Ex Corde

Blog de Gilson Santos

Voltar ao Índice Geral do Blog Ex Corde

01 Dezembro 2005

Três Raízes Históricas dos Batistas do Sul

Os primeiros batistas nos Estados Unidos da América surgiram na Nova Inglaterra e foram do tipo particular. Sob a liderança de Roger Williams (1603-1683), presumivelmente em março de 1639, com onze membros fundadores, foi organizada em Providence, Rhode Island, a primeira igreja batista em solo americano. Embora abandonando o puritanismo congregacional, Williams não abandonou o calvinismo em seu puritanismo separatista, e a igreja fundada sob a sua influência abraçou esta mesma teologia. Igualmente, John Clarke (1609-1676), tendo estabelecido a colônia de Newport, em Rhode Island, organizou ali uma igreja. Esta igreja por ele fundada exerceu grande influência naqueles primeiros tempos da colonização, e "manteve a doutrina da graça eficaz".[1] Tanto a Confissão de Fé de Clarke quanto a de Obadiah Holmes (1606-1682), seu sucessor no pastorado em Newport, demonstram o espírito penetrante do Calvinismo evangélico.[2]

No Sul dos Estados Unidos, o desenvolvimento e caráter do trabalho batista refletiu a organização e esforços das primeiras associações. As três primeiras associações na América foram também as três mais influentes em moldar a fé e prática das igrejas batistas no Sul.

FILADÉLFIA, PENSILVÂNIA

Em 1684, o britânico Thomas Dungan (1634-1687) chegou de Newport, Rhode Island, com outros que fixaram residência em Cold Spring, Bucks County, Pensilvânia, estabelecendo ali uma igreja batista. Esta foi a primeira igreja da denominação na Pensilvânia. E em 1688, uma outra igreja foi organizada na região de Filadélfia, que teve o ministério de Elias Keach (1667-1701), filho de Benjamin Keach (1640-1704), o renomado batista Particular de Londres. O trabalho se estendeu largamente em New Jersey e Pensilvânia. Verificada a distância entre as congregações, e a necessidade de reuniões periódicas e cooperação conjunta para tratar assuntos que surgiam de tempos a tempos, em 27 de julho de 1707 a reunião geral foi transformada numa Associação. Surgia a Associação Batista de Filadélfia, a primeira da América. A Confissão de Keach (que era a Confissão Batista de 1689 com a adição de dois artigos) começou a ser utilizada pelas igrejas nesta região para dar unidade doutrinária. A primeira referência a uma Confissão de Fé na Associação de Filadélfia deu-se, pelo que se sabe, em 1724, e uma adoção formal certamente se deu em 25 de setembro de 1742. Comparada à Confissão Londrina de 1689, a Confissão de Filadélfia teve os dois artigos adicionais, logo, um total de 34, indicação da influência da Confissão de Keach.

José dos Reis Pereira (1916-1991), historiador batista brasileiro, atesta o valor da Confissão de Filadélfia. Diz ele: "a primeira Associação Batista norte-americana em 1742 votou a adoção de uma Confissão de Fé, reprodução de uma outra votada pelos batistas ingleses em 1689, notável documento doutrinário.[3]

O historiador batista Robert G. Torbet (n. 1912), ao comentar sobre a adoção dessa Confissão pela Associação de Filadélfia, diz: "Foi, portanto, de teologia calvinista, a primeira organização de igrejas americanas". Segundo o mesmo historiador, a Associação "tornou-se fonte de conselho e deu unidade ao movimento batista em uma época crítica".[4] A Associação de Filadélfia enviou inúmeros missionários e plantadores de igrejas por toda a região Sul durante o século dezoito.

CHARLESTON, CAROLINA DO SUL

A primeira igreja batista em Boston, Massachussets, estabelecida por Thomas Gould (m. 1675) com a ajuda dos batistas particulares da Inglaterra, exerceu um papel importante no estabelecimento da obra batista no Sul. William Screven (1629-1713), um batista procedente da Inglaterra, e que subscreveu a Confissão de Fé de Somerset, foi consagrado pela igreja em 1682. Screven estabeleceu uma congregação em Kittery, Maine, que mais tarde foi organizada pela igreja em Boston. Como parte do exame dos irmãos de Kittery, requereu-se deles o reconhecimento da Confissão Batista de 1689 (Segunda Confissão de Fé Batista Londrina). Esta igreja, em 1696, transferiu-se para Charleston, na Carolina do Sul, tornando-se a primeira igreja batista no Sul. Quando Screven, já idoso, deixou o pastorado da igreja, ele advertiu a congregação que, o mais breve possível, obtivesse um pastor para conduzi-la, e que tivesse cuidado de que ele revelasse uma “fé ortodoxa, uma vida irrepreensível, e que tivesse como sua a confissão de fé que foi redigida em 1689 pelos irmãos em Londres”.[5] E o poder e a influência desta Confissão de Fé continuou por muitos anos, como se pode ver nas vidas e ministérios de Oliver Hart (1723-1795), Richard Furman (1755-1825) e Basil Manly (1798-1868), pastores daquela igreja.

Em 1751, sob a liderança de Oliver Hart e a influência da Associação de Filadélfia, a Associação de Charleston foi organizada. Dezesseis anos após, em 1767, a associação adotou a Confissão de Fé de 1689.

SANDY CREEK, CAROLINA DO NORTE

Em 1755, um grupo de congregacionalistas separatistas veio da Nova Inglaterra, sob a liderança de Shubal Stearns (1706-1771) e seu cunhado, Daniel Marshall (1706-1784), estabelecendo os Batistas em Sandy Creek, Carolina do Norte. Eles começaram com dezesseis pessoas e dentro de três anos tinham já três igrejas constituídas com uma membresia superior a 900 pessoas. Em apenas dezessete anos esta igreja deu origem a quarenta e duas igrejas e enviou 125 ministros. Em 1758 a Associação de Sandy Creek foi formada. De início, estes irmãos eram bastante relutantes em utilizar credos e confissões de fé, conquanto o primeiro pacto da igreja em Sandy Creek contivesse fortes afirmações da predestinação, chamada eficaz, e perseverança dos santos. Em 1816, contudo, esta Associação adotou a Confissão de Filadélfia como base para os seus Princípios de Fé, tendo sido Basil Manly o relator do comitê de redação. Estes princípios demonstram o compromisso da Associação com a soteriologia calvinista, e serviu de influência sobre uma multiplicidade de igrejas.

Estas três associações – Filadélfia, Charleston e Sandy Creek – foram largamente responsáveis pela irradiação do trabalho batista no Sul no século dezoito e dezenove. E é através delas que a Convenção Batista do Sul traça suas raízes. E sobre este histórico tripé se apoiou fortemente a obra missionária que deu início ao trabalho batista no Brasil.



[1] ARMITAGE, Thomas. A History of The Baptists. New York: Bryan, Taylor & CO., 1887, pp. 671-673.

[2] BACKUS, Isaac. A History of New England, With Particular Reference to The Denomination of Christians Called Baptists, 2 vols. apud NETTLES, Thomas J. By His Grace and For His Glory; a Historical, Theological, and Pratical Study of The Doctrines of Grace in Baptist Life. 2. ed. Grand Rapids: Baker Book House, 1990, pp. 40-41. Cf. ainda estudo sobre o Calvinismo nos dias primitivos dos Batistas na Nova Inglaterra em SELPH, Robert B. Os Batistas e a Doutrina da Eleição. l. ed. São Paulo: Editora Fiel, 1990, pp. 23-24.

[3] PEREIRA, J. Reis. Breve História dos Batistas. 3. ed. Rio de Janeiro: JUERP, 1987, p. 76, itálicos meus.

[4] TORBET, Robert G. A History of The Baptists. 3. ed. Filadélfia: Judson Press, 1973, pp. 213-214. Compare com FAIRCLOTH, Samuel D. Esboço da História dos Baptistas; Súmula do livro de Torbet. Leiria, Portugal: Edições Vida Nova, 1959, p. 109.

[5] Isaac Backus, A History of New England, second edition with notes, 2 vols. em 1. Newton, Massachussets: Backus Historical Society, 1871; edição reimpressa em 1969 por Arno Press, Inc.: Nova York, 1:205.

0 Comentários:

Postar um comentário

<< Home