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Blog de Gilson Santos

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28 Dezembro 2005

Os Cinco Solas e o Âmago da Identidade da Igreja

O Dr. James Montgomery Boice (1938-2000), no último livro que escreveu, O Evangelho da Graça (Whatever Happened to the Gospel of Grace), faz referências a pesquisas por sociólogos tais como George Gallup Jr. e George Barna, as quais indicam que a maioria dos evangélicos não acredita mais na verdade absoluta. 76% acreditam que os seres humanos são, por natureza, basicamente bons. 86% acreditam que, na salvação, “Deus ajuda aqueles que se ajudam”. Ele chama a atenção para o fato de que os evangélicos eram comumente definidos por sua teologia. Mas hoje são crescentemente definidos por seu estilo. Costumava-se procurar pastores que conheciam a Bíblia. Hoje os evangélicos procuram por ministros com habilidades de gerenciamento e entretenimento. Os evangélicos afluem para personalidade dinâmicas no púlpito em vez daqueles que exibem um caráter piedoso.

Gene E. Veith, no seu livro Tempos Pós-modernos, faz a seguinte observação:

Doutrina não sobrevive bem numa era de relativismo, então, para atrair os novos membros, o conteúdo teológico deve ser minimizado. E o povo não quer ouvir sobre pecado, assim, a igreja deve cultivar uma atmosfera de tolerância moral. Como as pessoas escolhem suas crenças religiosas tendo como base não tanto se são verdadeiras mas se elas “gostam” de uma igreja em particular, a vida da congregação deve ser feita tão agradável e não exigente quanto possível. A exaltação do princípio do prazer significa que os cultos de adoração precisam ser, acima de tudo, divertidos. A exaltação da vontade significa que deve-se dar aos clientes o que eles querem.

Certamente que esta é uma situação que conduz-nos a indagar: há esperança de que seja revertida? Existe realmente alguma esperança de que a igreja retorne ao evangelho da graça?

A realidade central para os evangélicos, como para todos os outros que se chamam pelo nome de Cristo, é que o Cristianismo é uma religião de verdade. É baseada em certos fatos da História que dizem respeito à revelação de Deus a seu povo e à salvação destas pessoas pela obra de seu Filho. Se, porventura, isto é esquecido ou perdido, como ele tem sido em nossos dias, o Cristianismo deixa de ser verdadeiramente cristão e se torna apenas outro programa de auto-ajuda religiosamente orientado.

Rememorando a Reforma

Michael Horton, em um dos seus livros, constata que muitos cristãos hoje estão experimentando frustrações similares às que vieram à tona na Reforma do século 16. Há 488 anos, um troncudo professor de Bíblia e monge fixou uma série de propostas em uma porta da igreja para debate acadêmico. Ele pouco sabia naquela tarde de outono que seria o povo em vez dos acadêmicos que iria espalhar o que se tornaria conhecido como a Reforma Protestante. O nome do monge era Martinho Lutero.

O cerne da preocupação de Lutero era a venda de indulgências. Quando o papa começou a ter obrigações financeiras com a construção da maior catedral da cristandade, São Pedro, em Roma, ofereceu aos cristãos o perdão dos pecados cometidos em troca de contribuição para o fundo de construção. Ninguém no Império era tão esperto ou estúpido neste empreendimento quanto o pregador Dominicano, João Tetzel. É dito que seu quarteto viajante até mesmo cantou, "Quando a moeda cai no cofre, uma alma liberta-se do purgatório". Outros compuseram sua própria versão: "Quando a moeda cai no jarro, o papa fica ainda mais rico". Este tipo de humor deveria soar familiar àqueles de nós que têm visto, através da televisão, paródias e piadas de mal humor acerca dos evangélicos brasileiros atualmente.

Aqueles que seguiram a Reforma foram chamados de "evangélicos", palavra derivada do termo grego evangel, de onde provém o vocábulo bíblico "evangelho". O termo “evangélico” foi utilizado porque se cria que o evangelho havia sido realmente recuperado, ainda que isto representasse para alguns um ponto de vista radical. Com isto não se quer dizer que não houvesse cristãos e igrejas, ou até mesmo clérigos, que criam no evangelho. Houve muitos que, por toda a Idade Média, fizeram o máximo para restaurar o evangelho à sua pureza bíblica. Vários estudiosos clamaram por uma recuperação do evangelho bíblico.

Todavia, pregar e ensinar a mensagem radical de um Deus que faz toda a salvação e que não deixa nada para o homem reivindicar como sua própria contribuição, era considerado uma ameaça à vida santa e aos regulamentos eclesiásticos. Na verdade, a pregação e ensino em geral estavam em declínio. Os leigos, analfabetos em sua maioria, tinham de deixar seus sacerdotes pensarem por eles. As pessoas realmente importantes na igreja medieval eram os monges e freiras, "os religiosos", que haviam desistido de suas posições mundanas na vida por uma chance melhor de ganhar o favor divino.

Assim, quais foram as idéias revolucionárias que romperam a Europa e jogaram tanto a igreja quanto a sociedade em um cenário dramaticamente novo?

Os Cinco Solas

A Aliança dos Evangélicos Confessionais é uma organização que foi formada para tratar da situação dos evangélicos contemporâneos. Ela iniciou-se em 1994 quando um grupo de líderes se reuniu para discutir o declínio que estava havendo no protestantismo e indagar se algo poderia ser feito para revigorar as igrejas evangélicas. Era um grupo dentre os mais renomados ministros evangélicos contemporâneos. A Aliança adotou o seguinte estatuto da missão:

A Aliança dos Evangélicos Confessionais existe para conclamar a igreja, no meio de nossa cultura decadente, a se arrepender de seu mundanismo, se recuperar e confessar a verdade da Palavra de Deus como fizeram os reformadores, e ver esta verdade incorporada à doutrina, adoração e vida.

O próximo passo foi ajuntar cento e vinte pastores evangélicos, professores e líderes de organizações para-eclesiásticas em Cambridge, Massachusetts, em abril de 1996, para produzir a "Declaração de Cambridge". Esta declaração, que foi o produto de quatro dias de encontros, argumentou que as maiores verdades que os evangélicos precisam recuperar são as doutrinas da Reforma resumidas pelas tão conhecidas solas (vocábulo em latim para "apenas" ou ""): sola Scriptura, que significa "somente a Escritura"; solus Christus, que significa "somente Cristo"; sola gratia, que significa "somente a graça"; sola fide, que significa "somente a fé"; e soli Deo gloria, que significa "glória somente a Deus".

Estes irmãos concluíram que algumas questões de teologia e de governo eclesiástico são discutíveis e indubitavelmente o serão até Jesus voltar. Isto é verdadeiro até entre os mais bíblicos teólogos e os mais sinceros crentes. Além disso reconhecem, como a maioria dos líderes, que nem tudo que é desejável para a igreja, é essencial para a sua sobrevivência. Mas estas qualificações não se aplicam aqui. Sem estas cinco declarações Confessionais – só a Escritura, só Cristo, só a graça, só a fé e glória somente a Deus – não temos uma igreja verdadeira e que sobreviverá por muito tempo. Pois como uma igreja pode ser verdadeira e fiel se não se mantém nas Escrituras somente, não é comprometida com o evangelho bíblico e não existe para a glória de Deus? Uma igreja sem estas convicções deixou de ser uma igreja verdadeira para ser qualquer outra coisa.

Um nobre desafio para o crente contemporâneo seria realizar um estudo mais aprofundando nestas cinco proposições, considerá-las seriamente em todas as suas inquietantes implicações, e defrontar-se com a magnitude das ações que elas reclamam de nossa parte, como membros do Corpo de Cristo nesta geração. A este propósito, quero recomendar o livro de Dr. Boice, O Evangelho da Graça, e também o livro Reforma Hoje, ambos pela Editora Cultura Cristã. Leia igualmente Tempos Pós-modernos, por Gene E. Veith, pela mesma editora.

Blog Ex Corde - © 2005, de Gilson Santos

1 Comentários:

Juan de Paula escreveu...

Gilson,

pois é! Aquela foto que mandei para lista de Lutero pregando as 95 teses na porta de uma "atual igreja evangélica brasileira" é confirmada pelo seu post.

Que Deus dê graça a nós para proclamarmos a verdade revelada na Palavra e defendida na reforma: Jesus Cristo e a salvação de pecadores pela graça por meio da fé.

Quarta-feira, 28 Dezembro, 2005  

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