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Blog de Gilson Santos

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16 Dezembro 2005

O Amiraldismo e o "Calvinismo de Quatro Pontos"

Nos anos 80 travei meus primeiros contatos com as Doutrinas da Graça, e experimentei minhas crises iniciais em relação à Fé Reformada. No início dos anos 90 procurei entender um refrão bastante repetido àquela época por alguns poucos calvinistas no Brasil - "o sacrifício de Cristo é suficiente para todos, mas eficiente apenas para os eleitos". Descobri que ele consiste de um jogo de palavras no original em língua latina: sufficienter pro omnibus, sed efficienter tantum por electis. Diversos teólogos e líderes batistas, de um passado remoto ou recente, ecoaram este refrão.

Pude constatar que o Calvinismo ortodoxo utilizou um conceito parecido, conquanto em um sentido específico, inclusive remontando ao Sínodo de Dort (Artigos 3 e 6, do segundo capítulo) e mesmo a João Calvino (exemplo: comentário de 1 João 2.2). Mas logo vi que muitos utilizavam o adjetivo "suficiente" de uma maneira diferente daquela que o calvinismo ortodoxo utilizava. O livro de Dr. Nettles "By His Grace and For His Glory" ajudou-me a elucidar este ponto, e mais tarde o livro de B. B. Warfield, "The Plan of Salvation" (o livro de Nettles encontra-se recomendando no web-site da CRBB). Foi neste ponto que me deparei com os ensinos da Academia Francesa de Saumur, e particularmente Moïse Amyraut (1596-1664), que algumas obras em português traduzem Moisés Amiraldo.

Tanto quanto pude perceber à época, a questão central era realmente o entendimento da natureza da expiação. As dificuldades com Amyraut não residem em que ele não seja “calvinista” – ele crê na predestinação, e crê na soberania de Deus, e é, por assim dizer, "particular" no que concerne à aplicação da redenção. E se você entende que estes elementos são definidores do calvinismo, então a posição amiraldista (chamada de "Universalismo Hipotético", ou "Pós-redencionismo") é perfeitamente calvinista. Desta forma, as diferenças entre Amiraldistas e Calvinistas (supralapsarianos e infralapsarianos) seriam diferenças dentro da “família calvinista”, onde a soberania de Deus e a responsabilidade humana são presumidas e afirmadas. A questão relaciona-se também com a discussão acerca da ordem lógica dos decretos de Deus antes da fundação do mundo. O esquema de Amyraut coloca os decretos de Deus assim:

1. Criação do mundo e de todos os homens.

2. A queda de todos os homens.

3. A morte de Jesus para redimir (todos) os homens.

4. A eleição de alguns homens caídos à salvação em Cristo e a reprovação de outros.

5. A aplicação dos benefícios redentores da morte de Cristo aos eleitos.

(Note que nesta discussão acerca da ordem de decretos não se tem em mente momentos históricos. Como Wayne Grudem escreve, isto “não diz respeito a alguma coisa que ocorreu no tempo, mas à ordem lógica dos pensamentos de Deus”. Todos esses decretos acontecerem antes da fundação do mundo.)

Dá para perceber que o sistema amiraldiano apóia uma redenção universal, com aplicação limitada – e por isso tem sido denominado de “Calvinismo de quatro pontos”. Porém, é preciso que se diga que nem todo mundo que se diz calvinista de 4 pontos sabe articular exatamente o significado disto. De fato, algumas pessoas têm mesmo dificuldades em articular de uma forma mais sistemática as doutrinas no bojo dos chamados “cinco pontos”: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos.

Um amado irmão em nossa CRBB colocou com muita propriedade que, em todo o mundo, e ainda mais dentro do nosso contexto brasileiro, precisamos nos esforçar ao máximo para valorizar todos os que afirmam uma visão da soberania de Deus. E isto inclui, portanto, os amiraldistas. De fato, a diferença entre quem afirma que “Deus predestinou quem ia crer” e “quem crê, crê porque Deus o predestinou” é realmente a maior distinção. Os “calvinistas de cinco pontos” devem reconhecer uma afinidade com “calvinistas de quatro pontos”, e não tê-los como arminianos. Assim, penso que, nesta hora, é sábio os calvinistas se esforçarem por manter seus contatos com aqueles que se professam amiraldistas. Respeitáveis teólogos batistas, como A. H. Strong (1836-1921) e o contemporâneo Millard J. Erickson, em linhas gerais, sustentam uma posição que enfatiza um caráter geral da expiação e um caráter particular da chamada eficaz, ocorrendo esta última somente nos eleitos.

Desta maneira, até onde posso compreender, o amiraldista não é, em rigor, um naturalista. O naturalismo está mais relacionado ao pajonismo, que é um desdobramento posterior verificado na Academia de Saumur através de Claude Pajon (1626-1685). A posição pajonista é também chamada de “Congruísmo”. Os congruístas destroem a inteira substância da doutrina da regeneração e renovação, a qual afirma que, por meio de um ato criativo do Espírito Santo, nós somos feitos novas criaturas. O Congruísmo, portanto, não pode ser consistentemente denominado "calvinismo de quatro pontos", pois acaba negando, de fato, também a doutrina da depravação total. Autores reformados podem conceituar "regeneração" com nuances diferentes, inclusive sugerindo pequenas variações na ordo salutis. Mas os reformados não serão naturalistas no que diz respeito à "regeneração" ou "vivificação", ou outro nome que se prefira. Tal distinção entre amiraldismo e congruísmo é importante que seja feita. Poucos têm sido os que percebem que, entre os batistas brasileiros, o problema está em que muitos são o que poderíamos chamar de “naturalistas não-sistemáticos”, isto é, defendem um naturalismo popular, pouco ou nada refletido. Nem se pode dizer que fazem a afirmação confessional arminiana da "graça preveniente", como está, por exemplo, na obra de Dr. Henry C. Thiessen publicada em português pelos batistas regulares.

Embora tudo isto que tenho dito, ainda assim sou levado a concordar com B. B. Warfield (1851-1921) e mesmo Dr. Nettles, que a posição amiraldiana não é um BOM calvinismo. A questão é que a escola saumuriana, definitivamente, rejeita a convicção da "substituição penal" na morte de Cristo. E aqui está o problema! Certamente que com tantas áreas vitais que precisam ser resgatadas no meio evangélico brasileiro, não deveríamos contender por questiúnculas ou assuntos bizantinos. Temos que ter bastante tato e sabedoria para discernir entre o central e o periférico. Não obstante, tenho visto a importância de uma afirmação confessional batista nesta questão dos “cinco pontos”. No que diz respeito ao terceiro ponto (o ponto nevrálgico), eu me indago sobre o que de mais importante e central pode ter na fé cristã do que a natureza do sacrifício de Cristo.

Para uma leitura da posição reformada batista acerca da doutrina da expiação, destaco, abaixo, algumas afirmações da Confissão de Fé Batista de 1689:

8.1. Em seu propósito eterno, e de acordo com o pacto estabelecido entre ambos, aprouve a Deus escolher e destinar o Senhor Jesus Cristo, seu Filho unigênito, para ser o mediador entre Deus e os homens; para ser o profeta, sacerdote e rei; o cabeça e Salvador de sua Igreja; o herdeiro de todas as coisas e juiz do mundo. Desde toda a eternidade, Deus deu-Lhe um povo para ser sua descendência, e para que, em tempo, esse povo seja por Ele redimido, chamado, justificado, santificado e glorificado.

8.4. Esse ofício o Senhor Jesus assumiu de muitíssima boa vontade e cumpriu perfeitamente; foi para isso que nasceu sob a lei. Ele suportou o castigo que a nós era devido, que nós deveríamos ter recebido e sofrido. E foi feito pecado e maldição, por nossa causa, suportando as tristezas mais aflitivas em sua alma, e os sofrimentos mais dolorosos em seu corpo. Foi crucificado e morreu; e, embora tenha estado sob o poder da morte, seu corpo não viu corrupção. Ao terceiro dia Ele se levantou dentre os mortos, com o mesmo corpo em que havia sofrido, e com o qual ascendeu ao céu. Ele está assentado à direita de seu Pai, como intercessor, e voltará para julgar homens e anjos, no fim do mundo.

8.5. Por sua obediência perfeita, e pelo sacrifício que fez de si mesmo (que Ele, pelo Espírito Santo, ofereceu a Deus uma única vez), o Senhor Jesus satisfez plenamente a justiça de Deus, obteve a reconciliação e adquiriu uma herança eterna no reino dos céus, para todos quantos foram dados a Ele pelo Pai.

8.6. O preço da redenção não foi pago por Cristo senão após a sua encarnação. No entanto, a virtude, a eficácia e os benefícios da redenção foram sucessivamente comunicados aos eleitos, em todas as eras, desde o começo do mundo, nas – e através das – promessas, tipos e sacrifícios em que Cristo foi revelado, e que o apontavam como o descendente da mulher, aquele que iria esmagar a cabeça da serpente; e como o Cordeiro que foi morto desde a fundação do mundo, o mesmo ontem, hoje e para sempre.

8.8. Cristo certamente aplica e comunica eficazmente a redenção eterna, para todos quantos Ele a obteve: fazendo intercessão por eles; unindo-os a si mesmo por seu Espírito; revelando-lhes o mistério da salvação, na Palavra e pela Palavra; persuadindo-os a crer e obedecer; governando os corações deles por seu Espírito e sua Palavra; e vencendo todos os inimigos deles, por seu poder e sabedoria infindos, de modo tal e por caminhos que são os mais harmoniosos com a sua maravilhosa e insondável providência; e tudo por sua graça livre e soberana, sem a precondição de neles ter sido vista de antemão uma busca pela redenção.

11.3. Pela sua obediência e morte, Cristo pagou plenamente a dívida de todos os que são justificados. A favor destes, pelo sacrifício de si mesmo, no sangue da sua cruz, Ele deu satisfação adequada, verdadeira e plena à justiça de Deus, quando tomou o lugar deles e recebeu a punição que a eles era devida.

O Pai voluntariamente concedeu Cristo, e livremente aceitou a obediência de Cristo e o seu cumprimento da Lei, em substituição, a favor dos que seriam justificados, sem que neles houvesse mérito algum. Portanto, justificação advém exclusivamente da graça gratuita, para tanto a justiça rigorosa como a abundante graça de Deus possam ser glorificadas na justificação de pecadores.

21.1. A Liberdade que Cristo comprou para os crentes, no evangelho, consiste na libertação da culpa do pecado, da ira condenatória de Deus, do rigor e da maldição da lei; e consiste na libertação dos crentes deste mundo perverso, da escravidão a Satanás, do domínio do pecado, da malignidade das aflições, do medo e do aguilhão da morte, da vitória da sepultura, e da perdição eterna. Consiste no livre acesso a Deus, no prestar-lhe uma obediência não suscitada por medo escravizador; e, sim, por amor, como o de uma criança, voluntariamente.

Tudo isto, em essência, aplicava-se também aos crentes que viviam sob a lei. Sob o Novo Testamento, porém, a liberdade cristã é ampliada, na libertação do jugo da lei cerimonial a que a igreja judaica estava sujeita, na maior ousadia de acesso ao trono da graça, e maior medida do livre Espírito de Deus do que os crentes normalmente desfrutavam sob a lei.

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