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Blog de Gilson Santos

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07 Dezembro 2005

Os Primeiros Batistas Gerais Ingleses praticaram o batismo por imersão?

Dias atrás um seminarista indagou-me porque eu tenho escrito que o batismo que John Smyth (c. 1565-1612) ministrou em 1609, a si mesmo e aos outros 40 do seu rebanho, foi por afusão. Tenho dito que o método de batismo foi a “afusão”. “Afundir” ou “efundir” consiste no derramamento de água sobre o batizando, que alguns, mais rigorosamente, preferem distinguir da “aspersão” (“borrifar”, “salpicar”), chamando atenção para a quantidade de água e para o método (Cf: http://www.crbb.org.br/gilson4.pdf).

Como é sabido, deste grupo, batizado na Holanda, Thomas Helwys, John Mürton e seus seguidores voltaram à Inglaterra em 1612 e organizaram, nos arredores de Londres, o que alguns consideram ser a primeira Igreja Batista em solo inglês. Este grupo praticava o batismo por afusão e sustentava as doutrinas arminianas, com as quais tinha se familiarizado em seu contato com os Menonitas e durante a controvérsia arminiana na Holanda, onde, aliás, o arminianismo ainda não havia sido formalmente considerado heresia. Por conta de sua teologia arminiana, esta igreja que se fixou em Spitalfield, ficou conhecida como dos "batistas gerais". Desta Igreja surgiram muitas outras. Apesar de suas afinidades religiosas com o anabatismo na Holanda, e das influências que dele recebeu, este grupo batista nutriu-se primordialmente na tradição separatista no terreno inglês.

A razão do seminarista indagar-me acerca disto deveu-se a uma leitura que fez no web-site da Convenção Batista Brasileira, que traz uma informação diferente. Visitei novamente o site da CBB, e pude confirmar que permanece ali a seguinte informação:

John Smyth batizou-se por imersão e em seguida batizou os demais fundadores da igreja, constituindo-se assim a primeira igreja organizada, tendo como espelho as doutrinas do Novo Testamento inclusive o batismo por imersão e mediante a profissão de fé em Jesus Cristo. (Cf. http://www.batistas.org.br/miolo.php?canal=10&sub=120&c=&d=1).

Entretanto, esta não foi a primeira vez que li esta menção no site da CBB. A primeira vez que li foi no início de 2001. Como o artigo ali publicado não remetia para as fontes, enviei e-mail indagando sobre a fundamentação histórica para a informação. Recebi uma amável resposta, subscrita em 08 de março de 2001 pelo Pr. Salovi Bernardo, à época Secretário Geral do Conselho de Planejamento e Coordenação da CBB. Em sua resposta, disse ele entre outras coisas:

Seu comentário foi submetido a análise de uma só pessoa a saber: Othon Ávila Amaral, pesquisador da história batista e membro do Conselho Assessor de O Jornal Batista, que fez o seguinte comentário: Não existem registros precisos de como foi esse batismo o que abre espaço a especulações diversas, particularmente eu entendo que John Smith se batizou, literalmente, e depois batizou os demais membros do grupo, por causa do valor dessa simbologia (imergir – morrer para o mundo x emergir – nascer para Deus).

O entendimento de Pr. Salovi Bernardo a este respeito não mudou, visto que num recente artigo intitulado “Os Começos; a expansão da obra batista no mundo”, publicado n’O Jornal Batista de 25 de setembro último, ele escreveu:

Em Amsterdã, o grupo de cerca de 40 pessoas, liderado por seu pastor, John Smyth, convencido de que uma igreja fiel ao Novo Testamento teria que ser constituída de pessoas batizadas e que o batismo bíblico era por imersão e após a profissão de fé em Jesus Cristo como salvador. O grupo resolveu dar o passo que muitos outros que já se haviam convencido de que o batismo era por imersão não deram.

Como não havia ninguém batizado por imersão, decidiu-se que o pr. Smyth se batizasse a si mesmo e depois batizaria os demais. O que de fato ocorreu.

Embora não tivesse o nome de batista, em 1609, na cidade de Amsterdã, foi organizada a primeira igreja com marcantes características batistas: batismo por imersão, após profissão de fé em Jesus Cristo como Salvador, como condição para a entrada na igreja e rejeição do batismo infantil ( Ano CV – 39, 25/9/05, p.2).

Em resposta a isto, o Pr. Zaqueu Moreira de Oliveira, em carta publicada em 27 de novembro em O Jornal Batista, fez o seguinte reparo:

O articulista afirma que John Smyth se convenceu de “que o batismo bíblico era por imersão”, afirmação esta repetida com outras palavras três vezes. Na realidade, as fontes primárias que existem sobre o assunto são claras de que o batismo ministrado foi por afusão (água derramada sobre a cabeça) e não imersão. A posição assumida era contra o batismo infantil e não sobre forma, sendo utilizada a prática comum aos Menonitas Waterlanders que havia em Amsterdã (OLIVEIRA, Zaqueu Moreira de. Liberdade e exclusivismo. Rio de Janeiro: Horizonal; Recife: STBNB Edições, 1997, p. 38). Robert G. Torbet, em seu livro clássico prefaciado pelo maior historiador da Igreja do século 20, Kenneth Scott Latourette, assim afirma: “Ele batizou a si mesmo por afusão, então a Helwys, e ao resto da congregação que assim desejou, um total de cerca de quarenta pessoas” (A History of the Baptists. Chicago; Los Angeles: The Judson Press, 1963, p. 35). A. C. Underwood, em A history of the English Baptists, considerado o melhor livro sobre os batistas na Inglaterra, diz que o “exame do Novo Testamento o convenceu de que batismo sob profissão de arrependimento perante Deus e fé em Cristo era o método do Novo Testamento para admitir alguém na comunhão da Igreja” (London: The Carey Kingsgate Press Limited, 1956, p. 37). Assim o batismo recebido nas igrejas da Inglaterra foi considerado sem valor, pelo que “Smyth batizou a si mesmo, então batizou a Helwys e aos outros” (Ibid.). E conclui Underwood que “eles não foram batizados por imersão, mas por afusão. A água usada estava em uma vasilha. O oficiante tomava uma mão cheia de água da vasilha e derramava sobre a cabeça da pessoa que estava sendo batizada” (Ibid., p. 38). Só em 1641 a forma de batismo foi questionada pelo outro grupo de batistas, conhecido como Batistas Particulares ou Calvinistas, havendo o registro do batismo por imersão em 1642, com Richard Blunt e Blacklock. Assim imersão passou desde então a ser um princípio universal, pois se tornou prática não somente dos Batistas Particulares como também dos Batistas Gerais provindos de John Smyth e Tomás Helwys (Ibid., p. 59). (Ano CV – 48, 27/11/05, p. 12).

1 Comentários:

esli pompeu escreveu...

Obrigado pelos esclarecimento Pr. Gilson.Como aluno do curso de história aprendi que narrativas históricas sem a análise crítica das fontes resvala em "ficção literária".Parece ser exatamente esse erro que o irmão Salovi comete.

Sexta-feira, 26 Maio, 2006  

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