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Blog de Gilson Santos

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15 Dezembro 2005

Peter Brown, Agostinho e um Reconhecimento

Falar de Agostinho é falar de complexidade. Agostinho é considerado “o último dos antigos e o primeiro dos modernos”. Ele teve uma peregrinação riquíssima em aprendizado, uma marcante trajetória e experiência de vida, realizou uma obra singular, e transmitiu um legado de escritos que poucas pessoas podem afirmar conhecer plenamente. Teve um papel ímpar na História da Igreja. Agostinho é daquele tipo de autor que muitos comentam, outros citam, mas poucos conhecem em profundidade. E quando digo poucos, posso afirmar que estou extremamente longe de me encontrar entre eles. Agostinho é um gigante. E ainda mais quando diante de uma geração nanica.

Peter Brown, por exemplo, tem escrito o importante livro Santo Agostinho: uma biografia. Esta é uma obra clássica, originalmente publicada em 1967. Nas últimas décadas é a narrativa-padrão sobre a vida e os ensinamentos de Agostinho. E mesmo este erudito respeitável publicou, em 2000, uma versão atualizada de sua obra, após a descoberta de cartas e sermões até então desconhecidos. Nesta atualização ele escreve um epílogo em que reconhece, entre outras coisas, que em sua primeira versão pintou a imagem de um Agostinho bem mais severo do que ele teria sido. “Eu não havia captado os tons mais em surdina que compunham o pano de fundo de seu dia-a-dia como bispo que ficou conhecido como o santo da inteligência”, escreveu Brown.

Um reconhecimento como esse deveria fazer calar toda a presunção. Fazendo um trocadilho, aproximemo-nos de Agostinho com um “santo” respeito. Se homens como Peter Brown, após um diligente e exaustivo trabalho de investigação histórica, pôde reconhecer aspectos distorcidos de sua própria visão do bispo de Hipona, então coloque “suas barbas de molho” diante de alguém que presume ter uma palavra final sobre Agostinho.

Ainda a este propósito: em minha última postagem, quando fiz referência às citações de Ricardo Gondim à pessoa e obra de Agostinho, o colega Pr. Franklin Ferreira, que nos últimos anos tem se debruçado sobre a obra agostiniana, escreveu-me alertando para o detalhe de que Gondim está citando o Brown de décadas atrás. O Brown de agora (2000) escreveu, entre outras coisas:

[Na doutrina da graça] Agostinho encontrou o “antídoto contra o elitismo cristão”. (...) Nenhum grupo deixava de ser tocado pela graça divina. Pois não havia esforço, por mais humilde que fosse, que não dependesse tão rigorosamente da dádiva da graça divina quanto a mais espetacular manifestação de “carisma” [como no martírio e no celibato]. Todos os fiéis eram iguais, pois todos eram igualmente “pobres”. Todos eram também iguais porque, para seu sustento, eram inteiramente dependentes do abundante banquete de Deus. (...) Agostinho pôs-se a trabalhar para eliminar a distância entre a vitória da graça divina nos mártires – cujo comportamento parecia inimitável e muito “extramundano” para a maioria dos seus ouvintes – e a operação menos dramática, porém igualmente decisiva, dessa mesma graça na média dos cristãos, quando eles enfrentavam a dor e a tentação em sua vida. (...) A graça divina seguiria o cristão em todas as idades, protegendo o fiel batizado até nos períodos mais vulneráveis de sua vida. (...) E, mais importante que tudo, Agostinho apreendeu com clareza, em sua doutrina da graça, as conseqüências do intenso sentimento da ação validada por uma inspiração sobrenatural, que perpassava toda a cultura religiosa de sua época. Ele domesticou essa idéia de ação ao colocar a glória da graça divina à disposição de todos. Num mundo em que ninguém podia gloriar-se em si mesmo, Agostinho deixou aberto o caminho para que todos, dentro da Igreja católica, se gloriassem na idéia da ação baseada em Deus, pois insistiu em que Deus era capaz de colocar um peso de glória (2Co 4.17) em cada coração.[i]



[i] Peter Brown, Santo Agostinho: uma biografia. Trad. Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 623-625, 627.

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