinção precisa ser mantida sob o risco de que se comprometa a ambos. A salvação não se encontra na Lei, mas no Evangelho. Lei e Evangelho cumprem papéis diferentes. Mas não são opostos! Não estão em contradição; os trabalhos que realizam manifestam coordenação. Conquanto cumpram finalidades diferentes, ambos vêm do mesmo Deus, e estão a serviço dEle. Convém-nos apresentar ambos a todos os homens. Eles não se contrapõem. E, nessa ordem colocada por Deus, anunciamos a Lei e, então, o Evangelho. Primeiro ferir; depois curar. Primeiro o vinagre; depois o azeite. Anunciamos o dever, e então a graça – aliás, é bom apressar-me e dizer que a própria Lei já se constitui numa expressão de graça. Primeiro anuncia-se ao homem a vontade moral de Deus. E, então, a Lei cumpre um de seus papéis mais importantes, conforme nos ensina Paulo aos Romanos e aos Gálatas: a boa Lei de Deus revela o nosso pecado, nossa insuficiência, nossa incapacidade, nossa natureza pecaminosa, nossa condenação, nossa maldição, nossa morte. E, ao fazer isto, ela deixa de ser boa? Posso culpar o espelho pelo que ele me revela? Como alguém sentir-se-á pecador se não houver o anúncio do padrão que Deus espera? O pecado pressupõe que exista uma Lei em vigor, porque onde não há Lei também não há transgressão (Rm 4.15).
"porquanto pelas obras da lei nenhum homem será justificado diante dele; pois o que vem pela lei é o pleno conhecimento do pecado" (Romanos 3.20).
"Porque a lei opera a ira; mas onde não há lei também não há transgressão" (Romanos 4.15).
"Porque antes da lei já estava o pecado no mundo, mas onde não há lei o pecado não é levado em conta" (Romanos 5.13).
"Que diremos pois? É a lei pecado? De modo nenhum. Contudo, eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse: Não cobiçarás" (Romanos 7.7).
"Pois todos quantos são das obras da lei estão debaixo da maldição; porque escrito está: Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas que estão escritas no livro da lei, para fazê-las" (Gálatas 3.10).
"De modo que a lei se tornou nosso aio, para nos conduzir a Cristo, a fim de que pela fé fôssemos justificados" (Gálatas 3.24).
A Lei serve ao Evangelho, embora seja distinta dele. A Lei, com o Evangelho, enaltece a graça! A Lei, porém, não salva; condena. A salvação encontra-se por meio do Evangelho.
"sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, mas sim, pela fé em Cristo Jesus, temos também crido em Cristo Jesus para sermos justificados pela fé em Cristo, e não por obras da lei; pois por obras da lei nenhuma carne será justificada" (Gálatas 2.16).
Talvez alguém diga que o padrão moral é Cristo. Há acerto nisto. Porém, qual foi o padrão de Cristo para satisfazer a justiça de Deus? Tentar reger-nos pela Lei, sem Cristo, é uma das expressões do "legalismo", ou outro nome que se prefira dar. O Senhor Jesus Cristo nos salvou da condenação da Lei; não nos salvou, entretanto, para uma não observância da Lei moral. Alguns estabelecem equivocadamente uma contraposição entre a Lei e a Palavra; Deus, porém, não a faz. Outros fazem uma distinção entre uma vida espiritual e a Lei. "Porque bem sabemos que a Lei é espiritual" (Romanos 7.14). A "Lei do Espírito" é a mesma "Lei do Senhor". E os que andam no Espírito, andam na Lei do Senhor. Os que são do Senhor, amam a sua Lei, e a têm inscrita no seu coração.
"Ora, este é o pacto que farei com a casa de Israel, depois daqueles dias, diz o Senhor; porei as minhas leis no seu entendimento, e em seu coração as escreverei; eu serei o seu Deus, e eles serão o meu povo" (Hebreus 8.10)
A posição que diz que o crente não tem qualquer compromisso com a Lei Moral de Deus chama-se antinomismo – palavra composta e de origem grega: anti (contra) + nomos (lei). Normalmente, é a posição apelidada popularmente de "graça barata", não tão rara no meio evangélico. Nos dias apostólicos, já recebiam severa condenação aqueles que convertiam em "libertinagem a graça de nosso Deus" (Judas 4).
No século XX, muita confusão estabeleceu-no no cenário evangélico com relação a este assunto. E o resultado para a evangelização e a Igreja tem sido muito nefasto, ao ponto de alguns colocarem que é possível ter a Cristo como Salvador sem tê-lo como Senhor. "Permaneceremos no pecado para que a graça abunde? De modo nenhum!" Fomos salvos para sermos zelosos de boas obras. Outros, assentaram uma doutrina, bastante popular no Brasil, em que a justificação e a santificação foram desconectadas. Colhemos hoje os frutos amargos dessa semeadura. O crente, porém, é encorajado pelas verdades e promessas do Evangelho; é estimulado pelas motivações do Evangelho e inclinado pelo Espírito Santo a desejar prosseguir na santificação.
Para uma leitura nesta área, recomendo, aos que puderem ler em inglês, o livro Law and the Gospel, de Ernest C. Reisinger, P & R Publishing, ISBN#: 0875523870.

1 Comentários:
Creio que esta é a 'chave hermenêutica' de toda a compreensão da Escritura. Não deixei de ler Reisinger antes de escrever Lei e Graça. E Brian Edwards me corrigiu quanto ao título do livro: Lei é Graça!
abs
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