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Blog de Gilson Santos

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20 Novembro 2005

Sucessionismo Batista

No século XIX, entre os batistas norte-americanos, tornou-se muito influente um tipo de leitura da história batista. Antes, porém, de uma compreensão da história batista, tratava-se, muito mais, de uma interpretação específica da própria natureza da Igreja.

Talvez uma das figuras mais emblemáticas deste movimento tenha sido James R. Graves (1820-1893). Ministro sincero, dedicado, e grande defensor da inspiração plenária e verbal das Escrituras, Graves conduziu um movimento no Sul dos Estados Unidos que veio a ser denominado "Landmark Controversy", caracterizado por uma particular eclesiologia. Ele insistia por uma renovação nas igrejas baseada num retorno às "Old Landmarks" (expressão inglesa, literalmente, land=terra + mark=marca, que enfatiza os “marcos” de um local). Segundo Graves, uma verdadeira igreja teria algumas marcas distintivas, e incluíam uma ênfase na congregação local (com a correspondente negação da existência atual e terrena de uma igreja universal) e a necessidade de uma administração autorizada das ordenanças, antes de serem consideradas como válidas. Isto estava intimamente relacionado à crença de Graves de que Cristo, na Grande Comissão, prometeu que haveria uma sucessão histórica de verdadeiras igrejas. O nome destas igrejas poderia variar através dos anos, mas Graves as identificava como Igrejas Batistas. Conseqüentemente, nenhum batismo poderia ser válido se este não foi celebrado por uma congregação batista local corretamente constituída, e a mesa da Ceia do Senhor deveria acolher apenas os membros da Igreja Batista local.

Utilizando seu jornal The Tennessee Baptist, Graves influenciou muita gente. Tão forte tornou-se o landmarquismo que, no início do século XX, o sucessionismo batista casou-se com o fundamentalismo batista. Nos Estados Unidos, foi organizada em 1905 a Associação de Batistas Landmarquistas, como uma reação às tendências centralizadoras na Convenção do Sul. Mais tarde o grupo tomou o nome de American Baptist Association, que endossou a Declaração de Fé de New Hampshire. E, em 1950, a associação dividiu-se (por motivos não essencialmente doutrinais) e diversas igrejas formaram a North American Baptist Association. Também outros grupos batistas fundamentalistas foram grandemente influenciados pela compreensão sucessionista.

A Confissão Batista de New Hampshire

Em 1867, o bom amigo de Graves, J. M. Pendleton (1811-1891), pastor em Upland, Pensilvânia, incorporou a Confissão Batista de New Hampshire no Manual da sua Igreja, e como um líder do movimento dos batistas Landmarquistas, assegurou sua adoção como declaração de doutrina para as igrejas e associações do tipo Landmark. O silêncio daquela Confissão de Fé na doutrina da Igreja Universal fê-la particularmente adaptável para as ênfases deste grupo na congregação local e visível. Também Edward T. Hiscox (1814-1901) colocou-a em seu Standard Manual e em seu New Directory, fazendo ampliações em cada tempo.[1] B. H. Carroll (1843-1914), ao organizar o Seminário Teológico Batista do Sudoeste (Southwestern Baptist Theological Seminary), adotou a Declaração de New Hampshire, mudando só uma palavra. Trata-se da palavra “visível”, no artigo acerca da “Igreja Evangélica”. Carroll rejeitava a idéia de alguma “igreja invisível”, logo entendeu que a palavra “visível”, naquele artigo, era um eco de Westminster. A Junta do Seminário apoiou, e a adoção da mesma foi homologada pela Convenção do Sul, votando-a unanimemente. A instituição teológica, organizada primeiramente como Baylor Theological Seminary em 1905, mudou-se para Fort Worth, Texas, em 1908, passando a ser instituição dos Batistas do Sul dos Estados Unidos. É bom lembrar que Carroll muito influenciou os pioneiros batistas no Brasil, e legou marcas ao pensamento teológico de líderes denominacionais em terras brasileiras.[2]

O Sucessionismo Batista no Brasil

Alguns elementos da eclesiologia landmarquista tiveram grande influência entre teólogos Batistas do Sul, até porque havia muitos elementos em comum em sua eclesiologia. No Brasil, alguns missionários (principalmente os oriundos da região sudoeste dos Estados Unidos, onde predominavam idéias landmarquistas) e líderes nacionais foram grandemente influenciados pelo movimento landmarquista, particularmente pelo livro de J. M. Pendleton, Christian Doctrine (1878) e pelo livro de
J. M. Carroll, O Rastro de Sangue publicado em 1931.
[3]

Entre os pioneiros, Zachary Clay Taylor (1851-1919) usou com grande vantagem a página impressa para o estabelecimento das bases futuras do trabalho. Hoje talvez seja impossível dar a lista completa de livros e folhetos que ele publicou. Cabe a ele o ter editado o que se supõe ser o primeiro livro dos batistas brasileiros, isto é, Origem e História dos Batistas.[4] Este livro, escrito em inglês pelo Dr. S. H. Ford, foi traduzido por Zachary Taylor para o português em 1886. Ford defende nesta obra a mesma tese esposada pelo opúsculo Rastro de Sangue, a saber, que os batistas podem traçar historicamente a sucessão de igrejas e doutrinas batistas até os tempos neotestamentários.

Na tradução que fez do livro de Ford, Taylor incluiu como apêndices um resumo de Regras Parlamentares (“Ordem do Governo das Igrejas Batistas”) e sua tradução da Confissão de New Hampshire, sob o título “DECLARAÇÃO DE FÉ DAS IGREJAS BATISTAS NO BRASIL”. É bom ter em mente que quando Taylor refere-se às "Igrejas Batistas do Brasil" estas não eram mais do que meia dezena até então organizadas.

O livro de Ford foi largamente usado e difundido entre os batistas naqueles primórdios. Acerca deste livro, escreveu Ginsburg:

Depois da Bíblia, este livro tem sido um esteio principal na maioria das igrejas batistas brasileiras. A tradução não é das melhores, o argumento histórico pode não ser o mais moderno, mas o livro tem sido um meio de edificar as jovens igrejas na "fé que uma vez foi dada aos santos", e tem desenvolvido uma irmandade batista que pode se orgulhar de sua história e que está ciosa de seus privilégios e feitos.[5]

O missionário-teólogo que mais influenciou os batistas brasileiros foi, sem dúvida, W. C. Taylor (1886-1971). Representante convicto de um landmarquismo posterior, Taylor muito influenciou, especialmente por meio da cátedra, de sua coluna periódica n’O Jornal Batista, e de seus inúmeros livros publicados no Brasil. Taylor também se envolveu em ferrenhas e dolorosas controvérsias com líderes presbiterianos e metodistas.

Entre as ênfases landmarquistas, que permanecem entre batistas no Brasil, incluem-se: esforços para se confirmar uma linhagem histórica batista desde os tempos do Novo Testamento; tentativas de dissociar os batistas do protestantismo; e uma resistência em reconhecer como válida qualquer ordenança realizada por igrejas evangélicas não-batistas.

Uma análise acadêmica do sucessionismo tem sido escrita por James Edward McGoldrick,Baptist Successionism; a Crucial Question in Baptist History (192 páginas - ISBN: 0-8108-3681-5, Scarecrow Press). Esta obra está recomendada na lista de livros no web-site da CRBB. Em língua inglesa, uma resenha para este livro pode ser encontrada em: http://www.founders.org/FJ21/reviews.html#mcgoldrick.

__________


[1] LUMPKIN, William L. Baptist Confession of Faith. 1a. ed. Filadélfia: The Judson Press, 1959, p. 361.
[2] Sobre o relacionamento dos missionários pioneiros no Brasil com B. H. Carroll, veja, HARRISON, Helen Bagby. The Bagbys of Brazil. Nashville: Broadman Press, 1954, p. 3.
[3] The Trail of Blood, título original da obra do pastor batista J. M. Carrol (1858-1931). Para uma versão atual online: http://www.acts2.com/thebibletruth/Online%20Books/Trail-of-Blood.PDF [capturado em outubro/2004]. Uma versão online em português pode ser obtida em: http://www.solascriptura-tt.org/EclesiologiaEBatistas/ [capturado em novembro de 2004].
[4] Dr. S. H. Ford (1819-1905) escreveu este livro em 1860. Ford foi um scholar entre os Batistas do Sul, representante de um landmarquismo posterior, um pouco mais moderado, embora ele mesmo tenha negado que fosse landmarquista. Além do pastorado em igrejas locais, ele exerceu a função de redator do Christian Repository por mais de 60 anos. O líder landmarquista J. R. Graves escreveu a introdução do livro. FORD, S. H. Origem e História dos Batistas. 2. ed. revisada. Filadélfia. Para uma versão atual online, consulte: http://www.reformedreader.org/history/ford/toc.htm [capturado em outubro/2004].
[5] Cf. GINSBURG, Salomão. Um Judeu Errante no Brasil. 2. ed. Rio de Janeiro: Casa Publicadora Batista, 1970, pp. 72-73. Obra escrita em inglês em 1921, e traduzida para o português em 1931 por Manoel Avelino de Souza. Original: A Wandering Jew in Brazil: An Autobiography of Solomon L. Ginsburg. Nashville: Sunday School Board, Southern Baptist Convention, 1922.

1 Comentários:

Anônimo escreveu...

Preciso adquirir o livro "Um judeu errante no Brasil" e não consigo localizá-lo em lugar algum. Vcs tem como me ajudar?
Grata
Thais Oliveira
sideral@frionline.com.br

Terça-feira, 11 Julho, 2006  

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