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Blog de Gilson Santos

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21 Dezembro 2005

C. S. Lewis, Nárnia e a Doutrina da Expiação

Está em exibição no Brasil mais uma superprodução da DISNEY: As Crônicas de Nárnia: O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa[1]. O filme é baseado na obra clássica de C.S. Lewis (1898-1963), um notável pensador cristão. Boa parte da fama de Lewis veio por causa de seus livros infantis, que são cheios de sua visão de mundo cristã.

Quando o irlandês Clive Staples Lewis morreu, pouca gente deu atenção. Os jornalistas do mundo inteiro estavam ocupados com outra tragédia mais “importante” acontecida exatamente no mesmo dia: o assassinato do presidente John Kennedy. C.S. Lewis morreu em 23 de novembro de 1963, deixando uma vasta obra literária especializada no público infantil. E nela se encontram os sete livros da coleção As Crônicas de Nárnia, uma série de aventuras épicas recheada de fantasia que – como um crítico tem acertadamente salientado - “o cinema não ousou filmar até agora, e nem poderia ser diferente: só agora existe tecnologia suficiente em efeitos especiais para dar alguma veracidade a esta história tão fantástica”. Houve uma adaptação mais modesta de O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa feita pela televisão britânica em 1988, com razoável sucesso, mas devido ao pouco apelo da série por aqui, pouquíssimas pessoas ouviram falar desse filme. E, se alguém notar semelhanças com a trilogia O Senhor dos Anéis, cabe destacar que J.R.R. Tolkien foi amigo pessoal de C.S.Lewis, e ambos pertenceram até ao mesmo clube literário, na Universidade de Oxford.

Obviamente, a obra deste renomado professor de Cambridge não se encontra acima da crítica, nem mesmo por parte dos cristãos. E nem deveria ser diferente. E isto é ainda mais verdadeiro em relação ao filme dirigido por Andrew Adamson. Brian Godawa ousa “profetizar” em sua crítica que “liberais , socialistas e outras pessoas ligadas à modernidade não gostarão deste filme, por incorporar verdades detestadas por eles”. Ele está certo quando diz que a essência do cristianismo é a expiação substitutiva de Cristo por seu povo. “Jesus tomou sobre si mesmo a pena de morte por todos os crentes. Isto, e apenas isto, é o enigma filosófico-teológico da união perfeita do amor e da justiça”. Como Aslam explicou: “Se uma vítima voluntária, inocente de traição, fosse executada no lugar de um traidor”, então a “ Magia Profunda” seria cumprida, isto é, a lei seria cumprida mediante o sacrifício expiatório de Cristo. Afirmar que a lei exige sangue para a realização da justiça verdadeira com certeza é abominado como barbárie primitiva pela “mente iluminada da inteligência contemporânea”. A doutrina cristã da expiação é nonsense e declinante no tribunal do homem moderno. Uma crítica deste filme chegou a escrever algo assim: “eu não pedi a Jesus Cristo para morrer em meu lugar”. Penso que, mesmo não percebendo, ela não poderia ter se expressado de forma tão absolutamente certa. Pois se ela houvera pedido, a força do filme e da própria natureza da expiação cairiam por terra, bem como boa parte de seus incômodos.

Talvez, a este respeito, algo que o próprio C.S. Lewis escreveu possa contribuir para entendermos este tipo de reação:

(...) O Cristianismo simplesmente não terá sentido se não encararmos primeiro os fatos que descrevi. O Cristianismo diz às pessoas que se arrependam e lhes promete o perdão. Nada, portanto, tem a dizer (pelo que me consta) às pessoas que não sabem que fizeram algo de que devam se arrepender e que não sentem que precisam de perdão. É depois de compreendermos que existe uma Lei Moral real, e um Poder por trás da lei, e que infringimos essa lei e nos tornamos culpados perante este Poder; é depois de tudo isso, e não antes, que o Cristianismo tem algo a nos dizer. Somente procuramos um médico se sabemos que estamos doentes. Somente depois de percebermos que a nossa posição é quase desesperadora, é que começamos a compreender o que dizem os cristãos. Eles têm uma explicação de como caímos nesta situação de, ao mesmo tempo, amarmos e odiarmos a divindade. Eles têm uma explicação de como Deus pode ser essa mente impessoal por trás da Lei Moral e, ao mesmo tempo, uma Pessoa. Eles dizem como as exigências desta lei, às quais nenhum de nós pode satisfazer, foram satisfeitas em nosso nome; como o próprio Deus se fez homem para salvar o homem da condenação por Deus. É uma velha história e, quem quer conhecê-la, que consulte alguém com mais autoridade neste assunto do que eu. Quero somente pedir a tais pessoas que enfrentem os fatos, que compreendam os problemas para os quais o Cristianismo afirma ter uma solução. E são fatos impressionantes. Gostaria, se possível, de dizer coisas mais agradáveis. Mas preciso dizer o que sei ser a verdade. Não tenho dúvidas quanto a que a religião cristã é, no final das contas, algo que nos proporciona uma satisfação indizível. Mas ela não começa pelo conforto; começa pelo desconforto (...) E não adianta procurar essa satisfação sem passar primeiro por aquele desconforto. Na religião, como na guerra e em tudo na vida, satisfação é coisa que não obtemos procurando por ela. Se procurarmos a verdade, poderemos encontrar a satisfação no fim; se procurarmos primeiro a satisfação, não encontraremos nem a satisfação nem a verdade, apenas a adulação e a falsa esperança e, no fim, o desespero. A maioria de nós curou-se das ilusões sobre a política internacional de antes da última guerra. É tempo de fazermos o mesmo com a religião.[2]

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[1] Título Original: The Chronicles of Narnia: The Lion, the Witch and the Wardrobe, 135 minutos, EUA: 2005, Site Oficial: www.disney.com.br/cinema/narnia. Estúdio: Walt Disney Pictures / Walden Media / Lamp Post Productions Ltd. Distribuição:
Walt Disney Pictures / Buena Vista International .
Direção: Andrew Adamson. Roteiro: Ann Peacock, Andrew Adamson, Christopher Markus e Stephen McFeely, baseado em livro de C.S. Lewis.
Produção: Mark Johnson. Música: Harry Gregson-Williams. Fotografia: Donald McAlpine. Desenho de Produção: Roger Ford. Direção de Arte: Jules Cook, Ian Gracie, Karen Murphy e Jeffrey Thorp. Figurino: Isis Mussenden. Edição: Sim Evan-Jones e Jim May. Efeitos Especiais: Industrial Light & Magic / Rhythm & Hues / Weta Workshop Ltd. / Sony Pictures Imageworks / K.N.B. EFX Group Inc.
[2] LEWIS, C. S. A Essência do Cristianismo Autêntico. São Paulo: ABU – Aliança Bíblica Universitária, 1979, p. 18. Original Mere Christianity,cuja primeira edição saiu em 1942.

4 Comentários:

Blogger Augustus Nicodemus escreveu...

Caro Gilson,

Boa postagem. Eu diria que quanto ao cerne da soteriologia do Cristianismo, "Nárnia" o representa bem, que é a doutrina da substituição. É claro que em se tratando de uma alegoria, nem todos os pontos dela têm correspondentes exatos na coisa significada. Mas no geral, Lewis conseguiu transmitir bem este ponto. Parabéns pelo posto.

Sábado, 24 Dezembro, 2005  
Blogger Mauro Meister escreveu...

Olá Gilson, ainda não tivera o privilégio de acessar seu blog. Postei também alguma coisa sobre Nárnia. Concordamos bem sobre a matéria.
Um grande e saudoso abraço.

Sábado, 14 Janeiro, 2006  
Anonymous Anônimo escreveu...

Não concordo com sua colocação sobre Nárnia. Um texto repleto de seres místicos, advindos das trevas que lutam ao lado do “bem”... entre outras coisas não se torna melhor porque em algum momento "faz lembrar" a obra expiatória de Cristo.

Quinta-feira, 16 Fevereiro, 2006  
Blogger Rick escreveu...

Amigos,

Meu nome é Ricardo, e assisti, junto com meus filhos, com paciência e "sem preconceito", ao filme baseado na obra das Crônicas de Nárnia. Achei maravilhoso, e profundo, bem como uma forma extraordinária de trazer a mensagem de Cristo numa linguagem atual e sem dúvida nenhuma, contemporanea com o que tem sido feito pelo mundo (maligno). Existe tanto misticismo nas filmes e livros atuais, que de alguma forma encantam nossas crianças, que pareceu bem ao nosso Sábio Senhor, guardar estas crônicas para este momento, como uma arma contra tanto engano místico de bruxaria e tudo o mais. Assim, fico feliz de saber que Deus já estava preparado para este tempo e temos o que apresentar aos nossos filhos como "entretenimento", sem corromper suas mentes frágeis com as aventuras atuais de magos e bruxos modernos.
Quero lembrar que todo radicalismo é perigoso, mesmo porque para os fariseus e escribas, Jesus era um "inimigo de Deus, sua pregação era errada e contrariava os costumes religiosos da época", por isso o condenaram a morte. Graças a Deus eles estavam enganados e Jesus Ressucitou.

Sexta-feira, 28 Dezembro, 2007  

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